-- ------ DeFormação no Futebol - Bom Futebol
Bom Futebol

DeFormação no Futebol

Futebol

DeFormação no Futebol

A ausência de uma mundividência. (1)

É um argumento falacioso quando mal utilizado (muitas vezes para justificar o que não se faz), mas que não deixa de fazer sentido quando enquadrado numa estrutura de pensamento profundo e coerente:

“A grande maioria das crianças/jovens que praticam futebol de formação não chegarão a ser jogadores de alta competição.”

Assumindo que este pressuposto tem validade podemos levantar na sequência uma série de questões, sobretudo para colocar em causa o trabalho que realizamos, promovemos e vendemos como sendo precioso. O facto de conhecer que as probabilidades de chegar a patamares de rendimento superiores são reduzidas implica que se retire este sonho a quem procura o jogo? Sabendo que a maioria dos praticantes não conseguirá fazer vida profissional através do Futebol, que utilidade terá o tempo que despendem na sua prática? Que serviço (Futebol) vendemos às pessoas e quais as intencionalidades com que o fazemos?

A ausência de uma mundividência. (2)

Para poder falar em Educação, seja o meio utilizado o Desporto ou qualquer outro, convém ter o suporte de uma mundividência que nos sirva de guia para utilizar as ferramentas que temos à disposição no sentido de transformar o Homem na direcção mais adequada. Sem esta visão prospectiva acerca da Sociedade, tudo o que façamos com o Homem é deixado a um critério que dificilmente servirá da forma mais rentável possível o desenvolvimento global.

Logo aqui deixamos clara uma premissa fundamental para a actuação na formação: O Desporto/Futebol é um meio através do qual se procura transformar o Homem para a vida numa Sociedade vindoura, e não um fim em si mesmo.

Treinar tem como objectivo profundo e mediato este desígnio maior (o qual muitos desconhecem ou abordam superficialmente porque fica bem), e não o despejar de uma série de conteúdos ou o aplicar de uma panóplia de técnicas muitas vezes camuflado com o argumento da educação, da saúde, etc.

Poder jogar, ou compreender o jogo?

Na sequência do que tem sido discorrido, surge a necessidade de situar e interpretar correctamente o jogo como meio de formação do Homem. E neste ponto torna-se evidente que o interesse principal deixa de estar somente no saber ou poder jogá-lo, para se focar no que ele significa e que sentido faz num quadro mais abrangente.

Será deste modo que parece tornar-se útil a todos os que o procuram desde cedo, tanto os que acalentam o sonho de poder um dia vir a jogar a níveis de desempenho elevados, como também os que serão somente adeptos mais tarde (para que não vejam o jogo exclusivamente pelo filtro da táctica, da técnica ou da fisiologia e se tornem treinadores de bancada amputados da parte mais importante e bela desta área).

É a intencionalidade profunda do jogo, mas também a sua beleza enquanto uma parte representativa da vida, que pode torna-lo numa ferramenta realmente indispensável (por ser útil mas também motivante) aos nossos jovens e à nossa Sociedade. É através dele que se podem promover transformações no Homem, trabalhar competências fundamentais à vida na Sociedade, e não, de forma redutora, treinar exclusivamente como se passa ou remata uma bola, como nos movimentamos em campo, ou o quanto precisamos correr para cumprir determinadas acções.

A conversa fiada.

Todo este discurso pode parecer muito distante ou mesmo esotérico. Não passar de um conjunto de palavras e ideias engraçadas que ficam bem em qualquer ocasião solene, mas que depois não têm aplicação prática. É fulcral que se saiba distinguir o que representa conversa fiada, de um conjunto de argumentos sólidos para justificar uma determinada intervenção.

Para que tudo possa ter mais substância do que uma simples alucinação retórica, é imperial saber como operacionalizar. Aí reside a grande diferença! Passar do discurso ao percurso nos diferentes níveis de intervenção, desde a organização ao jogo e treino propriamente ditos.

Cai muito bem falarmos na formação do Homem, nos Valores, na qualidade de jogo, etc… Mas se depois se continuar com a mesma prática, que resultados esperamos obter?

Não podemos utilizar as ferramentas antigas e esperar um jogo novo!

A operacionalização de uma visão global do Homem que coopera rumo à transcendência (a Motricidade Humana) numa Sociedade desenvolvida exige uma interpretação funcional do Desporto (uma Sistemática das Actividades Desportivas) que traga associadas ferramentas (de diagnóstico e de prescrição) para intervir de forma profunda e coerente.

NOTA:

A rotura. Estratégia de operacionalização: a sistemática das actividades desportivas num quadro de complexidade – um ponto da situação. Fernando Almada et al (2008).

-Um Corte Epistemológico – Da educação física à motricidade humana. Manuel Sérgio (1999).

As mesmas sugestões de leitura da semana anterior, que servem de base ao que foi exposto.

A este respeito, curiosas as declaração de Silas, treinador do C.F. Belenenses, no final do jogo com o G.D. Chaves. Estamos a formar em que sentido? Sabemos? É um indicador de que o problema formativo se sente, logo existe.

Deixe o seu comentário

bomfutebol