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8 horas de diferença horária e toda uma diferença de mentalidade em relação ao futebol (Parte 1)

8 horas de diferença horária e toda uma diferença de mentalidade em relação ao futebol (Parte 1)

Estamos habituados em Portugal a criticar tudo e mais alguma coisa em relação ao nosso futebol, umas vezes mais acertadamente, outras um bocado descabidas, mas todas essas opiniões são certamente relevantes para pensarmos sobre o estado do nosso futebol e, quem sabe, fazer alterações relevantes para a evolução do futebol em Portugal.

No entanto, só mesmo quando decidimos embarcar numa aventura de treinar noutro país, no meu caso a China, apercebemo-nos do bem que se faz e vive o futebol em Portugal.

Neste artigo não irei falar da minha experiência em terras Chinesas, para isso o BomFutebol já apresenta semanalmente os artigos de excelente qualidade do meu colega e amigo do BomFutebol e colega de projecto por terras de Yan’an Ricardo Freitas (o qual deixo aqui no final do artigo os links para os seus artigos que aconselho vivamente a ler).

Seleccionado para trabalhar na Fengyuan Primary School de Luochuan, Yan’an no qual estou a leccionar a modalidade de futebol a todas as turmas da 1st ao 6th grade uma vez por semana em aulas de 30 minutos e treinar as equipas de 2nd Grade, U10, U12 e WU12 uma vez por semana em treinos de uma hora, deparo-me com as gritantes diferenças culturais no que concerne à formação de jogadores.

Falando única e exclusivamente do contexto que encontrei nesta região, uma vez que já passei por outros projecto neste país, nomeadamente a Figo Football Academy no qual encontrei um staff técnico bastante competente em Beijing e Chongqing, neste último caso seguindo o excelente trabalho desenvolvido por José Melícias e Mauro Jerónimo. Tenho também conhecimento de outros projectos que também estão a ser desenvolvidos com bastante competência, neste caso a Chengdu Football Association com o meu amigo Tiago Capaz e restante staff técnico.

O Futebol de formação na China

Existindo Football Associations em praticamente todas as cidades, a verdade é que no meu caso (Luochuan), e em muitos outros casos, esta apenas serve para um grupo de amigos se juntarem de vez em quando para fazerem uns jogos de futebol contra outros grupos de amigos (leia-se outras Football Associations). Não apresentam qualquer tentativa de desenvolver o futebol localmente, quer seja pela promoção da modalidade, quer pela criação de campeonatos de jovens ou adultos ou formação de Professores de Educação Física ou Treinadores.

O próprio futebol de formação é visto numa perspectiva totalmente diferente de Portugal e Europa. Este é feito essencialmente nas escolas (Primary School, Middle School e High School) e não nos clubes ou escolas de futebol. Na minha cidade, ao contrário de várias outras cidades em que existem escolas de futebol privadas, não existe nenhuma.

A própria competição não é vista como algo fundamental ao desenvolvimento do jogador, existindo apenas uma competição escolar no final do ano lectivo para determinar o vencedor da Província.

A mentalidade é de pensar apenas no imediato, descurando o futuro e fazendo tudo em cima do joelho. Por exemplo, assim que cheguei disseram-me que apenas as equipas de futebol da escola (U10, U12 e WU12) é que importam treinar, pois são elas que vão competir este ano e têm de ganhar. Esquecendo-se claramente que para o próximo ano os 2nd Graders também vão participar na competição e que se não praticarem para o ano não serão competitivos. Outro exemplo de fazerem tudo em cima do joelho prende-se com o facto de em menos de 2 meses já terem alterado o meu horário escolar 3 vezes sem me consultar e sempre para pior, tendo actualmente na mesma aula alunos de 1st grade (7 anos) e alunos de 5th grade (11 anos), com as usas óbvias diferentes necessidades de ensino.

Não existe mentalidade de formação. O que me foi dito é que os 1st e 2nd Graders não precisam de treinar porque não têm competição e os 6th Graders também não porque também não têm competição e para o ano vão para a Middle School e não vamos estar a treiná-los para os outros.

A própria mentalidade Chinesa não permite que haja espaço para o jovem jogador praticar, ou mesmo apenas brincar e explorar, fora do horário do treino ou da aula. Passam o dia todo na escola em aulas, quando saem da escola passam mais 3 a 4 horas a realizar os trabalhos de casa que os professores lhes dão, todos os dias!! E ao fim de semana então a quantidade de trabalhos de casa é multiplicado por 4 ou 5!! Não existe tempo nem de semana nem de fim de semana para as crianças jogarem ou simplesmente brincarem.

Os professores de Educação Física muitas das vezes não têm formação na área e os treinadores das equipas de futebol das Escolas são muitas das vezes professores de matemática, mandarim ou outras disciplinas, que gostam de futebol e treinam os miúdos sem qualquer noção do que estão a fazer.

A mentalidade é de colectivismo absurdo, sendo que muitas das vezes os jovens jogadores optam pelo passe mesmo tendo espaço para progredir com a bola, e de um “seguidismo” absurdo do que lhes é dito, o que faz com que nos jogos de futebol a tomada de decisão das crianças seja praticamente nula e se veja os treinadores, pais e adeptos a gritar ordens para dentro de campo constantemente.

Pontos positivos

Mas apesar de toda esta desorganização, nem tudo é mau. A verdade é que o treinador estrangeiro é visto como profissional e eles tentam seguir todas as suas indicações…embora muitas das vezes não percebam qual o objectivo das mudanças que queremos fazer, mesmo depois de explicado 5 ou 6 vezes de maneira diferente.

A própria CFA (Chinese Football Association) vai obrigar os clubes da Primeira (Chinese Super League – CSL) e da Segunda Divisão (China League One) a apresentarem equipas de U19, U17, U15, U14 e U13 de modo a criarem competições nacionais para esses escalões.

Mas acima de tudo o ponto mais positivo desta experiência e aquele que me faz acreditar que as coisas podem mudar é a paixão com que as crianças encaram o futebol. Nunca falham um treino, querem sempre aprender mais e qualquer desafio proposto, por mais difícil que seja, é sempre para concluir com relativo sucesso.

No próximo artigo sobre esta temática irei discutir sobre os pontos que estão a ser concretizados e que ainda irão ser alvo de concretização no futuro.

Agora deixo os links dos relatos muito bem conseguidos da experiência do Ricardo Freitas em Yan’an (sendo que ele tem a benesse de estar numa bem mais desenvolvida que a minha, na qual a presença de estrangeiros não é vista como a chegada de Aliens).

E por falar disso vou apenas referir que já bati o record de estadia em Luochuan para um estrangeiro a trabalhar na cidade sem fugir…que anteriormente era de 3 dias. O que também não era difícil, uma vez que sou apenas o segundo estrangeiro de sempre a vir para esta cidade.

 

Um treinador na China – Capítulo 1 (Ricardo Freitas)

Um Treinador na China – Capítulo 1

Um treinador na China – Capítulo 2 (Ricardo Freitas)

Um Treinador na China – Capítulo 2

Um treinador na China – Capítulo 3 (Ricardo Freitas)

Um Treinador na China – Capítulo 3

Um treinador na China – Capítulo 4 (Ricardo Freitas)

Um Treinador na China – Capítulo 4

Um treinador na China – Capítulo 5 (Ricardo Freitas)

Um Treinador na China – Capítulo 5

Um treinador na China – Capítulo 6 (Ricardo Freitas)

Um Treinador na China – Capítulo 6

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