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A final da muralha romena

Apesar da sua existência deste 1945 e do sucesso do seu principal integrante URSS em competições de seleções, a primeira vitória do bloco da Cortina de Ferro a nível da maior competição de clube na Europa só apareceu em 1986, onde o até então relativamente desconhecido Steaua de Bucareste conseguiu vencer o tão ambicionado troféu, que, juntamente com o Estrela Vermelha, são as 2 únicas de leste a serem coroadas como campeãs da Europa.

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A tragédia de Heysel não permitiu à melhor equipa do Everton vingar na Europa  Fonte: theguardian.co.uk

No entanto, para perceber como isto foi possível é necessário contextualizar as circunstâncias que permitiram tal feito. No ano anterior, a tragédia de Heysel fez com que as equipas inglesas fossem expulsas das competições europeias, fazendo com que o super-Everton não conseguisse impor o seu reinado para além das terras de Nossa Majestade. Para além disso, o Steaua tinha formado a sua própria super-equipa, pelo menos a nível de consumo interno, onde pontificavam jogadores como Piturca, Bolöni, Iordunescu e o improvável herói Duckadam, que iria reinar do futebol romeno durante vários anos. O primeiro titulo de campeão em 7 anos garantiu o apuramento para a Taça dos Campeões Europeus, numa competição onde as equipas espanholas e italianas eram as favoritas à vitória final. Começando a caminhada contra os dinamarqueses do Vejle, um empate a 1 no fora foi seguido por uma vitória por 4 a 1 em casa, que selou o apuramento e consequente confronto contra um histórico do futebol Europeu, mas sem o fulgor de outros tempos – o Honvéd de Budapeste. Apesar de uma derrota fora por 1-0, uma nova vitória caseira pelos mesmos 4 a 1 garantiram mais um passo na caminhada e o apuramento para os quartos-final da competição, onde se esperaria um tubarão europeu. No entanto, saiu no sorteio o Kuusysi da Finlândia, o que permitiu ao Steaua sonhar com a final, caso tivessem a sorte do seu lado, como até então. A suposta facilidade do sorteio não se comprovou em campo, pois após um perigoso empate a 0 em casa, o Steaua teve que se aplicar para eliminar os finlandeses com uma vitória fora por 1-0. A final estava apenas a 2 jogos de distância e o obstáculo a ultrapassar seria a outra surpresa da competição: o Anderlecht, que, ao contrário do Steaua, teve que eliminar um colosso Europeu chamado Bayern Munique. A final pareceu mais longe após uma magra derrota na Bélgica, por 1-0, mas uma grande exibição por parte dos romenos na 2ª mão selou o apuramento para a final com uma vitória por 3-0.

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Festejos do Steaua Fonte: independent.co.uk

Parecia, contudo, que a sorte se tinha esgotado para o lado romeno pois o outro finalista era nada mais que o Barcelona, que, apesar de ainda não ser o colosso europeu que se tornou a partir dos anos 90, era o grande candidato e favorito, até porque a final seria jogada em Sevilha. Como se jogando em casa, o Barcelona tentou fazer o seu jogo mas o Steaua, que adotou uma estratégia defensiva, não permitiu grandes oportunidades, não havendo sequer grandes destaques durante os 120 minutos da final de Sevilha, mas esses ficariam para depois do prolongamento. Tanto o guarda-redes romeno Duckadam e o espanhol Urriti pararam as 2 primeiras tentativas de cada equipa, mas depois a lenda surgiu – enquanto Lacatus e Balanti marcaram para o Steaua, Duckadam tornou-se no único guarda-redes a defender todas as 4 grandes penalidades numa decisão desta magnitude e ofereceu a vitória aos romenos.

O reinado do Steaua tinha apenas começado, vencendo três campeonatos e taças da Roménia totalmente invicto e chegando a uma meia-final e uma final da Taça dos Campeões europeus até que com a queda do governo sangrento de Ceasescu, em 1989, o apoio e protecionimo estatal à equipa foi cortado e a abertura do mercado causou uma debandada dos melhores jogadores para o estrangeiro e terminando de vez com o poderio do Steaua.

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A equipa do Steaua recebida por Ceausceçu Fonte: http://www.alambrado.net

Em relação ao herói da final, o guarda-redes Duckadam, desapareceu do radar semanas após a final de Sevilha. Com apenas 27 anos, teria pela frente, pelo menos, mais uns bons anos na baliza do Steaua e da seleção Romena. A versão oficial foi que Duckadam teve um aneurisma no braço e que teve de abandonar o futebol devido a esse facto – tendo sido sujeito a 5 intervenções cirurgicas para salvar o mesmo braço. No entanto, as versão começa a diferir, pois outras fontes referem uma trombose, enquanto outro rumor revela que o Real Madrid, pela vitória sobre o Barcelona, ou o Rei de Espanha, por ter sido o melhor em campo, teria oferecido Mercedes da Helmut – algo totalmente inacessivel a qualquer romeno fora da esfera do poder – e que um dos filhos do ditador Ceaucesçu teria baleado o “braço de ouro” de Duckadam após a sua recusa em ceder o carro. Para ajudar a este mito, o mesmo filho era o presidente do Steaua. Voltou apenas a jogador, passado 3 anos, no  Vagonul Arad, até de reformar com apenas 31 anos. Após trabalhar como polícia fronteiriço, obteve um visto de imigração para os EUA juntamente com a família, mas, não se conseguindo adaptar, retornou sozinho à Roménia. Passando por momento de extrema pobreza – que inclusivé obrigaram a vender as míticas luvas utilizadas em Sevilha – foi eleito presidente honorário do Steaua em 2010.

Autor: João Pedro Português

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