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Bom Futebol contado por… António Livramento

Bom Futebol contado por... António Livramento

Bom Futebol contado por… António Livramento

António Livramento conta, na primeira pessoa e em exclusivo para o Bom Futebol, a sua história de uma Vida liga ao Futebol.

Primeiros passos atrás de uma bola

“Lembro-me de tudo. Comecei a andar atrás da bola, dizem os meus pais e a minha irmã. Primeiros passos atrás de uma bola.

Comecei a jogar contra os mais velhos, porque era dos mais novos do meu bairro. Sou de um bairro simples e humilde, que já não existe, chamado Bairro Jara. Jogava contra rapazes do meu bairro com 5, 7 e 8 anos a mais do que eu. Sempre com duas pedras no meio da estrada e a jogar futebol o dia todo. Só parava quando vinham carros. Faltava as aulas para jogar futebol. Era o dia todo com a bola.”

António Livramento

António Livramento. Foto: AlgarveDesporto

Ginásio Clube de Tavira e o recorde pessoal de golos num só jogo

“Comecei a jogar muito cedo no Ginásio Clube de Tavira. Na altura não havia esses escalões todos que há hoje. Eu tinha 5 anos e treinava com os infantis, era uma diferença muito grande, mas fez-me crescer muito rápido. Lembro-me de quando comecei a jogar no Ginásio, nessa altura não havia os pais que há agora a ver os jogos os miúdos. Eram mais independentes que são hoje.

Na minha família todos jogaram futebol, mas não ligavam muito ao facto de eu jogar. O meu pai que tinha que trabalhar para entrar dinheiro e comida em casa, a minha mãe ia ver a primeira parte dos jogos e depois ia para casa fazer o almoço para quando eu chegasse do jogo.

Recordo-me de alguns episódios de quando era mais jovem, por exemplo, num derbi entre o Ginásio Clube de Tavira e os Leões Futebol Clube de Tavira, no qual bati o meu recorde de golos num jogo em que ganhamos por 14-0, eu fiz 11 golos. Um episódio caricato que aconteceu foi com um cão que eu tinha, ele saiu de casa e aparece-me dentro do campo de jogo enquanto eu jogava. O meu cão chamava-se Perdido, era um animal inteligentíssimo.”

Sporting, Benfica, José Mourinho, Heyckens, Toni e Chalana

“Durante a minha formação sempre tive vários convites para sair do Ginásio, fui ate várias vezes para cima (mais a Norte). Em iniciados estive no Sporting Clube de Portugal com tudo certo mas tive que voltar porque disse que não conseguia ficar longe de casa. Em juvenil estava no Sport Lisboa e Benfica, falava diariamente com os meus amigos e sentia saudades de tudo, dos amigos, do bairro, da praia e não consegui.

Entretanto, quando voltei, fui para os seniores do Ginásio. Enquanto treinava à noite, trabalhava durante o dia. Sempre tive o sonho de ser jogador de futebol. Sempre me diverti e fiz o que gostava. Nesse ano o Sport Lisboa e Benfica voltou a interessar-se. Nessa altura já não ia para os juniores mas sim para a equipa B e com contrato profissional.  Pensei e disse para mim que tinha chegado a hora de sair do meu porto de abrigo e ir em busca do meu sonho, logo num clube como o Benfica.

Saí de Tavira, terra pequena e quase sem conhecer nada nem ninguém. Cheguei ao Benfica e tudo correu excelente, jogando na equipa B, fazendo a fase final com juniores e indo a equipa principal. Fiz alguns jogos particulares e estive várias vezes no banco sem me ter estreado.

Apanhei Jupp Heyckens, José Mourinho e Toni como treinadores da equipa principal. Na equipa B o treinador era José Morais e nos juniores o grande Fernando Chalana. Correu tudo bem.

Entretanto houve a mudança de direção tanto no Benfica como no Ginásio e o acordo foi por água abaixo. Estava um ano de empréstimo mas com opção de compra. Tinha jogado e era uma grande promessa, mas as direções não se entendiam pois a direção do Ginásio da altura pediu muito dinheiro.”

“Pensei em deixar o Futebol”

“Então vim para o Farense, na primeira liga. Tinha sido contratado pela direção e vinha para jogar. O treinador espanhol da altura era o Alberto Passos e como não vim por ele não me punha a jogar. Eu sem jogar, o farense não pagava. Em 2 anos la fiquei com 10 meses em atraso. Pedi para ir embora e fui para o Olhanense a meio da época emprestado e também não recebi. Até pensei em deixar o futebol e voltar a trabalhar. Estava triste com futebol e com as mentiras que os directores e dirigentes diziam, pensei em jogar à noite e trabalhar durante o dia, estava decidido.

Até que o meu colega desse ano, Paulo Sérgio, passou a treinador e pediu-me para o ajudar e dar mais uma oportunidade ao futebol profissional. Por ele e por mim assinei mais um ano em Olhão, ai tudo mudou. Subimos de divisão, fiz uma grande época, saía em várias revistas e jornais como uma das grandes promessas portuguesas, e aí voltou o meu sonho.

Mas era um miúdo, imaturo e sem ninguém que me ajudasse. Apareceram vários empresários de roda de mim e era só mentiras. A partir daí fui completamente dominado por eles, já era tudo suposições e nada concreto. Saí do Olhanense a meio da época para ir para o Estoril na 1 divisão. Faltava um dia para fechar as inscrições, ia em direção a Lisboa, já tinha rescindido em Olhão e o presidente do Estoril diz que ia buscar jogadores emprestados ao Benfica e que o nosso acordo ficava sem efeito.

A faltar horas para fechar a inscrições, aparece o Santa Clara que estava a lutar para não descer de divisão na Segunda Liga. Não tive outra solução senão ir, caso contrário ficaria sem jogar. Fui para os Açores, pois teria sido a melhor coisa que me aconteceu profissionalmente. Correu muito bem e fui pai. Há males quem vem por bem. Senão não teria minha Maria.”

Estreia na Primeira Liga

“Foi de la, do Santa Clara, que saltei para a Primeira Liga e para o Boavista. Fiz a estreia na primeira liga num Boavista – Sporting. O mister Jaime Pacheco foi-me buscar.

Era mais um passo grande na minha carreira, mas a crise financeira do Boavista obrigou-me a sair sem fazer a carreira lá como gostaria. A partir daí foi mais uma história de mentiras e timings, errados no futebol. Pois o futebol são timings, se não os aproveitas eles passam, e a carreira é curta.

Saí do Boavista para o Leixões e cheguei tarde na pré época. Fui poucas vezes opção e também nunca soube lidar com as não utilizações regulares e pedi para sair.

A meio dessa mesma época, o mister disse que contava comigo e que não me deixava sair, isso foi antes do Natal. Depois, quando vim das férias de Natal, o mister chama-me e disse que iria ter mais opções e já não contava comigo. Aí começou o mau estar com esse treinador, porque tinha vários clubes para sair e ele não deixou. Depois, quando esse mesmo clube se reforçou, ele dispensa-me.

António Livramento, ao serviço do Rio Ave, disputa a posse da bola com Lucho González

António Livramento, ao serviço do Rio Ave, disputa a posse da bola com Lucho González

Os clubes da Primeira tinham fechado as vagas e sobrou-me a Segunda Liga. Fui para o Rio Ave, outra aposta ganha, subimos de divisão, joguei bem e muito. Assino na Primeira Liga e tudo começa bem, a jogar e a ser dos jogadores mais valiosos da Primeira Liga. Mas os resultados não eram os melhores e o treinador vai embora, apesar de a nível pessoal correr bem. A falta de sorte e eficácia afastava o João Eusébio do comando. Para meu azar, chega a Vila do Conde o mesmo treinador que tive no Leixões e, ao fim de alguns jogos, ele afasta-me do nada, pela má relação que tínhamos.”

Das promessas de contrato milionário e um sempre desejado regresso ao Algarve, até à ida para a Bulgária

“Apesar disso, ia jogando e na ultima jornada acabo por marca o golo da manutenção, e recebo proposta de renovação de 3 anos no Rio Ave. Mas aparece um empresário com um contrato de 3 anos milionário.

Eu rejeito o Rio Ave e, ao fim de duas semanas, o empresário diz-me que o presidente mudou e o contrato era revogável. Mais uma vez enganado e depois só apareceu Segunda Liga e eu não quis. De melhor da Primeira Liga a jogador de Segunda Liga, não quis ir e esperei que aparecesse algo bom. Fiquei 6 meses sem jogar. Depois o Paços de Ferreira liga-me e vou, mesmo estando muito tempo parado. Quem sabe nunca esquece. Fiz um excelente final de época apesar de ter sido operado ao apêndice, mas recuperei rápido e acabei a jogar a bom nível.

António Livramento, ao serviço do Paços de Ferreira, em pleno relvado do Estádio da Luz.

António Livramento, ao serviço do Paços de Ferreira, em pleno relvado do Estádio da Luz.

No último jogo de época, Paços de Ferreira – Olhanense, o presidente Isidoro Sousa veio falar comigo para voltar para o Algarve e para Olhão. Eu não pensei duas vezes e disse sim. Disse que o dinheiro não era problema e acertamos o meu regresso. Em Olhão bastava o contrato verbal, ele disse que seria o primeiro jogador a assinar. Rejeitei o Paços e a Naval, tudo Primeira Liga, para voltar a Olhão. Passou semanas e ele não me ligava. Contrata treinador e jogadores, vi logo que algo estava mal e liguei-lhe. Ele não me atende e manda dizer que o treinador não contava comigo e para eu procurar clube.

António Livramento na Bulgária, ao serviço do Beroe.

António Livramento na Bulgária, ao serviço do Beroe.

As vezes o futebol não é o que as pessoas pensam, a maioria que la anda e só mentirosos e oportunistas. Como disse antes, o futebol são timings, eles passam e depois comecei a jogar na Segunda Liga. No Leixões e depois no Chaves. Mas eu queria Primeira Liga e surgiu o mister Iliev que me fez o convite para ir para o PFC Beroe Stara Zagora da  Primeira Liga búlgara.

Apesar de nunca ter querido emigrar não pensei duas vezes, fui em busca do meu sonho, mais uma vez, e acertei na aposta. Joguei três anos lá, em vários clubes e sempre fui respeitado, fazendo boas épocas. Na última, fui considerado um dos melhores jogadores do campeonato e terminei como vice campeão nacional.”

Gibraltar e a Liga dos Campeões

António Livramento foi Campeão ao serviço do Lincoln de Gibraltar.

António Livramento foi Campeão ao serviço do Lincoln de Gibraltar.

“Depois da Bulgária fui procurar outra parte do sonho em Gibraltar, Lincoln Red Imps, jogando a Liga dos Campeões e ganhando tudo o que havia para ganhar. Taça, Supertaça e Campeonato.

Após viver a experiência de jogar a Liga dos Campeões, vim para o Farense.”

Farense um dos clubes do meu coração

António Livramento ao serviço do seu atual Farense.

António Livramento ao serviço do seu atual Farense.

“Estava realizado um dos meus sonhos. Voltei a um dos clubes do meu coração. Cinco épocas como sénior e o meu porto de abrigo.

Agora tenho mais um sonho, subir o Farense e deixá-lo no lugar que merece. Para além disso, tenho uma Escola de Futebol onde pretendo dar o conhecimento e as oportunidades aos miúdos, aquilo que eu não tive.

Poderia ter chegado mais longe podia, mas com os percalços que tive na carreira acho que fui um guerreiro por me ter levantado tantas vezes.

Sinto-me realizado pelo facto de ter  jogado na Primeira Liga Portuguesa, na Bulgária, em Gibraltar, ter jogado na Liga dos Campeões e ter sido internacional Sub-20 e sub-21, só faltou mesmo chegar a Internacional A.

Para quem nasceu num bairro e não conhecia nada, acho que não foi mau e, sozinho, não me safei mal.”

Foto de Capa: AlgarveDesporto

António Livramento (Atual Jogador do Farense)

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