-- ------ 8 horas de diferença horária e toda uma diferença de mentalidade em relação ao futebol (Parte 3)
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8 horas de diferença horária e toda uma diferença de mentalidade em relação ao futebol (Parte 3)

8 horas de diferença horária e toda uma diferença de mentalidade em relação ao futebol (Parte 3)

Estando quase perto do final este ano zero deste meu mais recente projeto por terras chinesas, e após na primeira e segundas partes ter falado sobre as diferenças culturais e sobre as iniciativas que pretendia apresentar de modo a desenvolver o futebol neste pequeno County onde o futebol está a anos de desenvolvimento em relação a Portugal, venho apresentar os resultados desta minha aventura.

 

Numa altura em que estamos na fase final de preparação para o campeonato escolar de Luochuan, o qual pode ser ou não a única competição que os atletas terão em todo o ano, isto é, caso sejamos campeões seremos então classificados para os campeonatos de Yan’an enquanto que qualquer outra posição termina a competição para os jogadores, podemos afirmar que os resultados desportivos e organizativos (obviamente não os competitivos, pois ainda não houve qualquer competição) são positivos dentro das baixas expetativas.

Num contexto onde a relevância dada ao desporto, essencialmente ao futebol, é bastante baixa, no qual a formação dos jogadores é algo descabida para o contexto ocidental e a seleção de jogadores para as equipas da escola são feitas pela capacidade física e não pelas capacidades técnicas e tomada de decisão, onde tudo é pensado a curto prazo e nos resultados competitivos e não no desenvolvimento de jogadores de futebol, onde a qualidade de jogo é algo que não entra nos dicionários e a bola anda pelo ar a maior parte do tempo de jogo, o conseguir dar alguma perspetiva a médio prazo já é uma grande vitória.

 

1. O que existia?

Quando aqui cheguei, já íamos a meio do primeiro semestre. Logo, já estavam instituídas algumas condições básicas na escola.

Quanto a condições logísticas e materiais, a escola apresentava um campo de futebol de 8, 200 bolas, coletes e escadas de coordenação.

No que concerne a recursos humanos, cada equipa tinha treinador, sendo a maior parte deles professores de educação física. Um deles era professor de matemática.

As equipas existentes eram as de U12, U10 e WU12 (as únicas que têm competição). Existia ainda uma equipa de U9 (alunos de 1.º e 2.º ano) a começar. Esta graças a uma professora de educação física que tem sido a minha principal aliada no que concerne à evolução do futebol. Ainda que, diga-se, todos os outros sejam também bastante abertos às propostas apresentadas.

 

2. O que foi conquistado?

No que diz respeito a material de treino, foi adquirido material que considero essencial para um melhor ensino do futebol. Concretamente marcas planas (flat marks), cones e mini balizas.

No que diz respeito à organização, também foi dado um grande passo, essencialmente no que diz respeito ao pensamento futuro.

Neste momento, apresentamos, para além das equipas de competição (U12, U10 e WU12), uma equipa de U8, uma equipa de U9 (cada uma com mais de 20 jogadores) e recentemente conseguimos a criação de uma equipa de WU10. Pode não parecer muito, mas é uma grande vitória que se tenha conseguido pensar em preparar jogadores para as equipas de competição o mais cedo possível. Só assim, em minha opinião, terão qualidade quando lá chegarem.

E, sim, infelizmente refiro-me às equipas de U12, U10 e WU12 como equipas de competição, uma vez que o que aqui interessa é ganhar os campeonatos escolares. Formar jogadores é algo que ainda não percebem e vai demorar algum tempo a perceberem.

Quanto às aulas de educação física de futebol, após um primeiro semestre em que todos na escola tiveram a oportunidade de poder experimentar, neste segundo decidimos concentrar as aulas nos alunos de 1.º e 2.º ano. Primeiro porque era impossível continuar a lecionar aulas a 120 alunos como a escola pretendia. Segundo porque, na minha perspetiva, torna-se muito mais importante fornecer bases aos mais jovens e esperar que sejam influenciados positivamente pela experiência e comecem a praticar nos seus tempos livres e intervalos da escola.

Um dos pontos altos foi a criação de um campeonato interturmas no qual participaram as turmas de 3.º, 4.º, 5.º e 6.º ano. Cada uma delas com uma equipa masculina e outra feminina, divididas em diferentes campeonatos por anos e géneros. Isto, embora por questões temporais, tenha resultado em poucos jogos por cada equipa, a verdade é que se notou uma clara evolução de jogo para jogo. Tanto na qualidade de jogo, como na competitividade entre equipas e paixão pelo futebol, jogadores e outros alunos.

Quanto a jogos de treino/preparação, apenas tiveram a sua continuação agora que faltam poucas semanas para a competição. Primeiro pela importância (ou falta dela) que dão ao futebol faz com que a aceitação de jogos de treino por parte de outras escolas sejam difíceis. Segundo porque as outras escolas primárias são poucas na cidade e as dos arredores ficam consideravelmente longe. Terceiro porque nem todas as escolas apresentam todos os escalões.

Os U12 já realizaram 2 jogos, um contra outra equipa de U12 (o qual resultou numa derrota por 0-1). A derrota não me deixou aborrecido, na medida em que foi apenas um jogo de preparação. No entanto, a exibição deixou-me bastante irritado, uma vez que tudo o que temos vindo a treinar durante o período que aqui estou não foi cumprido. O jogar curto e apoiado, o deslocamento para dar linhas de passe, a posse de bola na procura de abrir espaços para criar situações de finalização e o ataque e defesa em bloco de linhas compactas foi por água abaixo, dando lugar a chuto para a frente e um buraco entre defesas, médios e avançados ao ver que os adversários tinham o dobro do seu tamanho.

Por muito que se treine, se não houver competição regular estas situações irão sempre acontecer quando se depararem com situações que não estão habituados nos treinos. O facto de o tradutor não estar disponível na altura também não ajudou em nada.

Isto aconteceu após no dia anterior terem defrontado uma equipa de U15 feminina, terem executado na perfeição tudo o que foi pedido e terem ganho por 5-0.

Quanto à equipa de U10, também já realizou um jogo de preparação tendo vencido por 7-0. Esta equipa demonstra claramente uma outra noção de jogo, uma maior assertividade na tomada de decisão e bem maior qualidade técnica que os U12. Sempre a jogar curto e apoiado desde o guarda-redes, bastante iniciativa e criatividade na procura de desequilibrar a defensiva contrária e, visto que treinam regularmente contra os U12, uma clara descontração por estarem a jogar contra uma equipa com jogadores significativamente maiores do que eles.

Isto é algo que vai ser recorrente durante o torneio, uma vez que os treinadores chineses afirmam claramente que selecionam os jogadores pelo tamanho e força.

A equipa de WU12 infelizmente ainda não efetuou qualquer jogo-treino contra outra equipa. Tanto por falta de equipas, como de vontade dos treinadores adversários. A competição resume-se apenas a jogos-treino contra outras equipas da escola.

A criação de um treino de guarda-redes por semana foi algo bastante positivo. Tanto na parte da sua evolução técnica, como de compreensão dessa posição específica. Tem sido tão positiva que recentemente até guarda-redes de uma Middle and High School têm aparecido aos treinos para aprender e, assim, evoluírem.

Numa perspetiva mais formativa, a realização de formações mensais dirigidas a treinadores de futebol do County também tem sido positiva. Apesar de a maioria dos treinadores serem adeptos de basquetebol e não de futebol, a verdade é que têm comparecido aos meetings e têm participado ativamente.

 

3. Interação com a Associação de Futebol

Considerando eu que a Luochuan Football Association deveria ser o principal impulsionador do futebol no County, uma das minhas preocupações foi entrar em contacto com eles de modo a dizer-lhes que estaria disposto a colaborar na dinamização de iniciativas de desenvolvimento do futebol.

Bem, no que diz respeito a este ponto, dizer que foi um fracasso se calhar é pouco. A verdade é que entrei em contacto com Presidente e Vice-presidente da Associação de modo a apresentar propostas de desenvolvimento e ambos, praticamente sem ouvir nada, deram a mesma resposta: não há dinheiro. Isto na China é um eufemismo para “Isso parece que me vai dar trabalho, logo não estou interessado”.

Embora não tenha desistido da parte de me envolver na Football Association, a verdade é que temos de aprender a escolher as nossas batalhas. E cada coisa a seu tempo. Por enquanto, a Luochuan Football Association continua a ser algo em que os elementos que a constituem se juntam de vez em quando para fazer um jogo de futebol.

Já a interação com a Football Association de Yan’an tem sido bem mais produtiva, uma vez que fui convidado para ser formador do Curso de treinadores AFC E organizado por eles, juntamente com os meus colegas Ricardo Freitas e Eduardo Clemente.

Após este curso de treinadores, fui convidado pela Associação a ajudar nos treinos realizados por eles. Algo que me foi impossível aceitar devido à distância entre Luochuan e Yan’an.

 

4. O que reserva o futuro?

Neste momento, o futuro imediato é a participação nos campeonatos escolares de Luochuan com as equipas de U12, U10 e WU12. Dependendo da classificação obtida nestes, a possível participação nos campeonatos escolares de Yan’an.

Numa perspetiva de continuação do projeto iniciado aqui em Luochuan, a directora da escola já me inquiriu sobre a possibilidade de continuar o meu trabalho na escola. No entanto, visto que não sou contratado pela escola nem pelo gabinete de educação local, mas sim pelo governo Chinês, tudo estará dependente da continuação ou não do apoio deste.

A minha resposta foi afirmativa. Não obstante, estará sempre dependente da aceitação de evolução por parte das entidades envolvidas no fenómeno desportivo em Luochuan e da definição de objetivos claros para o desenvolvimento deste. Se por parte da escola a aceitação de propostas para o desenvolvimento tem sido bastante aceitável, a Associação de Futebol e o Gabinete de Educação terão de ser mais ativos, essencialmente na criação de competição regular para que os jovens jogadores possam evoluir.

Sendo assim, espero brevemente apresentar mais um capítulo desta aventura no final do contrato no qual espero apresentar os resultados dos campeonatos escolares e a continuação, ou não, neste projeto.

P.S.: Apesar de ser uma realidade, o título, aquando da primeira parte, agora já se encontra desatualizado, uma vez que com a mudança de horário em Portugal para o horário de verão passaram a ser apenas 7h de diferença. Infelizmente, a diferença de mentalidades continua a ser uma realidade que não permite um total desenvolvimento do futebol, a formação de jogadores de qualidade ou mesmo a prática regular.

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