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A Crise do Tempo e da Falta dele

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A Crise do Tempo e da Falta dele

A Crise do Tempo e da Falta dele: O fenómeno futebolístico – o Desporto em geral, vive numa estreita relação com o Homem e a Sociedade que não o torna refém, mas o deixa dependente das suas alterações e evoluções, sublinhando o carácter complexo que Morin propagou. As mudanças que se façam sentir nalgum destes diferentes domínios (Homem-Sociedade-Desporto) influenciam necessariamente os restantes, nem que seja no sentido de assumir posições contra-corrente.

A precipitação do capitalismo e o consequente reforço positivo que fornece ao individualismo, a tendência para a concentração de riqueza/poder que o sistema financeiro e económico propiciam (numa lógica de MAIS, e raramente de MELHOR), a aparente acessibilidade de recursos no mundo ocidentalizado que aumentam a urgência da satisfação imediata, assim como o enfraquecimento do sistema de valores humanos e sociais criados por uma relativização extrema, têm um impacto na forma como o Futebol evolui e se desenvolve, criando uma série de problemas e crises a que, não intervindo adequadamente para resolver com uma determinada intencionalidade, vão sendo dadas respostas por arrasto da imparável e insaciável sede do sistema vigente.

Uma dessas crises, que tentarei aflorar muito brevemente nestas linhas, é a crise do TEMPO!

Sejamos práticos, tentando não ser redutores:

Primeiramente, há que recordar (porque, por vezes, parece que nos olvidamos) que o Futebol é um jogo praticado por pessoas. Mesmo no alto rendimento!!! Assume-se, sem necessidade de recorrer a grandes referências bibliográficas, que o treino desportivo, regido por inúmeros princípios que não importa de momento invocar, provoca nestas pessoas diversas e determinadas alterações e adaptações (quer sejam a nível físico, técnico, táctico, cognitivo, emotivo, etc.). Mas, quaisquer que sejam as intencionalidades de tal treino, também é sabido ser necessário TEMPO para que as mudanças se façam sentir (com diferentes tempos para diferentes mudanças)! E, para agravar a questão, é preciso ter a consciência de que no humano, este processo não é linear, ou seja, o rendimento não é directamente proporcional, e única e exclusivamente influenciado pelo TEMPO a que nos sujeitamos a determinado estímulo.

Então, se o desenvolvimento do jogo e dos jogadores, como efeito do treino para tal programado, necessitam como premissa indispensável de algo que o meio que envolve esta actividade não proporciona, estamos perante uma problemática de dimensão relevante: As necessidades do jogo (a nível micro) exigem TEMPO para atingir determinado rendimento, mas o meio que o suporta (a nível macro) tem falta dele para alcançar os resultados pretendidos!

Como resolver este problema?…

Aliás… Como tem sido resolvido? Que nível de decisão (micro ou macro) deve ditar as prioridades? Haverão pessoas com conhecimento suficiente para tomar decisões equilibradas nos dois diferentes níveis decisórios? Como alcançar e medir o equilíbrio entre estas duas tendências?

Não são questões de resposta simples, ou em que haja apenas uma possibilidade. Mas há certamente a possibilidade de definir prioridades, e haverão já ferramentas conceptuais suficientes para criar condições de resposta.

Deixaremos de parte a mais óbvia e primeira questão, para a qual não há receitas, e vamos focar-nos, em próximo(s) artigo(s), nas seguintes, que pela sua dimensão e complexidade merecem uma abordagem particular, embora necessariamente sucinta.

NOTA:

Podemos colher inúmeros exemplos, dados e factos que ilustram a problemática que estamos a abordar, mas a metáfora do tempo de gestação utilizada por Manuel Machado há bem poucas semanas (ele que já foi dispensado) é particularmente interessante. Há tempos que indiscutivelmente não conseguimos controlar…
Qual a razão pela qual José Mourinho já afirmou que as suas equipas apresentam melhores rendimentos e resultados no segundo ano? E por que motivo Jorge Jesus disse que o que conseguiu no seu primeiro ano como treinador do SCP foi, até certo ponto, inesperado? E o que leva Guardiola a afirmar que o City pode ainda não estar preparado para se assumir como candidato à Champions League?

Autoria: Francisco Pires

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