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O Desporto jamais será isto

“O Desporto jamais será isto”

Nesta semana, onde tudo se coloca em questão e se sente alguma perda da identidade e pertença à verdadeira concepção da palavra Desporto, torna-se essencial relembrar os seus valores e tudo o que esta atividade acrescenta para a sociedade. Basta para isso, fazermos uma viagem no  tempo e pensarmos em tudo o que o desporto já nos acrescentou e tudo o que ainda terá para acrescentar.

Pensei bastante antes de abordar o tema que está na ordem do dia, em tudo o que é vias informativas – do tradicional ao digital – hesitei, é um facto, mas concluí que sendo profissional na área do desporto e optar pelo silêncio não seria em nada positivo, pois num momento como este é salientado sempre um lado mais cinzento daquilo que é o futebol, cabendo a nós agentes estarmos cientes do impacto do momento, mas sem nunca esquecermos dos verdadeiros valores que integram esta área de atividade.

Nestes momentos esquecem-se os valores, a identidade e a pertença a uma das áreas que maior influência tem no processo de formação da criança e do adolescente, bem como o impacto positivo que traz para toda a sociedade portuguesa, onde o nome do nosso país é destacado como sendo de referência a formar e desenvolver atletas e treinadores.

Hoje tiro o meu papel de técnico em Psicologia do Desporto, largo as metodologias e a abordagem normal que costumo ter ao jogo. Ponho o cachecol de adepto ao peito e vou deixar fluir a emoção. A mesma emoção e estupefação que me provocaram todos estes acontecimentos, mas neste caso, de forma positiva. Aquela forma que me faz amar tanto a minha profissão, onde com todo o orgulho junto a paixão e a razão.

Fazendo o “flashback”, recuo no tempo e vou até à infância. O que era o futebol para mim naquele tempo? Bem vamos por pontos:

  • O futebol era família. Lembro-me de ir ao estádio com a minha família, de almoçarmos uma merenda com milhares de adeptos á volta e de me sentir feliz por ver, nas cavalitas do meu avô e do meu pai, o jogo. Os meus ídolos;
  • Nervosismo e ansiedade: Dormir no dia anterior a ir ao estádio ? Esqueçam. Já só visualizava o que ia acontecer no dia de jogo. Já só queria estar na bancada;
  • Modelagem: Via no estádio e na televisão as ações dos jogadores e tentava fazer na escola. Tentava, pois a minha “arte” sempre foi mais o cérebro do que a coordenação motora. Valiam os festejos dos golos. Como era bom imitar os festejos dos craques;
  • Paixão: Sim, nessa altura já via o futebol como uma paixão. A coleção de cromos completa, os intervalos na escola a partilhar a bola com os amigos e o olhar sobre a televisão em todos os jogos talvez já quisessem dizer alguma coisa.

Com a adolescência veio a oportunidade de experienciar os desportos coletivos. O que retirei desses momentos vividos vai muito para além do desporto. Foi através dessa partilha social que adquiri competências que viriam a ser fundamentais no meu trajeto:

  • Valores: Respeito pelos colegas, treinadores e demais agentes. Interdependência de papéis dentro e fora do campo, definir metas e lutar por elas coletivamente. Talvez o momento em que percebi que coletivamente, caso tivéssemos coesos na tarefa e socialmente estaríamos sempre mais próximo do sucesso. Ainda hoje trago todos esses valores comigo;
  • Compromisso com uma causa (se me comprometi com o clube, tenho de levar o trajeto até ao fim);
  • Sentir o clube e a equipa em que estou inserido. Ter a percepção que faço parte dos principios sociais e de tarefa do grupo;
  • Ser organizado para conciliar a escola e o treino;
  • Ser um respeitador de horários.

Paralelamente a todo este trajeto desportivo, sempre mantive o sonho de trabalhar no desporto. E já que sabia que não seria dentro das quatro linhas, comecei a orientar o meu trajeto académico nesse sentido. Surgiu então a Psicologia do Desporto na minha vida e a carreira na prática desportiva como profissional nessa área. Quase sempre ligada á modalidade de Hóquei em Patins.

Tantas histórias e experiências vividas até hoje e tantas outras que ainda faltam viver.

Posso concluir que fazer parte do desporto é um modo de vida, é um pensamento constante no treino, no jogo, na preparação e na avaliação.

Também o lado do adepto ainda continua a existir em mim. Por vezes, ainda recuo e vivo aqueles momentos de infância ao usufruir quando vou para um estádio 2 horas antes do jogo só para o sentir. Para sentir o que é o verdadeiro desporto, que são as pessoas, as amizades, a confraternização, as lágrimas e os sorrisos. Como profissional é o treino, o jogo, a preparação, a avaliação, os estágios e as histórias.

No fundo, o futebol bem como outras modalidades têm sempre de ser vistos como um veículo de construção de valores e competências sociais e individuais. Como um veiculo para o espetáculo e entretenimento e como um exemplo de superação e resiliência para a sociedade atual.

Apagar e não refletir o que se passou? Nada disso! É um acontecimento impensável, em que, como profissional do desporto demorei o dia todo a digerir!

Há que analisar o que pode conduzir a este tipo de clima onde a violência, o ódio e o extremismo ideológico e comportamental imperam. Analisar as lideranças e a forma como muitos aceitam ser liderados, os estilos de comunicação adoptados e a formação dos dirigentes. Tudo isto vai muito para além do futebol e do desporto em geral. Tem a ver com a sociedade, com os seus valores e com a forma como as demais instituições que a englobam são geridas.

No entanto, uma coisa teremos de ter sempre bem presente: “O desporto não é nem pode ser isto!”

Até breve.

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