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Bom Futebol contado por… Tozé

Tozé enfrenta Bermúdez, Defesa Central do Benfica, em pleno Estádio da Luz.

Bom Futebol contado por… Tozé

Tozé conta, na primeira pessoa e em exclusivo para o Bom Futebol, a sua história de uma Vida ligada ao Futebol.

“Todos estamos habituados a ler histórias mediáticas, de sonhos concretizados, contadas na primeira pessoa, ou por intermédio de outrem.

Eusebio, Luis Figo e Cristiano Ronaldo

Eusebio, Luis Figo e Cristiano Ronaldo

Todos nós conhecemos a história do Ronaldo, do Figo, do Eusébio e de todos aqueles que fruto do seu talento e esforço, conseguiram atingir patamares elevados, só ao alcance dos predestinados.

Mas sabiam que apenas uma pequeníssima percentagem daqueles que aspiram a ser jogadores de futebol conseguem atingir patamares elevados?

Sabiam que existiram e existem centenas  de jogadores de futebol que apesar de fazerem do futebol a sua vida, não conseguem chegar sequer a jogar na 1ª Liga?

Pois bem  vindos  à realidade, 90% dos milhares de atletas de todas as idades inscritos actualmente nas várias associações do país, não vão ser sequer jogadores profissionais, a grande maioria acaba aos 18 anos, outros antes disso e outros vão terminando naturalmente à medida que o sonho se vai tornando mais difícil de concretizar.

E os que não chegam sequer a ser profissionais, o que os motiva a seguir uma carreira que não tem qualquer futuro? O que os leva a treinar diariamente sem o mínimo de condições?

O Futebol é universal, aquilo que sentes num jogo importante é sempre igual, independentemente da divisão em que jogas. Aquilo que sentes depois de um golo é exactamente a mesma sensação independentemente da divisão ou do nível a que jogas. Se marcas  um golo numa final do campeonato  distrital vais sentir tanta felicidade como um jogador que marca um golo numa final da Liga dos Campeões.

Por esse motivo decidi contar-vos um pouco da minha história, a história de alguém que não foi um grande jogador, que não teve o mediatismo dos grandes jogadores, que não jogou em grandes campeonatos, mas que entrava para cada jogo como se jogasse no melhor clube do mundo e como se ganhasse milhares de euros.

A história de alguém que viveu um sonho pequenino, mas com uma intensidade monstruosa, tão forte que ainda hoje sonha que é jogador de futebol e acorda a meio da noite e tenta adormecer novamente para que o sonho continue.”

1984

“11 anos de idade e 1,20 de altura.

Rua Rei Ramiro acima, saco plástico na mão com uns calções e uma camisola, as sapatilhas já calçadas porque não havia dinheiro para chuteiras, à procura de mostrar no C.D. Candal o que fazia no Lugar De Gaia, zona histórica de Gaia, junto ao Rio Douro.

1 ano a jogar nos Infantis e desde logo a 1ª desilusão:

Não fiquei no ano seguinte porque era muito pequenino.

Nada que me demovesse.

Tozé

Passado algum tempo peguei novamente no meu saco plástico e meti pés ao caminho, literalmente. Com a ajuda do Prof. Jorge Gonçalves e do Sr.Ismael Martins (actual presidente do Candal)  fui treinar ao Vilanovense, cerca de 8  km diários a pé, sozinho, à noite e sem medo de nada nem de ninguém.

4 anos neste clube até voltar novamente ao Candal.”

Ribeira de Gaia e a conversa entre três amigos: Jorge Costa, Nandinho e Tozé

“Nunca vou esquecer uma conversa, na ribeira de Gaia, entre 3 amigos e colegas de equipa.

Dizia o Jorge Costa, ponta de lança destemido e goleador: “O meu sonho é jogar nos seniores do Candal, se isso acontecer, pra mim, já me dou por satisfeito. Acho que vou conseguir, o mister já me conhece e vai apostar em mim.”

Eu era mais ambicioso. Jogar nos seniores do Candal? É esse o teu sonho? O meu é ser jogador profissional, não me interessa a divisão, só quero fazer disso a minha vida. Estou farto de estudar e também não sei fazer mais nada. O que eu quero é jogar futebol, só…

O Nandinho era o mais ambicioso e ficamos abismados quando ele disse: “Eu se não chegar à 1ª Divisão até aos 23 anos, deixo o futebol.” Rimos imenso quando ele disse isto. O Nandinho era um menino muito magrinho, pesava um 60 kg, mas sonhava como um desalmado e acreditava nele como nunca conheci ninguém.

Pois incrivelmente todos os nossos sonhos se concretizaram.

O Jorge jogou nos seniores do Candal e em mais alguns clubes do distrital. Eu fui jogador profissional de futebol durante 10 anos. O Nandinho aos 22 anos já jogava na 1ª divisão, no Salgueiros, de onde se transferiu para o Benfica e fez uma carreira fantástica para um menino que aos 20 anos jogava na distrital do Porto.

Nandinho ao serviço do Salgueiros

Nandinho ao serviço do Salgueiros

Mas voltemos à minha carreira…”

“Tózé! Jogas onde te apetecer.”

“Um ano de sénior no Candal e regresso ao histórico Vilanovense para, logo na 1ª época, subir à antiga 3ª Divisão nacional.Uma grande época e o interesse de clubes de divisões superiores.

Tudo certo com o Leixões mas mais um grande revés.  Tinha que me apresentar em Lisboa em Setembro para cumprir o serviço militar. Chorei como uma criança, o meu sonho ficava mais difícil.

Tive que continuar no Vilanovense. Vinha à sexta feira, jogava ao domingo e seguia de imediato para Lisboa. Um ano depois assino contrato com o Maia ainda antes de acabar a época.

Quando chego ao Maia, o clube tinha contratado um novo treinador, José Rachão. Não me conhecia e quando me viu pela primeira vez , olhou para mim de alto abaixo e disse:

“Tu não és sénior miúdo, tu deves ser iniciado, o treino não é hoje.”

Grande equipa tinha o Maia nesse ano e como é óbvio o mister nem olhava para mim.

No jogo de apresentação, frente ao Salgueiros do meu amigo Nandinho, entrei na segunda parte e estava a ver o jogo o meu conterrâneo, Edmundo Duarte, que logo me convidou para ir para o seu Dragões Sandinenses.

Cheguei a Sandim como lateral direito, posição que jogava desde sempre. Algum tempo depois, a uma quinta feira, fomos fazer um treino de conjunto contra outro clube e o mister entra no balneário para a palestra e para transmitir a equipa que ia iniciar o treino.

Começa a dizer a equipa e o Tózé nada. Já fui, pensava eu.

O mister dá a palestra, vira as costas, abre a porta para sair e diz um dos jogadores:

“Ó mister, vamos jogar com 10? É que na constituição da equipa falta 1 jogador…”

O mister vira-se para trás, naquele seu jeito peculiar e diz:

“Tózé! Jogas onde te apetecer. Na direita, na esquerda, no meio e se conseguires estar nos três sítios ao mesmo tempo é o ideal.”

Correu bem o treino.”

Estádio da Luz, parecia que íamos ser executados, ninguém falava

“Domingo jogo para a Taça em Lousada, o Lousada era da 2ª divisão e nós da 3ª. Resultado: 0-5 para os Dragões Sandinenses, com 4 assistências minhas para golo.

Nunca mais fui Lateral Direito…

Seguiu-se uma caminhada épica e inesquecível na Taça de Portugal.

Eliminámos 2 equipas da 1ª divisão, o Espinho e o Estrela Da Amadora, do actual seleccionador Nacional Fernando Santos, e segue-se o Benfica (de Valdo, Brassard, João Pinto, Bermúdez e Tiago), no Estádio Da Luz.

Tozé nas costas de Pedro Henriques.

Tozé nas costas de Pedro Henriques.

Na Luz, à chegada, uma multidão. Milhares de pessoas à nossa espera.

Nunca mais vou esquecer aqueles momentos no túnel, antes de entrar no relvado, onde o barulho era mais intenso a cada passo.

Olhava para alguns jogadores nossos e parecia que íamos ser executados, ninguém falava. Nunca ninguém tinha jogado para mais de 300 pessoas. Naquele jogo estavam 30 mil. Agora imaginem se estivessem 90 mil!

15 minutos de jogo e já estávamos a perder 3-0, parecíamos estátuas.

Ao intervalo e depois de uma palestra inesquecível do mister, fomos para cima deles. Parece incrível, mas fomos mesmo. Fizemos o 3-1 por intermédio do meu amigo Landu (que Deus o tenha em eterno descanso) e a meio da segunda parte penálti sobre mim, expulsão do jogador do Benfica e a hipótese de fazer o 3-2 ainda com 15 minutos para jogar.

Tozé com Landu

Tozé com Landu

A bola foi para a bancada… Não há dia na vida que não pense que deveria ter pegado naquela bola. Devia ter assumido e marcado aquele penálti. Tive medo… Por isso é que uns chegam lá e outros não…”

Espinho, Primeira Divisão e Jorge Mendes

“Fruto das boas exibições a minha carreira estava lançada. Tinha convites do Leça, do Salgueiros e do Espinho, todos na 1ª Divisão à época. Escolhi o Espinho, que infelizmente acaba por descer nesse ano à 2ª Liga. Um bom inicio de época e logo comecei a dar nas vistas.

Tozé ao serviço do Sporting de Espinho.

Tozé ao serviço do Sporting de Espinho.

Depois de um Sporting Espinho vs Beira Mar, estou a sair do estádio e 2 pessoas aproximam-se,  um deles falava espanhol e pediram-me para tomar café com eles.

Proposta de contrato para o Ourense de Espanha e valores de tal forma elevados para aquilo que eu ganhava, que quando saí do café até me enganei no caminho que fazia diariamente. Quando dei por ela, já ia em direcção a Aveiro em vez de vir para Gaia.

Contactaram o Espinho que pediu uns bons milhares pela transferência e tudo foi por água abaixo.

Passado algum tempo sou contactado por um colaborador do senhor Jorge Mendes, empresário que começava a ser conhecido e representante também do meu amigo Nandinho.

Contrato assinado e cada vez mais certezas que o futuro seria risonho. De todas as vezes que falei com ele sempre me dizia para não me preocupar que tinha vários clubes interessados em mim, mas como tinha contrato com o Espinho tinha que ter paciência.”

“Aquele jogador do Alverca joga que se farta”

“Nessa época tivemos um jogo inesquecível, Espinho vs Alverca, 3-3 foi o resultado final. No final do jogo saio do estádio e lá estava Jorge Mendes a quem fui cumprimentar, mas ele quase não olhou para mim. Logo a seguir a mim saiu um jogador do Alverca e o Jorge quase que passava por cima de toda a gente para o ir buscar.

Pouca gente conhecia esse jogador e quando cheguei a casa o meu Pai diz-me:

“Aquele jogador do Alverca que marcou 2 golos, joga que se farta, nunca tinha visto um jogador assim, é o Hugo Leal não é?”

Não Pai, disse-lhe eu. Aquele miúdo chama-se Deco e realmente é um fenómeno, nunca tinha visto nada igual.

Nessa equipa do Alverca jogava Hugo Leal, Maniche e outros craques mas Deco era incrível. Dei por mim dentro do campo a olhar para ele de cima abaixo e a pensar de onde tinha aparecido aquele gajo. Lembro-me que o Carvalhal bem lhe tentava acertar, mas o rapaz era magia pura mesmo…”

Tozinho, como Carvalhal lhe chamava, entregue a sua sorte

“Época seguinte e mais uma temporada no Espinho. Carlos Carvalhal passa de jogador a treinador e logo na 1ª semana chama-me e diz-me:

Tozinho ( era assim que ele me tratava), este ano não vais jogar tanto como na época passada, vais jogar sempre, mas nem sempre de inicio como estás habituado.

E assim foi, prometeu e cumpriu. Joguei todos os jogos, mas a maioria deles como suplente utilizado.

Jorge Mendes nunca mais me atendeu o telefone e no final da época saio do Espinho e estou entregue à minha sorte.

Aparecem 2 interessados também da 2ª liga, mas eu queria ganhar dinheiro. Tinha 27 anos, ia casar nesse verão e tinha que fazer um bom contrato. As propostas do Varzim e do União Lamas não eram grande coisa e esperava algo melhor.”

“500 não te dou, dou-te 600!”

“A melhor proposta  financeiramente acontece na noite da minha despedida de solteiro.

Sim, numa noite de copos e divertimento! Vem ter comigo o presidente do Vilanovense, clube onde já tinha jogado e que tinha acabado de subir á 2ªB.

“Tózé, quanto queres para vir para o Vilanovense?”

Ó presidente, eu não quero ir para o Vilanovense, então tenho o Varzim e o Lamas da 2ª Liga e vou para o Vila? Nem pensar!

“Quanto queres?” Continua ele a perguntar.

Eu de copo na mão encostado ao bar e de forma a afastar o interesse digo-lhe:

Ó presidente tinha que me dar praí uns  500 contos por mês.

“500 não te dou, dou-te 600!” Diz ele…

Eu de copo cheio na mão bebo tudo de uma vez e pergunto-lhe: Onde é que eu assino?

Claro que só podia correr mal e em Novembro já estava à procura de clube e o União Da Madeira foi o destino.”

Do pior balneário de sempre à experiência inesquecível de ser pai

“Na Madeira encontrei o pior balneário de sempre, nunca tinha visto nada igual. Treinávamos no Complexo Desportivo da Camacha e equipávamos em 2 balneários.

Num dos balneários equipavam os Portugueses e os Jugoslavos, no outro os Brasileiros e os Franceses. Ninguém se falava e nos jogos mandavam grandes pedradas uns para os outros à espera de um falhanço. O treinador era o senhor Manuel Balela e até tinha pena dele, ninguém merecia alguns daqueles jogadores.

Tozé ao serviço do Operário dos Açores

Tozé ao serviço do Operário dos Açores

Época seguinte e uma experiência inesquecível no Operário dos Açores. Terra fantástica, de gente humilde, muito séria e ano que fica marcado pelo nascimento da minha filha, que mudou definitivamente a minha vida, ou a forma como eu via a vida.”

Melhor em campo no Jornal com zero remates, zero cruzamentos e zero recuperações de bola

“Inicialmente o treinador era, o falecido António Jesus, que tinha sido Guarda Redes do Vitória de Guimarães e da Selecção Nacional, mas passados alguns jogos foi substituído pelo mister Filipe Moreira, que tinha uma forma muito própria de lidar com os jogadores.

Certo dia, jogámos em casa com o Portimonense e se ganhássemos aproximávamos do 1 º lugar.

Acho que empatámos 0-0 e fui substituído na segunda parte. No dia seguinte de manhã e antes do treino, comprei o jornal, como sempre fazia e quem tinha sido o melhor em campo para o jornalista? Eu mesmo. Escrevia ele que não se tinha percebido a minha substituição.

Chego ao treino, cheio de moral, equipo-me e entro no relvado, juntamente com os meus colegas.

O Filipe estava com uma capa na mão, chama-me à parte e pergunta:

“Senhor Jogador (era assim que ele tratava os atletas) o que achou da sua exibição?”

Ó mister eu acho que até estive bem, olhe no jornal até diz que fui o melhor da equipa.

E pergunta ele: “Senhor jogador, sabe o que é isto que eu tenho na mão?”

Tem uma capa mister!

Ele abre a capa e pergunta: “O que tem dentro da capa?”

Tem folhas mister!

“E como é que estão as folhas senhor jogador?”

Estão em branco mister!

E diz ele:

“Estão como o seu jogo de ontem, em branco, a zero, sem nada. Zero remates, zero cruzamentos, zero recuperações de bola! Zero, zero, zero! Não fez nada!”

A verdade é que ele tinha razão, não sei que jogo é que o jornalista tinha visto, porque realmente não tinha jogado nada mesmo.”

O Regresso aos Dragões Sandinenses e a subida com direito a pontapé nas costas

“Estava com 30 anos e queria voltar a ser treinado pelo Sr. Edmundo Duarte e quem estava ele a treinar? Dragões Sandinenses. Mais uma grande época e subida de divisão.

O jogo que decidiu a subida foi em Amarante, se ganhássemos subíamos e o Amarante descia. Não se falava de outra coisa durante a semana, tínhamos que ir lá ganhar.

Chegamos a Amarante e uma multidão à nossa espera. O autocarro pára à porta do estádio numa pequena subida e a malta começa a sair. Quando dei por ela estava tudo à pancada, os adeptos que lá estavam não eram uma comissão de boas vindas e os nossos jogadores não eram de se ficar. Saíram todos e encostados ao autocarro viravam cada um dos adeptos que se aproximava.

O único que levou realmente, adivinhem quem foi!

Eu, claro…

Tinha a mania que era esperto e quando os vi junto à porta traseira, saí pela frente. Levei tamanho pontapé nas costas que aterrei no meio da confusão. Tivemos que fugir todos e só voltamos com escolta policial.

Equipamos numas escadas em pedra junto ao balneário, porque o cheiro era insuportável, os dirigentes queriam ir embora, mas nós fomos à luta, não fugimos, queríamos jogar.

Aos 10 minutos cruzamento do lado direito e voei entre os centrais, golaço de cabeça. Ao intervalo já estávamos a ganhar 3-0 e subimos de divisão.

Jogadores do Dragões Sandinenses elevam o treinador Edmundo Duarte

Jogadores do Dragões Sandinenses elevam o treinador Edmundo Duarte

O mister vai para o Vilanovense e nós íamos para o fim do mundo se ele quisesse. Fomos 8 com ele. 3 anos desastrosos a nível financeiro. Em 3 épocas devo ter recebido uns 4 ou 5 meses e ficava sempre com a esperança e a promessa de receber o que me deviam.

Chegava ao fim o meu sonho, uma menina para criar e a necessidade de ter que trabalhar para que nada lhe faltasse.”

Conquista histórica numa carreira de grande orgulho

Tozé em ação com as corres do Clube Desportivo Candal

Tozé em ação com as corres do Clube Desportivo Candal

“Um regresso ás origens, para acabar como jogador/ treinador do C.D.Candal.

Tendo na época seguinte e já só como treinador, alcançado a subida aos nacionais, feito que só tinha sido conseguido uma vez, nos 100 anos de história do clube.

Esta é a história de alguém que teve um sonho e que o concretizou, mas que sonhou pequenino.

Esta é a história de alguém que não jogou a um nível elevado, nem perto disso, mas que tem um grande orgulho na carreira que teve.

Esta é a minha história…”

Autor: Tozé Madureira

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