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A legitimidade estética no jogo

Johan Cruyff - Jogo

A legitimidade estética no jogo

Numa sociedade demasiadamente marcada pela aparência (nas relações com os outros, connosco próprios, entre instituições, etc.), em que os padrões através dos quais se fazem avaliações são meramente superficiais, o Futebol, enquanto jogo praticado, não foge à regra.

Considerando o jogo como espectáculo – uma manifestação de arte, será natural que as emoções que a forma apresentada desperta sejam importantes na construção conceptual do que será belo ou não, do que é ou não agradável e proporciona satisfação. Sobretudo para quem não está ou esteve envolvido na prática do jogo de algum modo, esta é a via através da qual se formam juízos e opiniões.

Não é raro escutarmos discussões acerca de quem joga melhor ou pior, mais ou menos bonito, muitas vezes enovelando uma série de informações e conceitos díspares, entre as estatísticas, a simples noção subjectiva do que é bom e belo, ou os ideais que cada um constrói para sua referência no mundo.

Entre a beleza conceptual e o resultado.

Johan Cruyff, que pode ser considerado um dos bons pensadores deste jogo, proferiu a certo momento a frase: “Qualidade sem resultados é inútil. Resultados sem qualidade é entediante.”.

Esta dicotomia existente no jogo, em que se vive com o objectivo primário da vitória (predominantemente na alta competição), leva a que esta sempre tenha sido, seja e venha a ser uma preocupação vincada, mas não poderá deixar de sê-lo também a forma com ela se consegue, levando em consideração que o jogo é uma expressão artística que deve despertar um determinado conjunto de emoções. Cruyff certamente tinha presente esta noção, e parece-me cada vez mais actual no mundo em que vivemos.

Não deverá ser tendência fazer avaliações que reduzem tudo a números e resultados, assim como não deveremos anular a subjectividade e a legitimidade dela quando recorremos a conceitos estéticos. No entanto, também não me parece rentável e adequado ter uma noção estética isolada dos princípios morais e éticos que estão na base e norteiam esta modalidade.

Conseguindo alcançar este equilíbrio, e educando neste sentido, parece-me que estaremos a contribuir para um amadurecimento e maior riqueza do Futebol, construindo a partir da diversidade um edifício onde tudo cabe desde que com os princípios adequados.

O lirismo, o pragmatismo ou um jogo onde tudo é possível.

Muitas pessoas que gravitam no meio actualmente (treinadores, jogadores, comentadores, adeptos, etc.), fazem arma de arremesso dos seus conceitos estéticos com intuito de desvalorizar perspectivas distintas e criticar formas que são tão legítimas quanto o seu contrário, desde que fundadas pelos meus princípios morais e éticos, e regidas pelas mesmas regras (o que normalmente acontece).

Alguns defendem-se liricamente com argumentos estéticos (quando normalmente os resultados não ajudam), outros defendem-se com o pragmatismo dos resultados (quando a componente estética deixa a desejar). Mas esta é uma discussão de rentabilidade nula, e que não deveria ser colocada nestes pressupostos.

Todas as formas são legítimas, têm a sua beleza (mesmo que queiramos ligar a beleza à funcionalidade), e transmitem diferentes tipos de sensações e emoções. Querem anular isto, é querer acabar com o jogo. Querer que todos joguem da mesma maneira, ou gostar apenas do jogo de uma determinada forma, é perder grande da sua riqueza.

Desde que as regras e normas definidas sejam respeitadas, que o jogo tenha por base a dinâmica de grupo construída para alcançar um determinado objectivo (a vitória), e que sejam perceptíveis os valores da humildade, da ambição, do respeito, da entreajuda e tolerância, tudo é possível no jogo, e tudo pode ser belo!

Não ter capacidade de compreender estes conceitos, não aceitar o outro na forma como ele joga o jogo, e criticar muitas vezes de forma leviana, pouco fundamentada e destrutiva é um vírus que só se erradica com EDUCAÇÃO, e com exemplos de referência por parte de quem mais importa e visibilidade tem.

NOTA:

Quantas vezes somos levados pela moda quando afirmamos que determinadas equipas é que jogam bem/bonito? Quantas vezes não pegamos nisso para modelar e comparar com outras equipas, de contextos tão distintos?

É de desconfiar, num meio que proporciona tanta riqueza de formas e processos, de quem quer anular toda a variabilidade em favor de uma só perspectiva… Porque eventualmente essa perspectiva terá de mudar!

No Futebol que conheço, cabe e é passível de ser interpretado como belo quem joga apoiado, quem joga directo, quem marca zona pressing, quem marca homem a homem, quem prefere transições ofensivas ou ataque organizado, quem defende com 11 atrás da linha da bola ou quem defende só com 6.

No Futebol que conheço, a beleza está na sua essência, e não somente na sua forma…

Bom ano 2018!

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