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Uma Aventura na China – Capítulo 27

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Uma Aventura na China – Capítulo 27

O semestre escolar na China aproxima-se do fim com o passar de mais uma semana. Para este vigésimo sétimo capítulo da minha aventura na China trago-vos as peripécias vividas em mais uma semana de competição “inter-turmas” da escola onde estou a trabalhar. Espaço para o relato da minha opinião dos treinos da equipa masculina de 2009/2010 e da equipa feminina.  Por fim, a minha experiência de ver a nossa seleção nacional numa grande competição, estando pela primeira vez fora de Portugal.

 

Ai, os adultos!!!

Mais uma semana que passou, que significou mais uma semana de competição de futebol entre as turmas da Escola Primária Experimental de Yan’an. E mais uma semana em que os verdadeiros protagonistas, os jovens jogadores, foram negativamente ofuscados pelos adultos.

Nesta semana findou a competição do segundo ano e iniciou-se a do terceiro ano. E em ambos os anos voltei a assistir a cenas lamentáveis e embaraçosos por parte dos adultos, em especial por parte dos pais de alunos que supostamente vêm assistir aos jogos dos seus filhos, mas parecem querer ter mais protagonismo que estes mesmos.

Num dos últimos jogos da competição do segundo ano, houve a necessidade de se recorrer à marcação de grandes penalidades para se encontrar um vencedor, após o jogo ter terminado empatado. Após a marcação da primeira grande penalidade por parte de uma das equipas, aparece um pai da equipa que ia marcar a sua primeira grande penalidade a reclamar com o árbitro por uma qualquer situação que decorreu durante o jogo. Reclamava, barafustava e bracejava, enquanto que o árbitro (treinador da associação de futebol de Yan’an) lhe tentava calmamente explicar as regras de futebol, que o pai “descontrolado” claramente não conhecia. A este pai juntaram-se outras mães e também, penso eu, a professora da turma em questão. Após perder a paciência (até eu perdia a cabeça na mesma situação) o árbitro queria dar o jogo por terminado sem que houvesse um vencedor.

Felizmente que ele acalmou-se e pensou que quem seria prejudicado, seriam os jogadores, que em todo este imbróglio se mantiveram calmos nos seus lugares, em especial o que esteve este tempo todo à espera perto da bola para marcar a grande penalidade. O resultado final não veio a ajudar a apaziguar o ambiente pois a equipa do pai “descontrolado” acabou por perder no desempate. As reclamações continuaram mesmo depois do jogo, com especial destaque no WeChat (rede social chinesa de maior uso), com comentários de que a competição não era justa devido a atuação dos membros de arbitragem. Certamente que não foram as crianças a comentar. De seguida segue o vídeo em que registei só a parte final de todo este escusado momento. O vídeo tem pouco mais de dois minutos e já estavam nesta discussão há outros cinco minutos. Lamentável.

Mais caricato ainda, foi o que se passou no primeiro dia de competição do terceiro ano. O terceiro ano é o ano letivo em que eu leciono as aulas de Futebol de Educação Física. Desta forma, basta-me a mim olhar para as turmas e sei quem terá maior possibilidade de vencer. Num dos jogos, havia uma equipa que era claramente superior à outra. Por volta dos cinco minutos, já estavam a ganhar por 4-0, sendo todos os golos marcados pelo mesmo jogador, e um dos melhores jogadores da equipa de futebol de 2009/2010 que eu treino. O problema não está no desequilíbrio das equipas. Isso é normal numa competição. Há sempre equipas melhores e equipas não tão bem desenvolvidas. O pior foi o comportamento das pessoas de fora, que não pensam da mesma forma. Em especial o comportamento de uma mãe, que a cada golo sofrido da equipa que ela apoiava tinha comportamentos cada vez mais desadequados.

Ela começou o jogo perto da baliza da sua equipa. Ao primeiro golo sofrido, já estava colada ao poste. Ao segundo golo sofrido, já estava dentro de campo a gritar com uma jogadora, porque ela foi incapaz de parar o adversário de fazer golo (como se ela tivesse a culpa). Ao terceiro golo sofrido, atirou o chapéu de sol que tinha ao chão, num gesto brusco de frustração e raiva (tal como uma menina mimada a quem não se dá o que ela quer), e voltou a entrar em campo para reclamar com a mesma jogadora (que novamente fez o máximo que sabe naquele tipo de situação). Quando assisti a tal situação, não me consegui conter. A injustiça por ver uma menina a ter de ouvir os berros e delírios de uma adulta que não sabe o que é o futebol, mas falava como se tivesse todo o conhecimento futebolístico do mundo, tomou conta de mim e mandei um grito com recurso a algum vernáculo português. De certeza que a senhora não sabe português mas percebeu que o que estava a fazer não era correto, pois de imediato deu um salto para trás e colocou-se fora de campo. Mas mesmo assim, só após o quarto golo é que o árbitro a mandou sair de perto da baliza. Mais uma cena lamentável, que me faz duvidar se estes adultos realmente querem o melhor para os seus filhos.   

Até ao momento só posso estar orgulhoso é do comportamento destes jogadores e jogadoras. Podem ter um nível de desempenho muito baixo e zero conhecimento da regras de futebol. Mas jogam com gosto, prazer e alegria. Num dos jogos até dava para ouvir uma jogadora a rir à gargalhada cada vez que ia à bola e a chutava (era a única coisa que sabia fazer). Isto é um sinal de que as crianças se estão a divertir e que o fazem com gosto. O ganhar é uma recompensa por fazer de tudo por se jogar com alegria. Afinal se não se joga com alegria, para quê que se joga afinal? Os adultos que tenho visto por aqui precisam de aprender muito com estas crianças. Pode ser que assim tenham mais gosto pelo futebol.

Os treinos desta semana

Em relação à equipa de 2009/2010, esta semana só houve um treino. Na segunda feira não houve aulas devido a um feriado nacional, tendo tido somente treino na terça feira. Em relação a esse treino para os jogadores assimilarem melhor os princípios de mobilidade e largura, fiz um exercício de 3×2+GR, em que a equipa sem guarda-redes teria de fazer golo na baliza grande e defender três balizas pequenas (pórticos). Desta forma havia superioridade numérica e poderiam aproveitar melhor o espaço para atacarem em largura, ao mesmo tempo que tinham de perceber que ao perderem a bola tinham de ser mais rápidos a reagir pois se assim não fosse sofreriam golo com facilidade mesmo estando a outra equipa inferioridade numérica. O exercício decorreu em dois espaços (dois grupos). De forma geral, os jogadores souberam interpretar o que se pretendia deles. E percebeu-se isso quando se passou para jogo reduzido de GR+3x+GR, em que demonstraram um melhor rendimento do que na semana anterior.

Já a equipa feminina, nesta semana foquei-me mais na finta e drible. Em especial na aproximação ao adversário e à utilização de fintas de corpo para ultrapassar o adversário com a bola controlada. Poucas foram as jogadoras que conseguiram demonstrar um desempenho satisfatório, especialmente no exercício final de 1×1. O grande problema é a falta de controlo da bola no momento do drible. A maioria das jogadoras, ao aproximar-se da adversária não tem a bola totalmente sob o seu controlo, o que faz com que não consigam desviar a bola da jogadora adversária, acabando invariavelmente por perder a posse de bola. É uma situação normal, tendo em conta que é algo novo e com o pouco conhecimento que elas têm vai levar algum tempo a estabilizar este aspecto. Mas acredito que o conseguirão.

Ver Portugal no Mundial a partir de Yan’an 

Já foram dois os jogos de Portugal neste Mundial de 2018 que assisti em Yan’an. Em outras grandes cidades chinesas a comunidade portuguesa é muito maior do que em Yan’an. Nessas cidades será mais fácil juntar um grupo maior de portugueses para assistir aos jogos da equipa das quinas. Em Yan’an a população portuguesa resume-se a duas pessoas: eu e o Eduardo, o outro treinador que trabalha em Yan’an.

Talvez por não estar rodeado por uma atmosfera que vive e respira futebol, como se tem em Portugal, e pelo facto de não se sentir toda aquela onda que existe em redor da seleção portuguesa neste tipo de competições, faz com que não se sinta aquela ânsia antes do jogo da equipa de todos nós. Mas a partir do momento em que se ouve “A Portuguesa” a tocar, a emoção toma conta. Por breves momentos o coração vai de volta para Portugal para se juntar aos muitos milhões de portugueses no apoio à nossa equipa.

Eu e o Eduardo vimos os primeiros dois jogos no restaurante de um amigo chinês, com quem por vezes costumamos jogar futebol. Na companhia de outros chineses que nos acompanham nesses jogos, jantamos e vimos os jogos da seleção portuguesa. No primeiro jogo já havia chineses a dormir quando o jogo começou, pois aqui já eram duas da manhã. Além do cansaço e da hora tardia, o álcool ajudou a que alguns chineses fossem derrotados pelo “João Pestana”. No segundo jogo foi mais fácil para eles, pois o jogo decorreu às 20h de Yan’an (sete horas a mais que Portugal).

Dois jogos de sofrimento, emoção até ao fim mas positivos para a nossa equipa. Que os próximos jogos continuem a serem positivos até ao dia quinze de Julho, para depois, a pequena mas ruidosa comunidade lusitana de Yan’an, fazer a festa da vitória pelas ruas da cidade.

Próxima semana em perspectiva

Na semana seguinte, a competição de futebol continuará. Além da competição em campo, deram-me a entender que na próxima semana irá haver um concurso de cultura futebolística. Será uma espécie de quiz show em que as perguntas terão sempre o futebol como tema. Uma forma diferente de popularizar o futebol na escola.

Espero ainda contar com mais novidades dos treinos das equipas de futebol da escola que estão a meu cargo. A certeza que fica no próximo artigo é que vos trarei as peripécias de mais uma semana de trabalho. Até para a semana.

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