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Da Teoria à prática no Futebol de Formação

Futebol de Formação

Da Teoria à prática no Futebol de Formação

Nos dias de hoje, muito se sabe sobre quais as melhores formas de trabalhar na formação de atletas. Se recorrermos à literatura, podemos encontrar muitos autores reconhecidos como por exemplo Jorge Adelino, Jorge Vieira, Olímpio Coelho, Horst Wein entre outros. Autores estes que têm visões próprias de como se deve trabalhar com os mais jovens para que estes atinjam a excelência.

Com tanta informação sobre a formação no futebol juvenil, como é que ainda não conseguimos passar para a prática todo o conhecimento que já foi adquirido para uma melhor intervenção com os jovens atletas. Na minha opinião existem diversos fatores que influenciam a passagem da teoria para a prática, sendo eles: Formação de Treinadores; Competições; Remunerações; Direções e Pais/Público. De seguida irei realizar uma reflexão sobre cada um destes fatores, procurando promover alterações aos sistemas já entranhados no futebol juvenil.

Formação de Treinadores

Este fator é um dos mais importantes, pois é neste que se formam os treinadores que irão atuar sobre os jovens atletas. A formação de treinadores pode ser através das associações ou através da via académica, o que permite uma maior facilidade em adquirir o nível de treinador.

Mas ao realizarmos uma analise mais profunda, podemos observar que os cursos de treinadores não são diferenciados, ou seja, não existe diferença em quem procura especializar-se no futebol de formação ou no futebol de alto rendimento. Então o que torna alguém especialista na formação ou no alto rendimento se ambas as especialidades têm o mesmo caminho e conhecimento?

Não estou a dizer que não se dá a devida atenção ao trabalho com jovens, estou sim a identificar que não há uma maior especialização nesta área, uma vez que mais de 70% dos cursos são orientados para o alto rendimento.

O treinador no final do seu processo de aprendizagem, acaba por querer colocar em prática o que adquiriu nos cursos, mas sendo a maior parte orientada para o alto rendimento, acaba por realizar uma intervenção totalmente descontextualizado com a faixa etária em que trabalha. Não significa que a culpa seja totalmente do treinador, pois o seu processo de formação não lhe permitiu de todo orientar-se para o trabalho, onde a maior parte dos treinadores começa as suas carreiras – No futebol de formação.

Competições

Serão as competições em vigor as mais corretas para a formação dos nossos jovens atletas? Na minha opinião não. Neste momento a partir de escalões de sub-9 encontramos competições muito semelhantes às dos adultos, onde o resultado final parece ser o mais importante. Por vezes (muitas vezes) vemos resultados de 15-0, 9-1, como tantos outros resultados desequilibrados onde não faz o mínimo de sentido realizar jogos entre equipas tão distintas a nível de qualidade, promovendo assim o abandono da modalidade.

Ao mesmo tempo que encontramos competições totalmente desequilibradas, encontramos regras de associações totalmente inflexíveis, não permitindo o melhor desenvolvimento dos atletas. Qual o mal de um atleta sub-9 estar inscrito em duas competições distintas (sub-9 e sub-10)? No sistema de hoje, não é possível pois os resultados parecem ter maior importância que a formação dos atletas.

Talvez esteja na hora de reavaliar as nossas competições nos escalões mais novos, tornando as competições mais flexíveis e equilibradas com o objetivo de promover um maior equilíbrio nos jogos. Na minha opinião estes são claramente os dois grandes problemas da competição que lutam constantemente contra a formação dos jovens, influenciando os treinadores a trabalhar com objetivos de resultado e não de processo, pois ninguém gosta de perder, principalmente de forma regular e com resultados dispares. Decidi não colocar nenhuma proposta de modelo de competição, pois fugiria muito do tema (talvez para outro artigo). Mas é necessário mudar algo. Acredito que dá trabalho, mas também acredito que é para isso que as pessoas são remuneradas, para terem trabalho.

Remunerações

Este fator é bastante delicado, pois é algo que já tem sido muito discutido. Enquanto os treinadores de formação não forem remunerados (sim, porque receber o que recebem normalmente não é ser remunerado, é apenas pagar as despesas que têm para poderem ser treinadores), estes irão querer obter os melhores resultados para que rapidamente possam seguir para patamares profissionais, onde já poderão ser reconhecidos e remunerados como treinadores.

Infelizmente, na formação, os treinadores são avaliados pelos resultados que obtêm, o que promove um trabalho mais orientado para o resultado do que para o processo. Assim sendo, o treinador irá ser promovido pelo bom resultado alcançado na época passada com a equipa de formação e não pelo crescimento individual de cada atleta. Mais uma vez irei deixar uma futura proposta para este problema num futuro artigo. Em seguida coloco um artigo referente a este mesmo assunto (avaliação dos treinadores), escrito aqui no BomFutebol, intitulado: Resultado Desportivo e a Aquisição/Evolução de Competências dos Jovens Jogadores (https://bomfutebol.pt/resultado-desportivo-e-a-aquisicaoevolucao-de-competencias-dos-jovens-jogadores/)

Direções/Pais/Sociedade

Todos gostam de vencer, mas nem todos estão no momento certo para isso, podendo esse momento ser definido pela fase maturacional do atleta, pela qualidade técnica do mesmo, como por tantos outros fatores intrínsecos e extrínsecos. Vivemos numa sociedade onde os resultados finais (resultados desportivos; notas de testes e exames) são mais importantes que o processo realizado para os alcançar. Todos querem poder dizer que tem um clube campeão ou um filho campeão aos seus amigos. Será isso o mais importante? Vejo nos campos de futebol, atletas desmotivados e principalmente frustrados devido às pressões que sofrem nas mãos de treinadores, pais, diretores e outros adeptos, que em nada estão preocupados com o desenvolvimento do jovem, mas apenas estão preocupados em encher o seu ego.

Já tive a oportunidade de falar com jovens atletas onde perguntei o porquê da sua desmotivação. A resposta que obtive foi que é diferente jogar na escola/rua, onde se divertem e dão sempre o máximo independentemente do resultado, enquanto que no clube, o resultado parece ter uma importância maior. Neste caso específico, a equipa tem muitas dificuldades para obter resultados positivos no final dos jogos, sendo o trabalho do treinador virado para o processo (ou seja, as pressões não vêm da equipa técnica, então de onde virão?). Se analisarmos bem a situação a pressão vem doutro lado, que porventura teria que ser o lado onde deveriam receber maior apoio. Este tipo de comportamento de pais/público e em certos clubes da direção, promove a frustração daqueles atletas que têm mais dificuldade de obterem resultados positivos promovendo assim o abandono.

Claro que com tudo isto, existem treinadores que acabam por ceder às pressões externas e que realizam apenas trabalho de resultado.

Conclusão Final:

Estes são os fatores que na minha opinião mais influenciam negativamente a colocação da teoria em prática no futebol de formação. Existem muitos outros que poderíamos falar, mas acredito que se mudássemos um destes fatores, já se iria sentir uma diferença positiva significativa no desenvolvimento dos nossos jovens atletas. Acima de tudo é preciso perceber uma coisa: Não formamos apenas jogadores de futebol, mas também formamos pessoas e possíveis futuros atletas de outras modalidades. Para isso teremos que trabalhar de forma que promova ao máximo a prática desportiva, combatendo assim o sedentarismo que muito está entranhado na nossa sociedade.

Autoria: Filipe Campos

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