-- ------ A Multiculturalidade do Futebol
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A Multiculturalidade do Futebol

A Multiculturalidade do Futebol

Mecanização Cultural

Incialmente importa referir que este artigo é meramente uma constatação do contexto em que estou inserido, de maneira que, para a sua compreensão é fundamental situar-vos:

Shijiazhuang, capital da província de Hebei, China. Cidade com uns meros 10 milhões de habitantes e que miracolosamente possui um clube de futebol que já teve uma passagem pela 1ªLiga Chinesa. O Shijiazhuang Ever Bright, mais conhecido por Shijiazhuang YongChang, actualmente a disputar a 2ªLiga Chinesa decidiu convidar-me para a criação/desenvolvimento do seu futebol de formação. Normativa recente da Federação Chinesa de Futebol obriga todos os clubes chineses a terem futebol de formação, pelo que o Ever Bright não é excepção.

Saltando alguns aspectos organizativos que não interessam para a compreensão do contexto que estou inserido, passo ao tema que decidi abordar:

Todos nós sabemos que o futebol é um jogo/fenómeno multicultural e logicamente quando nós, treinadores, abraçamos novos projectos sabemos perfeitamente que tem que haver uma adaptação ao contexto em que vamos ser inseridos. A cultura de um clube como o Paços de Ferreira é absolutamente diferente da cultura de um clube como o Vitória SC e é fundamental para o treinador conhecer e perceber qual a cultura vivida nesse seu novo habitat. Posto isto, torna-se óbvio que, se a cultura dos clubes varia dentro do mesmo país, é seguro afirmar que a cultura do futebol varia inevitavelmente de país para país. E essa variação deve-se a fenómenos sócio-culturais que vão “contaminando” o jogo de forma positiva ou de forma negativa, tudo irá depender dos olhos de quem vê o jogo.

Um chinês vê o jogo de forma bastante diferente de um português e garanto-vos que não é por causa do formato dos olhos. Simplesmente damos importância a aspectos diferentes, e fundamentalmente, porque fomos educados dentro de uma cultura totalmente diferente, logo a interpretação do jogo será também ela diferente. Em Portugal, uma criança, na maioria dos casos, nasce com uma bola nos pés, joga na escola, na rua (embora se esteja a perder este hábito), a bola vai estando presente em várias etapas do crescimento dessa criança, até que vira paixão pelo jogo.

A nossa cultura e a nossa sociedade “contamina” e influencia essa criança, e essa influência permite-nos ter uma interpretação bastante diferente daquilo que é o jogo. Na China, num país que não tem esse «background» sócio-cultural a visão e interpretação do jogo é o reflexo da mecanização cultural em que estão habituados a crescer.

Mecânico vs Não-Mecânico

 

Quando iniciei este novo projecto sabia perfeitamente que a tarefa não iria ser igual aos desafios e projectos que tive em Portugal, nem poderia, a diferença cultural é demasiadamente evidente para se pensar uma coisa dessas. Em pouco tempo começo a identificar no campo muito daquilo que ia vendo na rua. Os comportamentos das pessoas no seu dia-a-dia, a forma como lidam com obstáculos que vão aparecendo na rua, etc. Muito daquilo que via na rua, era facilmente identificável no campo. Mecanização, permissão e dependência são palavras chaves na interpretação do jogo por um jogador chinês. Absolutamente o contrário daquilo que se constata em Portugal: aleatoriedade, ousadia, independência e risco. Desmontar isto para um treinador é extremamente complexo, mas obviamente possível de ser feito. Apenas leva um pouco mais de tempo.

O jogador chinês é muito forte em exercícios “fechados”, em que ele já sabe para onde tem de passar a bola e para onde tem que se descolar, mas o jogo é exactamente o oposto disso.

A ausência de decisão, de risco, de criatividade, de espontaneidade é o reflexo da cultura e não estou com isto a criticar a cultura chinesa, que tem coisas absolutamente magníficas, mas para o jogo crescer, nós treinadores, temos que desmontar muita coisa, para depois ir montando de forma mais fluída e harmoniosa, porque o jogo só é belo assim. Habituados a que decidam por eles, medo de arriscar por terem medo de errar, pouco competitivos, muito autocríticos e totalmente mecanizados. Esta última torna-se o maior problema, pois tem influência directa naquilo que é a aleatoriedade do jogo.

Qual o problema de voltar a passar a bola ao mesmo jogador? Supostamente nenhum, não há nenhuma regra no jogo que impeça isso de acontecer, por vezes até é a melhor solução, mas na interpretação de um jogador chinês isso nem sempre faz sentido.

Há muito de complexo num jogo de futebol e para isso é absolutamente imprescindível a utilização do cérebro de uma forma não-mecânica.

Autoria: Nuno Andrade (Treinador do Shijiazhuang Ever Bright, China).

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