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A Crise do Tempo ou da Falta dele – Parte 2

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A Crise do Tempo ou da Falta dele – Parte 2

Na continuação daquilo que foi o artigo anterior, voltemos à exposição sem perder de vista a temática subjacente que tanto nos preocupa: o TEMPO!

E voltemos para tentar esboçar algumas possibilidades de resposta às questões e dúvidas colocadas, sabendo de antemão que daqui não resultarão receitas ou fórmulas, mas podem enunciar-se princípios de actuação condizentes com uma compreensão mais alargada e profunda sobre o jogo.

Como tem sido resolvida esta dessincronização (termo cunhado por Toffler) de tempos nos dias que correm, no que ao Futebol diz respeito?

Invariavelmente, a crise do TEMPO (e da falta dele), tem sido sentida sobretudo pelos treinadores, os principais responsáveis pela gestão e organização do treino da equipa, dos seus diferentes jogadores, e de todos quanto envolvem este momento determinante – O TREINO. Então… Quantos treinadores são dispensados antes do campeonato começar ou nas primeiras jornadas? Quantos são confrontados com um plantel completamente novo, com jogadores provenientes das mais diferentes origens (com distintos e diversos hábitos de treino, hábitos competitivos, hábitos culturais, etc.) e se lhes exigem resultados praticamente imediatos? Quantos assumem objectivos, sujeitando-se, e aceitam condições que, mesmo apenas de forma sub-consciente, sentem que podem não ser suficientes?

A tendência comportamental da classe dirigente

O problema tem sido quase sempre resolvido negligenciando as necessidades do treino e do jogo (do nível micro), com o nível de decisão superior (dirigentes) a intervir directamente, a grande parte das vezes por reflexo condicionado e com falta de conhecimento, no sentido de obter os resultados imediatos pretendidos. Talvez seja uma carência na compreensão dos conceitos de objectivos imediatos e mediatos, que necessariamente deve possuir quem trabalha com pessoas, resvalando na inexistência de projectos a médio/longo-prazo! Posto isto, a realidade que se observa é a da constante subjugação do jogo e do treino às necessidades do sistema, com todos os efeitos perniciosos que isso acarreta, desde as relações laborais estabelecidas (quantos jogadores e treinadores são descartados, sem qualquer protecção, com a justificação dos resultados imediatos?) à qualidade do jogo (quando a necessidade de não perder se sobrepõe à vontade de ganhar, que espectáculo criamos?). Será este padrão de actuação o mais viável para o desenvolvimento do Futebol no seu todo?

O que se sente é que a lógica está nitidamente invertida, porque no centro de tudo deverá estar o jogo! É o jogo que apaixona as pessoas… É através do jogo que estas se formam. O jogo é o principal produto comercializado, e o principal motivador de todos os outros produtos que o envolvem.

Uma possibilidade de desenhar decisões melhores/mais rentáveis

Seguindo esta ordem de ideias, a influência entre os dois níveis de decisão deve partir de baixo (nível micro) para cima (nível macro), sendo objectivo do nível decisório superior proporcionar as melhores condições possíveis para que na dimensão do desenvolvimento dos jogadores, da equipa e do jogo, tudo possa decorrer dentro da melhor relação custos-benefícios (assumindo como um dos maiores capitais investidos, precisamente o TEMPO).

É o correcto manuseamento de todas estas ferramentas conceptuais aplicadas ao Desporto, particularmente ao Futebol, que deve reger o processo de análise ao contexto, e consequente tomada de decisão, para evitar um série de soluções cegas, pouco fundamentadas, e que mais não fazem do que adiar uma rotura inevitável.

Haverá quem tenha a sensibilidade para, através das suas vivências, acumular uma sabedoria que lhe permite ter uma visão diferente do fenómeno desportivo e futebolístico, permitindo-lhe agir posteriormente de forma mais sustentada. No entanto, não parece que o dirigismo esteja, na sua generalidade, dotado dessa sensibilidade, e muito menos do conhecimento necessário.

Aquilo a que se assiste mormente é a uma procura da defesa de interesses próprios, seja somente protagonismo, ou outros ainda menos próprios. Posto isto, quem fará a defesa do jogo? Os jogadores, protagonistas principais, deverão ser meros peões? E os treinadores, que papel devem assumir?

Sendo difícil (porque não deve ser estanque, e exige um trabalho transdisciplinar), o que se pede é um esforço conjunto para alinhar princípios e estratégias, para alcançar equilíbrios na defesa do Futebol, um jogo recheado de características propicias à emergência de valores tão nobres e essenciais à nossa vida em comunidade.

NOTA:

– A título de curiosidade, poderemos tentar fazer o seguinte exercício de abstracção – Vamos supor (de forma bastante redutora, para extremar e facilitar a compreensão) quanto tempo será necessário investir para conseguir que um determinado jogador que tem uma probabilidade de 50% de acerto na realização de remates à baliza de fora de área, o consiga fazer com uma probabilidade de acerto de 80%. Será tempo demais para que isso produza efeitos práticos a nível de resultados imediatos? Quanto tempo estamos dispostos a investir para atingir o nível pretendido?

Mas complexifiquemos… Quanto tempo teremos de investir para que aumente a sua capacidade de superar adversidades em 50%? Quanto tempo será necessário para que conheça, compreenda e confie em todos os seus companheiros de forma a obter rendimentos superiores nos processos colectivos?

Seja como for, as 4 semanas da pré-época não devem ser, de todo, suficientes para processos tão complexos.

Quanto tempo treina um comandante para pilotar um novo modelo de avião? Afinal não pilotou a carreira toda?…

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