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Bom Futebol contado por… Bruno Ribeiro

Bruno Ribeiro - Vitória Futebol Clube

Bom Futebol contado por… Bruno Ribeiro

Bruno Ribeiro conta, na primeira pessoa e em exclusivo para o Bom Futebol, a sua história de uma Vida ligada ao Futebol.

Bruno Ribeiro: “Ainda hoje me recordo da minha infância. Uma infância que eu adorei, sempre com a bola nos pés.Era desde manhã até à noite a jogar futebol. Não havia balizas como hoje há, fazíamos com pedras, com sapatos com o que havia ali a mão.

Ainda me lembro de a minha mãe aos gritos na janela a chamar para eu ir comer e eu sempre a jogar à bola.”

“Não tem botas, joga com elas remendadas”

“Era muito giro e nós estávamos sempre satisfeitos. Comecei a jogar federado aos 9 anos, um vizinho meu viu-me a jogar no bairro e levou-me aos “Pelezinhos”. Estive lá dois meses, ainda joguei contra o Benfica. Passados os dois meses, o Vitória FC tinha criado pela primeira vez na sua história uma equipa de infantis, então fui lá treinar pois é o Clube do meu Coração. Treinei e no primeiro treino fiquei logo. O treinador era o Carlos Malta. Sabia que ia também deixar os meus pais muito orgulhosos pois o meu pai ia ver os jogos todos do Vitória e é um grande vitoriano. Por isso estou igualmente na história do clube, pois fui o primeiro jogador a ser formado no Vitória desde os infantis e ter chegado até aos seniores e profissional.

Treinávamos à noite 3 vezes por semana. O meu pai trabalhava por turnos e eu ia sempre sozinho para o treino. Acabava tarde mas o vício era tanto e representar aquele clube e vestir aquela camisola era tudo para mim. Fui campeão distrital, dois anos, nos infantis e outros dois nos iniciados. Lembro-me perfeitamente que em iniciados o atual vice presidente do Vitória, o Sr. Rui Salas, foi ver um jogo e eu rebentei 2 pares de botas (estavam remendadas) e ele foi perguntar a um diretor porque é que eu rebentava tantas botas. O diretor disse lhe: “Não tem botas, joga com elas remendadas”. Ele, o Sr. Rui Salas, virou-se para o roupeiro dos seniores, o Sr. Joaquim, e mandou ele entregar-me umas Copa Mundial novinhas. Na altura eram as melhores botas, fiquei todo satisfeito.”

“Foi graças aos excelentes pais que tive e tenho”

“Aos 16 anos deixei a escola, trabalhava de dia e a noite ia treinar. Era muito cansativo, pois durante o dia era trolha, levar baldes de cimento para o terceiro andar, carregar tijolos, era duro. À noite ia treinar, mas nunca desisti, sempre fui muito profissional naquilo que fazia e faço. Sempre tive e tenho uns pais extraordinários, sempre a apoiarem-me. o meu pai ia ver os jogos todos, principalmente em casa, mas eu nunca o via, sempre escondido para eu não o ver. Deixava-me sempre à vontade e ele sempre no seu cantinho. Dizia-me se jogava bem ou mal mas nunca dizia nada sobre o treinador ou sobre o jogo em si. Dizia sempre que o treinador é que manda e para eu fazer o que ele.

Fui profissional numa profissão que adorei e hoje vejo que foi graças aos excelentes pais que tive e tenho, sempre prontos para ajudar, sempre por perto e agradeço-lhes a pessoa que sou hoje, é tudo graças a eles. O jogador que fui, a carreira que tive, tudo graças a eles. Simplesmente fantásticos. Obrigados meus pais.”

Primeiro Sonho Realizado – Vitória FC

“Aos 17 anos assinei contrato profissional, comecei a treinar com os seniores e jogava pelos juniores. Deixei de trabalhar como trolha, como é lógico, fiquei a tempo inteiro no futebol, como eu queria e o meu grande sonho realizou-se. Nem queria acreditar. Ser profissional pelo meu clube.

Muita gente dizia, “tu vais ser jogador de futebol” e eu pensava para mim, será verdade? Não gostava de perder, nem gosto, nem a brincar. Ficava todo chateado quando isso acontecia. Ninguém podiam estar perto de mim nem dizer nada. Depois desse sonho realizado pus na cabeça que ia ser titular do Vitória. Ia trabalhar sempre muito para o conseguir como fazia e faço.

Via, aos domingos à tarde, os resumos do futebol inglês, pois era o futebol e espetáculo que mais gostava.  Dizia para mim, muitas vezes, eu adoraria jogar ali naqueles palcos. Jogar em Manchester, Liverpool ia ser fantástico.

Com 18 anos comecei aos poucos a jogar na primeira equipa do Vitória, com 19 anos e 20 anos era titular. Fazia bons jogos, fui chamado a selecção de Sub-21 de Portugal. Mais um sonho realizado, representar o nosso país e cantar o hino. Um orgulho.”

Mais um Sonho Realizado – Inglaterra

Bruno Ribeiro com as cores do seu clube de coração, o Vitória Futebol Clube

Bruno Ribeiro com as cores do seu clube de coração, o Vitória Futebol Clube

“Num jogo Vitória SC – Boavista, o treinador do Leeds, o Sr. George Graham, veio assistir para ver o Jimmy (Jimmy Floyd Hasselbaink) jogar, pois queria comprá-lo ao Boavista e gostou muito de mim. Ficou de olho em mim. Pediu informações e veio ver mais 3 jogos. Ainda me lembro de num treino durante a semana, estava eu a treinar e a meio do treino veio o secretário técnico buscar-me. Tinha que ir tomar banho e ir a uma reunião com a direcção. E eu sem saber de nada. Puseram-me no carro e fomos para Lisboa. A caminho perguntam-me: “Sabes onde vais?” É eu lógico disse que não, pois não sabia mesmo. “Vais ter com as pessoas do Leeds United. Querem falar contigo.”

Nem queria acreditar o que estava a acontecer. Calei-me e quando chego ao hotel está lá o treinador e o diretor financeiro. Fiquei sem palavras, era mesmo verdade. Um dos meus outros sonhos podia estar muito perto de se realizar. Fiquei à conversa com o treinador enquanto os diretores foram tratar dos assuntos relacionados com a transferência.

Os clubes chegaram a acordo. Eles queriam que eu assinasse um contrato já feito, mas eu não percebia nada daquela papelada. Disse-lhes que tinha um empresário, na altura, era o Lucidio Ribeiro, e que ele tinha que estar presente, como é lógico.

Assim foi. Os clubes chegaram a acordo, cerca de 200.000 contos (1 milhão de euros) e eu fiquei de, durante essa semana, ir com o meu empresário a Leeds e assinar o contrato. Quando chegamos a Leeds eu já tinha o contrato feito pelos diretores do Vitória, da altura, e eu não sabia. Era muito mau. O empresário ainda renegociou mas não era aquilo que queríamos. Como era o campeonato que eu queria e ia para uma equipa de Topo do Futebol Inglês, disse ao empresário que queria assinar.”

13 Agosto de 1997, primeiro jogo em Inglaterra

“Fui dos primeiros portugueses a jogar em Inglaterra. Mas mesmo na altura que vou assinar, nesse mesmo dia, depois de um dia cheio de exames médicos, ligam-me do banco a dizer que o cheque do vencimento que o Vitória me tinha passado não tinha cobertura. Eu, nesse momento, podia ter rescindido com o Vitória e acabaria por receber esse dinheiro todo. Como é lógico não o fiz, fizemos um acordo para o Vitória pagar o dinheiro em falta e recebeu todo o dinheiro do Leeds. Como vitoriano nunca fazia uma coisa dessas. Assinei por 4 anos com o Leeds United, um clube que lutava pelos 5 primeiros lugares e, no ano anterior à minha ida, tinha acabado em 12 lugar.

Tive duas semanas de férias e comecei a Pré Época. Uma Pré Época que nunca tinha tido. Muito forte, mesmo muita correria e muita musculação. Lembro-me perfeitamente de, após o primeiro treino, chegar ao hotel, almoçar, deitar-me e só acordar no outro dia. E foi o Jimmy que me acordou para ir para o treino. Foram 3 horas de treino a subir rampas e muitos km a correr, só visto mesmo. Durante um mês foi muito duro, muito forte mas deixou-me muito bem fisicamente para o resto da época.

Bruno Ribeiro ao serviço do Leeds United

Bruno Ribeiro ao serviço do Leeds United

Ainda me lembro do meu primeiro jogo. 13 Agosto de 1997, contra o Arsenal que foi campeão nesse ano e tinha uma excelente equipa. Empatamos 1-1. Estádio cheio, como estava em todos os jogos. Mas esse foi especial foi o primeiro. O meu pai foi assistir, ficou comigo 5 dias e estava muito orgulhoso, nunca tinha visto uma coisa assim. Ambiente fantástico, sempre a apoiarem. A época correu muito bem fiz quase todos os jogos a titular e passados 5 meses renovei contrato para aquilo que tinha inicialmente pedido. Assinei por mais 5 anos.”

Bruno Ribeiro controla o esférico com a oposição de Gianluca Vialli.

Bruno Ribeiro controla o esférico com a oposição de Gianluca Vialli.

“Se assim não fosse já não estava aqui para contar esta história.”

“Outra das coisas diferentes foi jogar na época de Natal. Não estava habituado. Os meus pais foram lá passar o Natal e com os meus irmãos. A minha namorada já estava lá comigo. Foi um fantástico Natal em Inglaterra, com jogos ao dia 26 e 28 de Dezembro. Passagem de ano também se joga a dia 1. Nunca pára. É um espetáculo. Foi a família toda a esses 3 jogos, foi fantástico.

A 30 de Março de 1998 aconteceu uma coisa muito complicada. Tivemos um acidente de avião com toda a equipa lá dentro, eu incluído. Uma sensação horrível. Tínhamos perdido 3-0 contra o West Ham e como viajavamos sempre de avião quando íamos a Londres, depois da derrota, todos tristes, fomos para o avião.

Começa a acelerar para levantar voo e rebenta a turbina. Parecia uma bomba. Começa uma parte a arder, já estávamos no ar, cerca de 100 metros do chão. Vá lá que o piloto era experiente e conseguiu levar o avião para um campo perto da pista. Pois, em Inglaterra, ao lado dos Aeroportos é só campos. Se assim não fosse já não estava aqui para contar esta história. Conseguiu aterrar ai a 10 m da auto estrada. Mais 30 segundos e o avião rebentava. Muita sorte.

Impressionante foi quando o avião caiu, os bombeiros apareceram logo de imediato e nós todos saímos pela janela de emergência, a fugir. Depois regressamos a Leeds de autocarro, queriam que fôssemos de avião mas não aceitamos. Lembro-me que passados 3 dias jogamos com o Barnsley, em casa, e o piloto e as hospedeiras de bordo foram homenageados em pleno relvado por nos terem salvo as vidas.”

União de Leiria, Beira-Mar, Santa Clara e o regresso ao clube do coração

“Finais de Abril, fui operado a uma hérnia inguinal, por causa do esforço realizado durante a época, pois o ritmo e a intensidade era muito forte. Depois foi uma carreira que me orgulho bastante, passei por clubes como a União de Leiria, Beira-Mar e Santa Clara. Mais tarde, voltei ao meu clube do coração, onde estive ligado as conquistas das Taças de Portugal, em 2004/2005, Taça Ibérica, em 2005, e Taça da Liga, em 2008.

Conquista da Taça de Portugal em 2004/2005

Conquista da Taça de Portugal em 2004/2005

Orgulho por ter começado e acabado a minha carreira de jogador no Vitória Futebol Clube e, também, por ter começado como treinador no clube. Quem sabe acabe lá também.

Quero agradecer à minha família por todo o apoio dado, sempre muito perto de mim. Tudo o que sou hoje é graças a minha família. O MEU MUITO OBRIGADO.”

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