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Entrevista Exclusiva a Diogo Nobre

Entrevista Exclusiva a Diogo Nobre

Diogo Nobre é um jovem treinador que deixou Portugal para fazer história na Terra do Gelo, onde conquistou 4 promoções consecutivas no Peimari da Finlândia. Leia o que nos disse depois de finalizada a experiência!

Diogo Nobre no escritório a dar uma entrevista a imprensa local

Quem é Diogo Nobre? Quando decidiu fazer carreira no futebol? Como se define enquanto treinador?

Diogo Nobre é um individuo que, durante o período como jogador jovem, sempre pensou que os treinadores que teve não eram do melhor a nível de metodologia de treino e, quando teve oportunidade de ir estudar para a faculdade de desporto, desistiu de vez de jogar, porque pensou que poderia fazer a diferença no treino e realmente ajudar jovens a alcançarem o seu sonho.

Entretanto comecei a ter sucesso nas camadas jovens e esse pensamento evoluiu para: eu tenho qualidade para fazer disto uma profissão paga, e decidi então apostar tudo e meter todo o meu tempo disponível para me desenvolver o melhor possível durante 3 anos… Depois disso veio o contrato na Finlândia, o meu primeiro profissional. Hoje em dia, como me defino como treinador:

Sou um workaholic, pressiono toda a gente à minha volta para se desenvolver o máximo possível, dentro e fora de campo. Imponho os valores antigos de compromisso e honra, mas ao mesmo tempo tento trazer uma metodologia de treino moderna e com qualidade, baseada num modelo de jogo que não corte as pernas a ninguém e inspira criatividade, porque sem ela não há futebol. No processo defensivo dou menos liberdade e imponho-me mais, porque penso que é onde posso realmente fazer a diferença, mas se os jogadores tiverem intensidade de jogo e inteligência táctica é muito fácil trabalhar comigo.

Como descreve o início da sua carreira de treinador?

Foi um acidente. Fiz 19 anos, ia começar a minha carreira sénior, fiz a pré-época no Seixal, no dia antes das inscrições fecharem disseram-me que não tinham dinheiro para ficar comigo (e a verdade é que faliram 1 mês depois).
Fiquei destroçado, porque não tinha tempo para arranjar outro clube, mas o meu irmão ligou-me, um dia, a dizer que um amigo dele ia assumir o comando dos Juvenis do Almada Atlético Clube e precisava de alguém para o ajudar e foi assim que me tornei treinador adjunto em 2005.

Disse-me que estudou Desporto, qual o papel da faculdade na sua formação enquanto treinador?

Acho que do ponto de vista táctico e de liderança de um grupo de homens, ensinou-me muito pouco. Na ESDRM, dão mais ênfase ao treino de jovens e têm muita qualidade nisso, mas eu sabia que isso não ia ser o meu futuro.
Mas o que é bom na faculdade é que os professores puxam intelectualmente por ti, abrem-te os horizontes e ensinam-te a ser organizado e metodológico.
Depois é contigo, se queres ficar por ali, ou inspirares-te a procurar o teu próprio conhecimento, inventar algo novo, ir mais além e discutir tudo isso com o teu grupo de colegas, que são também jovens e ambiciosos. Alguns deles também ex-jogadores. Nesse sentido, é um sitio que mais do que ensinar, dá-te inspiração para ires buscar outras coisas, tal como eu.

Podemos defini-lo como emigrante. Porque escolheu a Finlândia para começar carreira e crescer como treinador principal, num projeto novo?

Eu não escolhi a Finlândia. Eles é que me escolheram a mim!
Fizeram uma proposta, mostraram-me o projecto e eu percebi que daria muito trabalho, mas que poderia fazer o clube crescer e ao mesmo tempo fazer-me crescer também.
Era uma aposta de extremo risco, fazer um clube do zero, com jogadores locais, mas quando temos um sonho temos de ir atrás dele e essa foi a minha oportunidade e eu agarrei-a.

Diogo Nobre esteve 5 anos ao comando do Peimari United

Como foi a adaptação ao novo país? Como descreve o futebol prática por lá?

O primeiro ano foi muito difícil. As pessoas são muito diferentes, tive de ganhar a confiança deles e adaptar várias coisas. Os jogadores não são tão maus tecnicamente, mas não têm cultura táctica nenhuma, não vêm jogos na TV e não sonham em ser “jogadores da bola” toda a infância e isso muda tudo. 
Desde o processo de treino, à evolução do jogador e clube. Mas com muito esforço, dedicação e adaptabilidade, consegui ganhar o carinho deles e criar uma paixão por futebol num sitio onde não havia muita.

Finlândia, a Terra do Gelo

Como descreve o investimento finlandês no futebol?

A primeira liga deles está ao nível da nossa 2ª liga. Na parte económica, eles até dão condições razoáveis e, como não se metem em loucuras, os clubes não devem 1 euro a ninguém. A pior parte é a falta da paixão pelo futebol, da ambição, do viver futebol, isso tudo não há e não me parece que vá haver.

Bela casa no estádio do Peimari United

4 promoções consecutivas, qual a chave do sucesso e como as descreve?

Uma constante adaptabilidade aos novos contextos ano após ano. Uma procura incessante de sucesso mesmo depois de o clube já ter subido várias vezes, isto com um orçamento e matéria humana muito reduzida, a termos de usar várias vezes a criatividade para resolver problemas.

Diogo Nobre a alongar durante um treino

Qual a que mais o cativou?

A promoção? A mais dificil foi claramente da 4ª para a 3ª divisão. A geração de jogadores nascida em 95, que era o core da equipa (incluindo o capitão Samuli) foi obrigada a ir nesse ano para o serviço militar obrigatório e perderam metade da época.
No fim da primeira volta estávamos 7 pontos atrás do primeiro classificado e com um jogo a mais!
Tivemos que inventar e reinventar, jogar com juniores, etc… Mas a meio da época acabou o serviço, e fizemos uma 2ª volta arrasadora, onde ganhamos 10 jogos seguidos acabando no último jogo por ganhar também a taça regional e fazer dobradinha!

Conquista da Taça Regional em 2014

Recebeu algumas propostas durante a sua estadia na Finlândia? Porque preferiu essa estabilidade? Identificava-se com o projeto?

Concretas, recebi para adjunto na 1ª liga, de um clube de topo e de outro mais fraco. Mas não queria ser adjunto, depois de tudo o que fiz no pais, e rejeitei. Até porque tinha muita estabilidade no Peimari United, as pessoas adoravam-me.
Também fui falado para principal de outro clube da 1ª liga, em caso de descida, mas renovaram com o treinador. Fui esperando e esperando, até perceber que é difícil os estrangeiros terem realmente boas oportunidades na Finlândia, seja em que área de trabalho for. É uma cultura complicada para emigrantes, então decidi que era altura de mudar de ares.
O Peimari não poderia subir mais, e eu tenho 31 anos, um bom CV e quero realmente “explodir” como treinador para um patamar melhor e com mais visibilidade no contexto do futebol europeu.

Relate a sua experiência na seleção finlandesa.

Durante o Curso UEFA A, que tirei na Finlândia, porque não tinha disponibilidade para vir a Portugal, uma das actividades práticas foi ajudar os treinadores da selecção sub-19 a seleccionar jogadores das “repescagens” e treina-los, cada um com a sua metodologia. Tivemos assim 1 semana. no primeiro dia os miúdos estranharam os meus métodos, porque eram muito diferentes de todos os outros treinadores finlandeses, mas, no final da semana, toda a gente considerou o meu processo de treino o melhor de todos e foi dai que o meu tutor, Tommi Kautonen, na altura seleccionador nacional sub-21, que gostou tanto do meu trabalho, me quis recomendar como adjunto a um clube grande da 1ª liga que estava a precisar. Infelizmente, declinei a proposta na altura por querer fazer a minha própria carreira como principal.

Qual o papel da comissão técnica e como descreve a sua rotina de trabalho?

Tinhamos de fazer tudo. Desde a treino sénior, no campo e fora de campo, coordenação de academia e treino de camadas jovens, formação de técnicos, marketing, cooperações com escolas locais, empresas e instituições, palestras de nutrição a pais…
Era muito fatigante, mas trouxe-nos um carinho muito especial da população.
De manhã tinha treinos individuais com os poucos jogadores que eram profissionais, e/ou reuniões de planeamento. Depois almoçávamos e tinha os treinos da equipa sénior e todos os juniores de tarde.
Na Finlândia joga-se a qualquer dia da semana em qualquer escalão, portanto, também tínhamos muitos jogos do campeonato durante semana e fim de semana.

Momento de trabalho

Era uma vida quase sem relaxar, e sem tempo para nós. Na escola, um dos meus adjuntos, dava uma aula de futebol por semana, mas, em alturas especiais, fazíamos demonstrações e treinos para todas as turmas durante uma semana inteira, organizávamos torneios e tal, para tentar despertar o gosto pela modalidade e tivemos vários resultados:
Os alunos nos recreios da escola da Sauvo e das de Paimio, achavam que jogar à bola era aborrecido, mas depois de grande esforço e construção de 2 campos de futebol 3×3, hoje em dia, todos os intervalos jogam futebol, rapazes e raparigas.

Qual o princípio de jogo que mais preparas? Porque? Descreve um pouco do teu morfociclo.

Eu acho que onde posso fazer mais a diferença é, claramente, no processo defensivo e na transição defensiva. Pois, para falar verdade, hoje em dia, os jogadores começam a jogar futebol com 5 anos e qualquer um que chegue a sénior tem qualidade técnica/táctica razoável, sabe o que fazer com bola e o que é difícil de incutir nesses jovens, é: o que fazer sem bola.
Gosto que as minhas equipas estejam sempre equilibradas e preparadas para perder a bola, porque vai, eventualmente, acontecer e, quando acontecer, quero estar preparado para reagir com tudo e que a equipa tenha uma ideia colectiva de onde fechar espaços e como fechar, para onde conduzir o adversário com bola, de maneira a perde-la, se não consigo rapidamente porque eles têm muita qualidade, então, o que fazer para reposicionar e estabelecer prioridades no que são espaços vitais ou não. É nisso que quero fazer realmente a grande diferença, porque gosto de ter equipas dominadoras e agressivas. O morfociclo depende do contexto e do calendário competitivo, portanto, prefiro não estar a especular.

Final da taça regional em Turku 2014. Nunca nenhum clube da 4ª divisão tinha ganho.

Existe um Diogo Nobre diferente antes e depois do projeto no Peimari?

Claro, com mais facilidade de se adaptar a qualquer contexto, com mais maturidade, com capacidade para perceber diferentes culturas, com muito mais cultura táctica porque, como trabalhei com jogadores mais fracos, nesse ponto de vista tive de puxar muito por eles e também por mim próprio para resolver problemas. Mas, no fundo, continuo com a mesma intensidade de sempre, que é o que me define como pessoa.

Finalizado o projeto no Peimari foste até a Escócia para estagiar no Rangers. De que forma essa experiência te enriqueceu ?

É sempre bom ver como os treinadores trabalham ao mais alto nível e, nesse sentido, foi uma experiência fantástica.

Conclui que a metodologia de treino pode ser fantástica, mas que o que faz realmente diferença na alta competição é o recrutamento e a liderança do grupo.

Ao lado de Pedro Caixinha durante o estágio no Rangers

Com a entrevista prestes a terminar, questiono-te neste momento estás sem clube. O telemóvel tem tocado muitas vezes? Qual o teu projeto para o futuro? Um regresso a Portugal está nas resoluções do teu 2018?

Não, o telefone não tem tocado muito, talvez por eu ainda não me ter empenhado em realmente procurar um clube.
Tive muitos anos sem realmente ter umas boas férias e estava precisar. Mas, agora que passou a altura das festas, gostava realmente de voltar a treinar o mais rapidamente possível e estou obviamente disponível para voltar a Portugal, caso o projecto seja bom.
Espero que, com o que fiz além fronteiras, alguém dê o devido valor e me contacte. Fiz a mudança definitiva para a minha casa em Corroios esta semana, portanto fico agora a aguardar propostas de clubes portugueses.

E o Reino Unido?

O Reino Unido é uma forte possibilidade. Sei que estou a ser falado para um clube da League 2, mas tudo depende da continuidade do treinador deles.
Inglaterra seria um sonho mas, Portugal, é um pais fantástico, com um potencial enorme no futebol. Pois, se o projecto for bom, para mim é igual.
Seja como for, quero escolher muito bem o destino, porque sou um treinador de “projecto” e não pretendo ficar menos de 3 anos no meu próximo clube.
Na minha vida pessoal também quero casar, ter estabilidade e fazer crescer uma localidade inteira e deixar a minha marca pessoal na sociedade, como fiz em Sauvo, na Finlandia. Se houver um clube que me proporcione isso, eu vou certamente aceitar e dar tudo para fazer o clube crescer.

Para descontrair o leitor. Conte-nos a sua história mais caricata enquanto treinador

Tenho tantas que não é fácil encontrar uma:

Tinha um rapaz, lateral esquerdo no Peimari, que não era profissional e como principal ocupação trabalhava na agro-pecuária.

Um dia, ia trabalhar a linha defensiva junta, a encurtar espaços, subir e descer de acordo com posição da bola e adversários chave, etc. Ele ia ser titular, portanto, tinha mesmo de treinar aquilo ou saia tudo mal no jogo, porque não estavam coordenados.

Eram horas do treino e ele ainda não tinha chegado ao balneário. Começamos o aquecimento sem ele e eu passei-me da cabeça, fui ao balneário buscar o telemóvel e liguei-lhe a ver onde estava; e ele disse-me, muito aflito, que uma vaca tinha fugido do estábulo quando já estava a fechar tudo para se ir embora e andava agora a correr no meio da floresta para a trazer de volta antes que anoitece-se, senão nunca mais conseguia encontrá-la.

Eventualmente troquei a parte táctica, para a última parte do treino e ele ainda conseguiu chegar a tempo de entrar no processo e deu tudo o que tinha.

Mas seja como for, ele era muito sólido defensivamente e um rapaz fantástico, super trabalhador. Foi por isso que mesmo assim esperei por ele e foi titular, se fosse outro qualquer, eu pensava que estava a gozar comigo.

Diogo Nobre durante um treino

O que é para si/ti bom futebol?

Bom futebol sénior é ganhar, se houver mais golos melhor, simples.
Há aquelas discussões que bom futebol é ter mais posse, outros que apostam noutras coisas. Sinceramente, eu não tenho uma preferência de estilo, mas na minha opinião futebol de competição bom é quando se ganha com frequência e de preferência com muitos golos…
Porquê?
Porque se uma equipa realmente ganha tantos jogos durante tanto tempo e inspira fãs, é porque pratica um “Bom” Futebol. Ninguém ganha se praticar um “mau” futebol certo? É essa a minha filosofia, se o Guardiola está a ganhar mais jogos que o Mourinho, é porque está a praticar um futebol melhor com jogadores criativos e técnicos, mas já houve outras alturas em que equipas do Mourinho eram mais inspiradoras ao nível de espírito de equipa/sacrifício e organização táctica, como absorviam totalmente os adversários sufocando-os. Portanto, como treinador profissional, gosto de equipas dominadoras, que ganhem e inspirem durante um certo período de tempo, independentemente do estilo que pratiquem.

Expulsão no jogo diante do Tampere

Perguntas de resposta rápida:

Qual o teu melhor momento desportivo?

Masku 1-3 Peimari United – Penúltimo jogo da época 2016, quando fomos campeões da 3a divisão Finlandesa, fazendo a 4a subida consecutiva e História Nacional, pois nunca nenhum clube o tinha feito. O momento foi fantástico, invasão de campo dos adeptos….

Ídolo ou treinador referência?

José Mourinho e Leonardo Jardim.

Jogador que mais gostaste de trabalhar ?

Em Portugal talvez tenha sido o Paulo Catarino, que é uma “lenda viva” e junto dele está sempre tudo bem disposto e a rir, com 1001 historias para contar. Mas no geral, Samuli Vihervirta, o meu capitão no Peimari, um jovem que conheci ainda com 16 anos quando não tinha grande motivação nem nos estudos nem no futebol, mas que em 6 épocas se tornou um Homem com grandes valores e princípios, e o melhor estudante/jogador que conseguiu.

Qual a tática que mais gostas?

4-1-3-2, mas é muito difícil de por em prática de forma compacta e com qualidade na frente, porque precisamos de jogadores com características muito especiais e, por isso, tenho jogado vários anos em 4-2-3-1, como nesta última época, porque é um sistema mais fácil de aprender e executar.

Melhor treinador da atualidade ?

José Mourinho e Pep Guardiola

Clube de sonho?

Clube de Sonho, qualquer um grande em Inglaterra

Golo mais marcante?

O mais marcante foi o do meu ponta de lança Nico Salmiosalo, aos 94min em casa do TPK que estava na liderança da 3a divisão nessa altura em junho 2016.

Depois de sermos roubados o jogo todo, com campo cheio em Turku, o Nico faz o 0-1 aos 94min. O campo ía indo abaixo…houve confusão, vários vermelhos (incluindo a mim, ao meu adjunto e ao meu central português, Adimar) mas esse resultado permitiu-nos passar para frente do campeonato e 2 meses depois ser campeão.

Filme favorito

Tenho vários… normalmente filmes de espiões, tipo Syriana, The Good Shepard, Corpo da Mentira e a saga Jason Bourne

Sauvo on nykyaikainen maaseutu- ja jalkapallokunta!

Sauvo on nykyaikainen maaseutu- ja jalkapallokunta! 😊🌻🌸🌞⚽️⚓️🐂❤️ lue lisää: http://www.sauvo.fi/fi/ tai http://www.visitsauvo.fi/ ja http://www.peimariunited.com/

Posted by Sauvon kunta on Wednesday, 8 November 2017

Música favorita?

Hip Hop…sou da Margem Sul (risos)

Algo que não dispensas diariamente?

Um café a seguir ao pequeno almoço e um passeio a seguir a isso, pode ser com cão, ou sozinho, ou com a namorada, mas tenho de sair de casa logo de manhã. Ás vezes, nas férias, até invento coisas para comprar só para sair de casa, não consigo estar parado muito tempo no espaço interior.

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