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Captação de jogadores jovens do Guangzhou Evergrande

China - Captação

Captação de jogadores jovens do Guangzhou Evergrande

O Guangzhou Evergrande, provavelmente o maior clube Chinês da actualidade com 7 títulos consecutivos de Campeão Chinês, 2 Ligas dos Campeões Asiáticas, 2 Taças Chinesas e 4 Super Taças Chinesas, tudo conquistado desde 2011, deslocou-se num passado recente à localidade onde estou a trabalhar, Luochuan, e mais concretamente ao campo da minha escola para realizar recrutamento de jovens jogadores para a sua Academia de formação.

Trata-se sem dúvida do clube na China que mais gasta no que diz respeito à formação de jovens jogadores.

Uma breve pesquisa pelo Google e pelas notícias que dão conta do investimento realizado por este clube, encontramos uma notícia do site brasileiro “Trivela” o qual dá conta desse investimento.

Em 2012, os donos do clube inauguraram a maior escola de futebol do mundo.

Empresa estatal do ramo imobiliário, o Grupo Evergrande gastou cerca de € 165 milhões na construção do complexo, erguido em apenas 10 meses. A estrutura serve como categoria de base do Guangzhou, mas não apenas isso. Há uma espécie de internato no local, que abriga cerca de 2,6 garotos e 200 garotas de diversos cantos do país. Eles treinam, estudam e moram no local, montado em uma área rural da cidade de Qingyuan, ao norte de Cantão. Além de 50 campos de futebol, há imponentes prédios que abrigam os jovens.

O Guangzhou buscou 24 treinadores espanhóis para comandar o trabalho, como resultado de uma parceria com o Real Madrid. “O que nós ficamos sabendo é que as crianças tem um alto nível técnico, mas a grande diferença é tática, particularmente para fazer progressos”, comenta Sergio Zarco Díaz, um dos professores contratados.

O staff que se deslocou a Luochuan foi totalmente Chinês, e, uma vez que a informação aqui infelizmente é bastante escassa, não posso dizer com certeza que o staff espanhol continua em funções na formação do Guangzhou, mas decerto que estabeleceram as bases para que o trabalho futuro fosse uniforme.

Deste modo só tenho de agradecer o profissionalismo, competência, vanguardismo e know-how de captação de jogadores realizado na minha escola (sim, isto é ironia…como poderão testemunhar de seguida).

O recrutamento, no qual compareceram cerca um meia centena de jovens candidatos dos 8 aos 13 anos, foi constituído por 4 exercícios diferentes.

Tal a qualidade desta captação de atletas que após a realização dos três primeiros exercícios eu os abordei e perguntei ironicamente se realmente se tratava de captações para os escalões de formação de futebol do Guangzhou Evergrande ou se afinal seriam treinos de captação para a sua equipa de atletismo.

Uma vez que o meu tradutor não se encontrava presente, eles riram e não perceberam nada do que disse.

O quarto exercício veio então desfazer as dúvidas que tinha…mas não muito. Mas já lá vamos.

Primeiro exercício

A captação começou com a divisão dos jogadores em dois grupos. Após isto o primeiro grupo foi chamado para o campo para realizar os 4 exercícios previamente montados e dar lugar ao outro grupo.

Após breve explicação do primeiro exercício, os jogadores lá se alinharam para executar o exercício cada um na sua vez.

Este exercício consistia de uma corrida cronometrada de 60 metros em linha recta, como poderão ver pelo vídeo.

Isto num dia frio e de chuva e sem aquecimento prévio.

Segundo exercício

Continuando a saga de recrutamento digna de uma equipa de atletismo, o segundo exercício levou a que a fila de jogadores se desloca-se para outro lugar onde já estava previamente montada uma fita métrica.

Assim sendo, um a um, os jogadores perfilaram-se para executar um salto a pés juntos a partir de posição estática, como atesta o seguinte vídeo.

Com algumas dificuldades técnicas de execução por parte de alguns atletas, mas tal não me pareceu que pudesse ser impeditivo de serem competentes na arte de jogar futebol.

Terceiro exercício

O terceiro exercício continuou na senda do que previamente se viu. Mais um exercício de velocidade, se bem que desta vez com mudanças de direcção.

Como os vídeos abaixo atestam, os jogadores teriam de executar um circuito previamente montado, que incluía mudanças de direcção, no menor tempo possível.

Foi nesta altura que inocentemente os tentei abordar para perguntar em inglês qual a equipa de atletismo a que pertenciam. Questão que obviamente pela dificuldade de comunicação ficou sem ser respondida, mas que, pela simpatia dos elementos do clube, me fazem torcer para que consigam medalhas nos próximos Jogos Olímpicos.

Quarto exercício

Este exercício final do treino de captação trouxe um certo sentimento de espanto, uma vez que incorporou um objecto estranho, a bola.

Outra vez alinhavados em fila, os jogadores foram cronometrados a fazer um percurso semelhante ao do exercício anterior, mas em espelho, a conduzir uma bola.

Este exercício causou-me alguma estranheza. Primeiro porque teve bola, coisa que até então era apenas um enfeite no meio do campo. Segundo, qual o motivo de estarem a fazer em espelho quando o outro anterior estava sem ninguém. Concluí rapidamente que o campo ficava mais composto para as fotos com os dois circuitos montados.

Apesar de alguma dificuldade de alguns elementos na realização do exercício, a verdade é que nada daquilo me fez pensar que não poderiam ser competentes no jogo em si e na tomada de decisão.

Parte final

Após a realização deste treino, chamaram todos os jogadores presentes para lhes dar um pequeno discurso, do qual não sei o conteúdo pois o meu tradutor não estava presente, e para lhes dar uns pequenos sacos desportivos para colocar as chuteiras e tirarem umas fotos.

Em conclusão, e apesar de já ter trabalhado na prospecção de um dos grandes Portugueses, a verdade é que pelos exercícios realizados não consegui perceber a capacidade de relação dos jogadores com a bola, a capacidade de interacção com colegas de equipa e adversários, a sua capacidade de gerir momentos de jogo e visão de jogo, capacidade de iniciativa, compreensão de jogo ou tomada de decisão. Ainda menos consegui perceber o que valiam os vários guarda-redes que compareceram à captação.

Mas sendo que a formação do Guangzhou está entregue a Espanhóis e com ligação ao Real Madrid, quem sou eu para discutir o modelo de captação que trouxe Guti, Raúl, Carvajal, Lucas Vazquéz, Morata ou Casillas entre tantos outros. O vanguardismo da captação sem dúvida que foi demasiado para a minha compreensão.

A verdade é que a questão é abordada aqui com muita ironia, mas tem de se perceber o contexto.

As principais influências no futebol Chinês foram o futebol Inglês e o futebol Alemão. E essas influências foram trazidas através dos emigrantes desses países, alguns com alguma formação em futebol, a maior parte sem qualquer formação em futebol, que vieram trazer as suas metodologias para cá.

Nessa altura o que se trabalhava nesses países era a parte física sem entendimento de um futebol mais técnico e táctico. Logo o modelo de captação, seja em clubes ou em escolas, sempre foi o de privilegiar a parte física em detrimento de tudo o resto.

O facto de o desporto nacional na China ser o Basquetebol e as equipas com maiores resultados internacionais estarão no Voleibol, faz com que a mentalidade do mais forte, mais alto e mais rápido prevaleça como dogma de selecção de jovens jogadores.

Claramente, pelos resultados que a Selecção Chinesa de Futebol apresenta e pela sua fraca qualidade de jogadores, um dogma que não pode nem deve ser adaptado ao futebol.

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