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A Impossibilidade Tática

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A Impossibilidade Tática

No país dos especialistas, analistas e uns tantos curiosos (1).

Numa era em que os dispositivos tecnológicos são quase parte integrante do nosso corpo (e hão-de ser, brevemente) e dão acesso a um sem-número de “mundos dentro do Mundo”, somos bombardeados com uma quantidade de informação praticamente impossível de processar e tratar em tempo útil, tendo em conta os recursos que temos à nossa disposição. Este facto exige que o filtro que utilizamos para analisar o que nos rodeia, que leva em consideração a nossa cultura, as nossas vivências e o conhecimento que daí advém, tenha de ser cada vez mais eficaz para que consigamos diferenciar o que pode ou não fazer sentido e ter significado. O que não pode ficar dissociado disso é o espírito crítico e científico que deve nortear a evolução de qualquer área de conhecimento.

O nosso país particularmente, no que ao Futebol diz respeito, sustenta 3 publicações diárias de abrangência nacional em formato papel que se dedicam quase exclusivamente a esta modalidade, programas sobre este fenómeno em diversos canais televisivos nos diferentes dias da semana, plataformas digitais que tratam de todas as temáticas que este jogo gera, programas radiofónicos, etc., etc., etc.

São muitas palavras, muitas ideias, muita informação… Mas também muitas pessoas, muitas instituições, muito tempo, muito dinheiro. Isto sem querer adicionar a este lote de “produtores de conteúdo/fazedores de opinião” o paradigmático fenómeno das redes sociais (cada vez mais influente), que possibilitam a quem quer que seja ter audiência para propagar teses com um aparato considerável.

No país dos especialistas, analistas e uns tantos curiosos (2).

Deste modo, vivemos navegando num mar sem terra à vista, tomando rumos consoante as ondas e as marés, sem conseguir distinguir o que pode ou não guiar-nos nesta imensidão onde jornalistas, especialistas, analistas, cronistas e uma vasta legião de curiosos parecem ter soluções para tudo e vende-las como poção, tal como no momento seguinte se desdizem e oferecem o antidoto.

Apesar do esforço para aparentar o contrário (normalmente com lugares-comuns ou citações relevantes) ainda não fizemos a rotura com o paradigma capitalista vigente onde a forma e a superficialidade ditam leis, e de todas as questões levantadas nesta grande conversa pública sobre o Futebol, cingimo-nos neste artigo a uma ideia que se tornou moda: a táctica.

O jogo que não se esgota.

Não precisamos estar muito atentos, nem sequer ser muito conhecedores, para enquanto adeptos aventar uma série de argumentos de diversas ordens para justificar as nossas posições quando discutimos o que se passa dentro do campo. Aliás, é também esta proximidade e simplicidade do jogo, que possibilita que todos e qualquer um o possam entender minimamente, que cativa as multidões por ele apaixonadas. No entanto, enquanto profissionais da área interessados com o seu desenvolvimento, o cuidado deve ser outro.

Parece tendência de há uns tempos para cá falar da táctica (mesmo os que ainda não ultrapassaram a lógica da preparação física e com este discurso o tentam disfarçar) como sendo o cerne de todas as questões relativas ao jogo (mesmo na formação), e temos acesso a um manancial vastíssimo de análises, opiniões e demais argumentos acerca deste factor quer por quem é simplesmente um observador atento, jornalista ou ex-praticante, quer por quem realmente se especializou nesta vertente do jogo. Pode tornar-se complexo diferenciar!

Apesar das distintas proveniências dos argumentos, as questões que ficam latentes podem ser aplicadas de igual modo, e a necessidade de uma resposta capaz é imperativa para que possa compreender-se se esta construção teórico-prática atenta aos problemas deste fenómeno na sua globalidade.

Vejamos:

-A dimensão táctica, consubstanciada pelos diferentes sistemas, modelos, princípios, sub-princípios, etc., é onde residem e devemos procurar as respostas para todos os problemas do jogo e dos jogadores de futebol?

-É a matriz táctica que deve reger o processo de programação e planeamento do treino nos desportos colectivos? Porquê?

-Até onde pode chegar a dimensão táctica na compreensão dos problemas de um determinado jogador e equipa? Os problemas dos homens que jogam esgotam-se nesta dimensão?

Todas estas dúvidas derivam naturalmente de uma necessidade de suporte anterior, de uma teoria que sustente a actuação nesta área, e têm de nos fazer olhar para aquilo a que devemos responder em primeira instância: O que é treinar?

Só questionando é possível descontruir argumentações incoerentes, e também distinguir aquilo que é uma opinião fundamentada do que não passa de uma série de tiros no escuro que, na maior parte das vezes, atingem os pés do seu autor. Entre aqueles que trazem o bafio dos anos 70 e da preparação física, aos que constroem ideologias ocas com os termos mais modernos (liderança, comunicação, técnico-táctica, etc.), a distância não é muita: ambos reduzem para tentar compreender, mas o Homem não se divide e o Desporto não se resume a ganhar aos fins-de-semana.

Novos filtros, novas ferramentas e uma outra realidade.

Neste meio associa-se muito a validade de determinadas ideias aos resultados obtidos (pode ser um exercício perigoso pensar desse modo). Assim como se receia a incerteza! Mas à luz do que já se conhece sobre o Homem e a realidade em que vive torna-se contraproducente tentar anular a complexidade, a ocasionalidade ou a dinâmica em vez de compreender como lidar com elas.

Actualmente, pensar o treino e o jogo torna urgente responder a problemas bem mais profundos do que aqueles que vêm associados à dimensão fisiológica, à dimensão técnica ou táctica! Exige uma teoria que se coadune com o conhecimento já existente, e ferramentas (materiais, mas sobretudo conceptuais) que possibilitem a compreensão global e intervenção nos fenómenos de modo a transformar a realidade no sentido pretendido. Sem a intencionalidade da formação do Homem e da Sociedade, o Desporto torna-se apenas um galho numa jaula de gorilas.

 NOTA:

A rotura. Estratégia de operacionalização: a sistemática das actividades desportivas num quadro de complexidade – um ponto da situação. Fernando Almada et al (2008).

-Um Corte Epistemológico – Da educação física à motricidade humana. Manuel Sérgio (1999).

Sugestões de leitura para uma diferente visão do Desporto.

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