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A Criança e a Bola

A CRIANÇA E A BOLA

A Criança e a Bola. Você se lembra de como e quando chutou uma bola pela primeira vez?

Você se lembra da primeira vez que chutou uma bola de Futebol na vida? Possivelmente não. 

Mas vou tentar fazer uma analogia aqui com o objectivo de desenvolver a minha ideia para este texto.

Eu aposto que a primeira bola que você chutou foi presente dos seus pais ou de algum parente. Ela devia ser bem colorida, para atrair sua atenção e fazer você querer tê-la sempre por perto.

Você ainda nem andava direito, mas seus pais já seguravam seus braços e faziam você caminhar pela casa, sempre chutando a bola para frente, de forma toda atrapalhada. “Vai ser um jogador ou jogadora de Futebol com certeza! Leva jeito para a coisa”. Já disseram milhões de pais entusiasmados com as performances do filho ou filha com a bola.

Aí você aprende a se equilibrar, começa a andar e já tem condições de chutar melhor. Mas a cada chute ainda cai. E aí você vai aprendendo a se equilibrar após cada chute, melhorando e aprendendo. Seu pé ainda não dá conta de parar a bola e os tombos são recorrentes. Mas a cada tombo você cai e ri, querendo fazer aquilo de novo e de novo e de novo. Você vai quebrar ou derrubar alguma coisa em sua casa por estar chutando uma bola, e aí seus pais vão te levar para  jogar fora de casa. “Aqui você vai ter mais espaço para correr e chutar”.

Agora você e a bola têm vários adversários. A parede, a grama, o cachorro, os buracos, o carro, o portão, o telhado, o vento, as árvores. Você já está mais crescido, já dá conta de jogar sozinho. Já consegue olhar tudo aquilo e imaginar o que você pode e quer fazer. Um chute muito forte na parede faz com que a bola vá para muito longe, ou bata na janela do carro, ou amasse o portão ou mesmo a fure. Então você começa a acertar a força no chute, o jeito de bater nela, para que a bola bata na parede e volte para você. Você a domina errado no começo, mas ri de tudo e sempre tenta de novo. Mais perto, mais longe, meia distância, você começa a se posicionar melhor de acordo com o lugar onde você está para que a bola sempre vá até você.

O cachorro vem correndo atrás da sua bola, querendo mordê-la. Você corre com ela para um lado, corre para outro, e ele correndo atrás de você, rápido. Aparece um buraco no meio do caminho, o que fazer? Você passa pelo buraco, dribla o cachorro e continua correndo. Você tem que manter a bola intacta, você tem que protege-la. Ela é sua melhor amiga e companheira.

Você gosta tanto da sua bola que acaba a levando para a sua escola. Lá você vai querer chutá-la durante o recreio. Quer passar o máximo de tempo com ela. Só que aparece um amiguinho seu querendo jogar. Ora, a bola é sua, porque ele iria querer jogar também?

Você aceita e logo estão correndo atrás da bola, chutando ela para longe e querendo dominá-la o quanto antes. Outro amiguinho da turma chega perto, querendo brincar também. Você é melhor que os dois juntos, então acaba deixando que eles joguem contra você. Logo, os outros coleguinhas da sua turma chegam para jogar e, quando menos se espera, você está em casa contando para seus pais que fez três gols no jogo na escola, driblando todo o time adversário e que comemorou como o seu ídolo. E pede para eles se você pode levar a bola de novo para a escola amanhã, para jogar de novo com seus amiguinhos.

A partir desse momento, o Futebol entrou de vez em sua vida para nunca mais sair.

O JOGO COMEÇA COMO UMA GRANDE BRINCADEIRA

COMO CAVANI E PAULINHO NOS AJUDAM A VER O VERDADEIRO JOGO

Em um espaço de cinco dias acabei lendo dois textos publicados no site The Player’s Tribune que me ajudaram a escrever a parte anterior: “Carta a mí mesmo de pequeno”, do atacante uruguaio Edinson Cavani, publicada no dia 29/06 e “Eu estava no túmulo”, do volante brasileiro Paulinho, publicado no dia 1º/07. Se você ainda não leu estes textos ou se não conhece o site, recomendo que o faça rápido. O conteúdo é excelente e vale muito a pena acompanhar os textos postados.

Cavani escreveu sobre a sua trajetória desde a infância e o início dele no futebol, em Salto, no Uruguai e para mim, o ponto a ser destacado no texto é este:

“O que mais importa em sua vida neste momento, se bem me lembro, é o gol do sorvete.

O gol do sorvete é algo mágico. Eu preciso falar com alguém do PSG sobre o gol do sorvete. É genial. É pura motivação. A ideia foi dos organizadores do campeonato juvenil de Salto. Como você faz para motivar um bando de guris de seis anos, não importando como está o jogo?

Colocando a regra que o garoto que faz o último gol do jogo ganha um sorvete.

O resultado poderia ser 8-1, mas isso não importava. Era uma corrida contra o tempo. Marcar o último gol do jogo. E a sensação de ouvir o técnico apitando para acabar o jogo, quando você havia marcado o gol do sorvete … incrível! Uma imensa alegria. Será chocolate? Você vai pegar um desses do Mickey Mouse? Seja o que for, ao longo desse dia, você será o rei”.

Paulinho também faz uma retrospectiva da carreira dele, desde a época de criança e para mim, o texto que merece destaque é esse:

“Eu vivo de acordo com o que o Dani Alves uma vez me disse, quando eu estava passando por um momento difícil na minha vida.

Ele falou, “Nós somos apenas moleques brincando na chuva, cara. Se der errado, e daí?! É o fim do mundo?! Não, cara. A gente encontra outro lugar pra brincar”.

Eu venho jogando futebol ao longo da minha vida inteira, ao redor do mundo todo, e uma coisa que aprendi é que a coisa mais importante é gostar do seu trabalho. Você tem de ir dormir à noite e ficar olhando pra parede, pensando, “Caramba, mal posso esperar o sol nascer pra sentir a bola nos pés de novo”.

Repare que nos dois trechos, tanto Cavani quanto Paulinho, a mensagem passada é a mesma: prazer em jogar bola, alegria no que se está fazendo, vontade de jogar bola e de tê-la sempre com você. A bola é uma amiga e o Futebol é a maior diversão para eles. Dois jogadores de seleção, um com 31 e o outro com 29 anos, disputando mais uma Copa do Mundo, jogando em times mundiais, disputando os campeonatos mais difíceis do mundo e, para eles, tudo é relacionado à diversão e brincadeira no final das contas.

O AMBIENTE DO FUTEBOL EM SI É DURO, MAS NÃO PRECISA SER.

A QUESTÃO PRINCIPAL É: FORMAR SEM PERDER A ESSÊNCIA DO JOGO.

FORMAR SEM PERDER A ESSENCIA DO JOGO

Cavani, em seu texto, chega a reclamar da pressão e falta de liberdade que ele sofre depois de adulto. Fala da pressão do ambiente e da pressão rotineira em vestir e ser um jogador da seleção uruguaia. Paulinho relata casos de preconceito vividos na Lituânia e o período sem jogar no Tottenham/ING, quando não se encaixava na proposta de jogo do treinador da época e ficava fora até do banco de reservas em certos jogos. O Futebol não é só alegria e magia, como todo mundo imagina. Também é, principalmente a alto nível, um ambiente duro e difícil de permanecer.

E aí é que entra a responsabilidade dos treinadores durante o processo de formação.

Os treinadores às vezes deixam o processo de formação dos jogadores tão mecânico que não prestam atenção no que realmente importa: os atletas.

Tudo bem, o jogo em si é de suma importância e tem que ser aprendido. O treinador tem que conhecer os princípios básicos, operacionais, sub-princípios e sub-sub princípios, fases e momentos do jogo, definir a metodologia de trabalho, mas se ele não tiver em mente que é o atleta que vai executar tudo isso dentro do campo ou da quadra, o treinador estará com o entendimento do jogo comprometido.

Se o ambiente de treino não for estimulante, desafiador, interessante e, principalmente, divertido para o jogador, o processo de formação com certeza será prejudicado.

Rinus Michels, famoso treinador holandês responsável pela ‘Laranja Mecânica’ e eleito pela FIFA como o ‘Técnico do Século XX’, diz em seu livro ‘Team Building’ que durante o processo de formação o foco deve ser o jogador. Principalmente nas idades menores. Ninguém começa jogando Futebol ou Futsal já tendo um treinador, árbitros ou regras definidos. O jogo e os resultados não podem ser mais importantes que o jogador durante a formação e principalmente nas idades menores.

O jogador tem que aprender sim o jogo, tem que vivenciar situações problemas nos treinamentos e jogos, aprender a ler, interpretar e resolvê-las, aprender as funções defensivas e ofensivas que ele deve executar enquanto joga. Isso é indiscutível. Mas o jogador também precisa se divertir enquanto faz isso. Ele precisa jogar e sentir que é o foco do processo, que independente dele errar ou não, ele não será crucificado por aquilo e sim, que ele será orientado a partir daquele erro, que também faz parte do processo. E o erro é um dos fatores mais importantes no processo de formação de um jogador.

O treinador espanhol Luís Bonilla postou outro dia em seu Twitter um texto sobre o erro no Futebol e no processo de formação:

“(…) Mas o jogador deve sentir a segurança de que o erro não o punirá, seja qual for o resultado da jogada. Essa é a segurança dele. Tudo está relacionado com o nível de tolerância ao erro construído pelo treinador, que deve assumir que, este processo pode prejudicar o resultado imediato da partida, mas é benéfico ao desenvolvimento em longo prazo nas capacidades do jogador (…)”.

Isso só mostra o quão duro o Futebol é. Mas não precisa ser.

Rinus Michels, no mesmo livro citado anteriormente, defende que o jogador aprenda que a reserva também faz parte do processo. Mas isso não pode ser punitivo e sim de forma educativa, explicativa, fazendo com que ele saiba conviver com as mais variadas situações que acontecerão durante o período de formação. Hoje ele joga, amanhã não, depois ele joga de novo. Importância reconhecida no processo e valores trabalhados. Forma-se o cidadão primeiro, o atleta depois. Mas a importância no trabalho com ambos é igual.

O jogador precisa se sentir um herói ao fazer o gol, como Cavani se sentia ao fazer o gol do sorvete, e ter dificuldade para dormir, pois queria jogar bola o quanto antes, como Paulinho. Essa sensação tem que estar sempre viva em nossos jogadores, independente da idade, de onde e com quem eles joguem.

Para fechar, Ronaldinho Gaúcho, um dos maiores jogadores de Futebol de todos os tempos, ajuda a resumir bem o que é o Futebol para ele:

“Eu aprendo até das crianças na praia; talvez porque o futebol é algo infantil, eu desfruto como uma criança.”

O Futebol é quase que uma linguagem universal no mundo inteiro. Independente da linguagem, a bola é um elemento comum, que encanta todo mundo desde o primeiro chute. É esse o sentimento que precisa ser mantido pelos treinadores, sempre.

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