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Entre o pormenor e a sorte

Entre o Pormenor e a Sorte

Entre o pormenor e a sorte

Um jogo com as características do futebol, com um perfil onde podemos enquadrar a teoria da complexidade ou mesmo dos sistemas dinâmicos, e perceber claramente uma abertura a influências contextuais, tentar anular ou não admitir a existência do factor sorte é desprezar grandemente uma das principais características dos jogos humanos.

Independentemente de como queiramos definir o termo sorte, se somente como um favorecimento contextual inadvertido e ocasional, se um aproveitamento de condições específicas que se trabalham para poder forçar e explorar, julgo descabido não incluir esta variável nas análises que vamos fazendo ao jogo, sobretudo por muitas vezes corrermos o risco de avaliar precipitadamente uma situação e construir uma interpretação errada que leva, necessariamente, a decisões erradas.

Avaliar um jogador, um treinador, uma equipa, a partir única e exclusivamente de um lance fortuito ou em que a sorte teve influência, e que eventualmente decide um jogo importante/decisivo, é demasiado redutor…

Onde procuramos a sorte?

Não é raro ouvir-se dizer que a sorte se procura, ou se trabalha… Ou recorrer até à famosa expressão de que a sorte protege os audazes. Mas o que significa isto, no futebol?

Tendo o jogo as características que tem, como e onde procurar esta sorte? É possível controlar totalmente este factor? Para a segunda questão, por definição, temos de afirmar que não… Não vamos controlar totalmente todos os eventos do acaso que possam acontecer (quem não se lembra do jogo da Premier League, não há muitos anos atrás, em que um remate é desviado por um balão e segue na direcção da baliza, acabando por ser golo?)! No entanto, parece-nos admissível afirmar que trabalhando afincadamente ao nível do pormenor, estamos a criar condições para ficar menos sujeitos a eventos inesperados, ou a que, a existirem, possam haver maiores probabilidades de nos favorecerem a nós.

É no trabalho sistematizado, prolongado e aprofundado que estamos mais próximos de conseguir transcender os limites existentes, e por esta via que conseguimos calibrar aspectos cada vez mais pormenorizados, dominando, pelo menos até certo ponto, aquilo a que muitos apelidam de sorte.

Não é algo que se consiga por decreto, exige anos de dedicação, e de trabalho consciente… Provavelmente tantos quanto um velocista necessita para tirar uma centésima ao seu melhor tempo (às vezes uma carreira inteira!)… Mas muitas vezes basta o vento não estar a favor, o estado emocional não auxiliar, não ter dormido bem na noite anterior, ou algo do género, para não se conseguir.

Haverá sempre uma parte que conseguimos dominar, e uma grande parte por conquistar… É assim o jogo!

O pormenor no futebol.

Treinar com intuito de ir chegando cada vez mais fundo nos problemas e suas soluções, é um processo de uma exigência extrema… Envolve muita repetição em consciência, muita avaliação e auto-avaliação, um aprofundar constante do conhecimento de si mesmo, do outro e do jogo.

Anterior a isto, estão as condições que o possibilitam: as competências emocionais e a personalidade. São inúmeros os casos conhecidos de desportistas de elite, a quem a “sorte” parece ter protegido mais vezes do que aquelas em que prejudicou, que nos podem servir de exemplo. Um Kobe Bryant que acordava às 5h da manhã para ir para o pavilhão treinar sozinho, ou que ficava a treinar 200 lançamentos depois de um jogo menos conseguido… Um Cristiano Ronaldo que fazia treinos extraordinários às escondidas…

Estas são evidências individuais importantes, que retratam até que ponto o domínio do pormenor pode ser mascarado como sendo sorte. Mas teremos níveis mais amplos de análise… O que será La Masia senão a evidência colectiva do mesmo objectivo? O que serão as academias de formação dos clubes, na generalidade?

A sorte é indissociável do jogo, mas é indispensável ter ferramentas para poder diferenciar a sorte do trabalho.

NOTA:

Se fosse possível definir, que percentagem de sorte seria necessária a uma equipa de futebol para ser vencedora no seu campeonato? Do zero ao cem, com toda a certeza julgo que só se evitariam duas respostas: o zero, e o cem.

Quanto mais conhecemos de nós e do mundo, mais sabemos desconhecer! A tentativa de anular o acaso prega-nos constantemente partidas. Aceitemos a sorte, mas não nos deixemos vencer por ela.

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