-- ------ Entrevista a Beatriz Fernandes - Sou jogadora! - Raparigas da Bola
Bom Futebol

Entrevista a Beatriz Fernandes – Sou jogadora! – Raparigas da Bola

Entrevista a Beatriz Fernandes – Sou jogadora! – Raparigas da Bola

A estudar e jogar nos Estados Unidos, na University of North Alabama, Beatriz foi recentemente galardoada com um prémio pelo seu bom desempenho enquanto aluna e atleta. A ex – jogadora do 1º de Dezembro fala-nos desta sua nova realidade.

Conta-nos como surgiu a oportunidade de ires para o E. U. A.  estudar e jogar?

Primeiro que tudo, fazendo os dois. Parece óbvio, eu sei, mas não há meios-bilhetes com estas oportunidades e felizmente gosto de fazer as duas coisas: estudar e jogar. E quero acreditar que esse gosto foi o que trouxe esta oportunidade. Sou curiosa. Sempre quis explorar o mundo, aprender línguas, conhecer novas culturas. Quando era mais nova os meus pais não gostaram da ideia de ir para o um clube jogar com rapazes então tinha que “jogar” em casa sozinha. Na mesma medida que partia coisas a rematar contra armários e mobílias, lia gramáticas portuguesas e estrangeiras e até atlas por gosto. Acabei por ganhar um gosto por conhecer o que está lá fora.

Sei que a pergunta é outra, mas a resposta é simples: eu sempre quis jogar e educar-me. Isso atraiu muito boa gente a meu redor, por exemplo o professor Nuno Cristóvão, que tinha contactos que tinham contactos e que tinham contactos. É uma teia. Perguntei como poderia ir jogar para fora e ser esse o meu passaporte para fazer tudo o que queria fazer (futebol e explorar) e a resposta foi muito simples: estudar nosEUA. É inacreditável o investimento deles nas Universidades e no Desporto. Não podemos comparar com Portugal, eles simplesmente têm mais dinheiro, mas é de aplaudir a forma como os programas relacionados com a educação estão organizados. Uma bolsa de estudo atlética acaba por não ser assim tão difícil de encontrar, só de a agarrar. Como comecei, acabo: para a alcançar tive que ser boa nos dois campos.

Recentemente foste “nomeada” uma das melhores alunas da tua escola. Podemos dizer que a adaptação foi boa? O que custou mais?

Não foi da minha escola, foi dos Estados Unidos. Trocando por miúdos, o prémio honra os atletas que não só honraram o jogo em campo, mas também na sala de aula. No meu escalão, fomos 30 a nível Nacional. Honrei a oportunidade. Às vezes estudar para um exame no dia seguinte num aeroporto, ou no lobby de um Hotel, vinda de Miami ou de outros estados, usando equipamentos da Adidas e comendo em restaurantes… nunca me pareceu sacrifício nenhum. E ter treinos às 6h da manhã, em que as bolas nem vão para o campo (só corremos sprints) indo para as aulas às 8h e voltando para o ginásio às 16h, também rapidamente se tornou “justo”. Fiz o que tinha de fazer para poder fazer o que gosto de fazer.

É outra realidade.

Como é o teu dia a dia? Descreve-nos um dia normal da tua vida.

Vou começar por falar na regra de: se não temos boas notas, não podemos jogar ou treinar durante x tempo.

Depende se estou em época (Agosto-Dezembro) ou fora de época (Janeiro-Maio). Tecnicamente começamos a pré-época em Maio. Dão-nos um guia com o que fazer no ginásio e que tipo de exercícios de corrida e sprints querem que façamos durante o Verão e em Agosto, começamos uma semana antes de começarem as aulas e jogos, com treinos Bi-diários (em campo, sem ginásio). As últimas duas épocas, voámos até Miami para fazer jogos amigáveis antes de começarmos o resto da temporada. Isto tudo em aulas. Por norma, jogamos 2x por semana e se tivermos que faltar a aulas em jogos fora, não há qualquer problema; os professores são quase os melhores adeptos de qualquer atleta da faculdade e facilitam as coisas para podermos fazer tudo bem e ao mesmo tempo.

Fora de época (sem jogos de Janeiro a Maio, a não ser amigáveis) vai variando, mas uma constante de treinos de fitness (sprints e corrida) às 6h30 da manhã, logo de seguida, aulas e treinos com bola no campo ou ginásio à tarde. Normalmente temos os fins-de-semana sem treinos, mas acabam por ser para estudar, tarefas domésticas e descansar da semana caótica, em que tenho também trabalhos: arbitro e dou aulas de português na Faculdade.

A realidade do futebol feminino nos estados unidos é diferente da nossa. Qual a maior diferença?

Em campo: Futebol directo. Daí o tipo de treino fazer muito sentido aqui, mas para Portugal, em que o Futebol técnico é mais comum, talvez não tanto. Aqui é muito físico, muito rápido, muito explosivo. O relógio não pára, há substituições ilimitadas. Os meus treinadores são ingleses e, por isso, acabo por ter o melhor dos dois mundos. Investem, naturalmente, no conhecimento táctico, mas ao mesmo tempo joga-se muito vertical. Em Portugal somos muito cautelosas, ou pelo menos assim se era quando saí, e raramente se rematava sem ter 90% de certezas que podia dar alguma coisa, se bem que nova geração  de jogadoras está mais atrevida, o que é bom para o jogo e evolução do mesmo.

Fora de campo: as condições e oportunidades. Há mais oportunidades e isso leva a mais interesse, mais investimento, mais qualidade de ofertas também – falo de tudo, condições de campos, equipamentos, estágios. Comparando com algo táctil para nós é como estar todos os dias na Selecção e ao mesmo tempo estar na Faculdade.

Em Portugal jogaste sempre na já extinta equipa do 1º de Dezembro. Agora com a nova Liga Allianz imaginaste a voltar e jogar cá?

Sou apaixonada pelo meu país, sempre fui e sempre serei. Levo a minha bandeirinha e o meu cachecol, que saltou comigo no Terreiro do Paço a celebrar o campeonato Europeu, para todo o lado… isto para dizer que: sim, claro.

Considero-me parte dessa mudança que não foi o ano passado ou há dois anos que começou. Já é antiga e espero que continue a ir para frente, que não estagne. Se puder, para sempre, fazer parte dessa evolução, de uma forma ou outra, ficarei Feliz. Eu e a Margarida vemos alguns jogos femininos online, quando os transmitem na televisão, e mal imaginam ao que isso sabe…

Do que mais sentes saudades? Família e amigos é óbvio…mas fora isso…

Ui. Tem tempo? Cheiros, cores, sabores, sons portugueses… por mais que traga sempre a mala cheia de café, vinho e comida e o que mais caiba, há coisas que não cabem. Nem no ecrã do Skype. Felizmente a minha família tenta sempre fazer-me sentir em Portugal e entre muitas outras coisas estão constantemente a enviar-me vídeos e fotografias de pastéis de nata, ondas do mar, peixe grelhado, Fado ou até algo mundano do dia, como uma fotografia de um corte de cabelo. Sintra a um Domingo de manhã…

Resumindo, diria que fora o óbvio (que se valorizava, agora ainda mais), sinto falta de momentos. Uma esplanada à beira mar, uma feirinha de Santos Populares ou até o simples cheiro de Lisboa. É real, não é só música!

O que, para ti, significa jogar em equipa?

“As I am, so you are. As you are, so am I.” Defino assim. Em campo, sou tão boa/má como qualquer outra pessoa na minha equipa, a lutar pelo mesmo. Eu, em campo, tenho a Dor do pé torcido da #6, a Incerteza da #9 e o Ego da #20. Com isto quero dizer que jogar em equipa é saber que todas queremos muitos, que todas vamos dar tudo e que todas, quando a bola nos escapar ou quando marcarmos o melhor golo da nossa vida, vamos estar lá. É acreditar que confiam em mim, tal como eu confiarei.

Quais os teus ídolos?

Acho que não tenho ídolos, mas admiro muito trabalhadores e lutadores. Acho só que o que quer que seja feito em campo é fruto de muito muito trabalho em “backstage”. Idolatro trabalho e o querer de ser melhor, seja em campo seja na vida! Idolatro quem o faz e sabe fazer todos à volta quererem ser melhores também. Faz sentido?

Como vês o futebol feminino em Portugal daqui a 10 anos?

Não consigo prever, não tenho informação suficiente para poder prever isso, mas óbvio que gostava de ver Portugal nos pícaros da Europa e até poder ver um jogo com o “pessoal daqui”, num Mundial contra os EUA. Demore 10 anos ou o que demorar, sei que qualidade não falta!

Até onde pretendes chegar no mundo do futebol?

Lembro-me de estar na Selecção Sub-19 e me perguntarem qual era a minha posição na equipa, não no campo, mas na equipa… na altura respondi algo que cunhei na memória: “Ser útil.” . Digo que o Futebol não é a minha paixão, que o Futebol não é a minha vida; o Futebol é Futebol. O meu maior e melhor mentor de vida. Acho que Futebol é uma questão de níveis na minha vida, e que eu tenho vindo a actualizar constantemente, à passagem de um nível para o outro. Um desporto não pode ser a razão pela qual faço coisas, sou apaixonada pela vida e acredito que Futebol é a melhor forma de a viver, para mim até agora foi. Seja a jogar, a treinar ou a educar através do Futebol, tenho a certeza que vai estar sempre presente.

Não sei onde vou chegar no Futebol, mas sei que onde quer que chegue o gostava que o Futebol fosse sempre (n)o barco que me leva.

Se hipoteticamente pudesses voltar atrás, terias escolhido jogar futebol de novo? Porquê?

Acredito piamente que não fui eu que escolhi o Futebol, foi ele que me escolheu a mim. Tinha jeito para muita coisa, mas não foi uma escolha. É pessoal e intransmissível esta necessidade de jogar. Não sou só Futebol, mas sou só sem Futebol.

Uma frase que incentive outras raparigas á prática do futebol…

Joguem! Eu espalmava latas, quando não tínhamos bolas, e jogava em alcatrão porque não havia nem campos, nem equipas, nem condições, nem apoios. Vão jogar! Simplesmente vão! Em pequena sempre me disseram que o Futebol não era para meninas e hoje, se calhar até lhes dou razão: o Futebol é para Mulheres!

Autoria: Raparigas da Bola

Deixe o seu comentário

bomfutebol
Cópia não permitida! Conteúdo protegido por direitos de autor.