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Entrevista a Silas – Bomfutebol

Ex-Internacional português e uma das figuras dos relvados portugueses na início do Século XXI, Jorge Manuel Rebelo Fernandes, mais conhecido por Silas, revê, nesta entrevista, a sua carreira, que terminou na temporada transacta. Fez história, sobretudo, no União de Leiria, onde foi treinado por Mourinho e convocado para a Seleção Nacional. Também participou no inédito título de Campeão do Campeonato de Portugal, vencido pelo Cova da Piedade.

Formação e Sénior

Tendo começado nas camadas jovens do Sporting CP, o futebol sempre foi algo visto como algo onde poderia fazer carreira?

Eu, na realidade, comecei num clube de Lisboa, que sempre teve alguma tradição no futebol distrital de Lisboa, que se Chama Desportivo Domingos Sávio (DDS). Depois disso, joguei 2 anos no SCP e, por fim, o resto da formação foi feita no Atlético.

Foi realmente algo em que eu sempre acreditei que ia fazer como profissional, aliás, nem nunca me passou pela cabeça eu fazer outra coisa. Foi algo que eu nunca jamais desisti e nunca meti a hipótese de não vingar como futebolista, apesar de continuar sempre a estudar e conciliar os estudos até ao 12º ano. Nunca me passou pela cabeça não vir a ser futebolista profissional.

No histórico Atlético Clube de Portugal Fonte: http://www.atleticocp.pt

Como foram as 2 épocas na escolas do Sporting e que diferenças sentiu na mudança para o Atlético, onde fez o resto da formação até profissional e que diferenças pode apontar entre a formação no final dos anos 80 e início de 90 para agora?
As diferenças que eu vejo entre a formação dos anos 80 e 90 para a de agora é sobretudo ao nível da facilidade e condições que os jovens de agora têm. No meu tempo, não tinha dinheiro para pagar para jogar, agora toda a gente paga. Eu não tinha carro e tinha que ir para os treinos de transportes públicos porque os meus pais também não tinham carro.
Fazia muitos mais sacrifícios do que os jovens de hoje e em certo sentido valorizávamos muito mais as coisas porque custavam muito mais a conseguir.
Para a maior parte, o ser profissional e viver do futebol era a única chance de poder ser alguém na vida e por isso acho que havia um empenho diferente. Por outro lado, acho que a nível de formação propriamente dita, houve um grande salto qualitativo a nível de treinadores, pois hoje há muito mais informação disponível há distancia de um clique e também muito mais troca de informações entre clubes, treinadores, etc…
Por outro lado, os miúdos de hoje têm o problema de já não haver futebol de rua, onde realmente se desenvolvia a técnica no seu estado mais puro e de cada vez verem menos futebol, porque têm muitas mais distracções (playstation, internet, telemóveis, etc.).
Acho que têm havido uma evolução dos treinadores que contrasta (ironicamente) com uma regressão da qualidade individual dos jogadores…e acho que nesta equação o futebol sai claramente a perder.
Com foi a transição para profissional, no Atlético? E o que motivou emigrar para o país vizinho?
A transição do futebol de formação para o futebol sénior, no meu caso, não foi muito difícil , mas não o foi porque eu adoptei uma postura de aprendizagem e de ouvir. Eu ouvia muito os mais velhos e tentava aprender tudo o que eles tinham para me ensinar (e era muita coisa).
Naturalmente, que o facto de jogar sempre no Atlético desde que subi a sénior também ajudou na integração, mas tive grandes jogadores e grandes treinadores que me ajudaram muito.

Que treinadores mais o marcaram, quer a nível de formação quer a como sénior?

Na formação, o meu primeiro treinador marcou-me muito. Chama-se António Silva e foi meu treinador no Desportivo Domingos Sávio. Era um senhor que nos transmitia respeito pelos outros e pelo futebol. Isto foi há 31 anos e ainda hoje me lembro muito bem dele, sempre tentei usar os seus ensinamentos durante toda a minha carreira, sempre tive muito respeito pela figura do treinador e ele é o grande responsável por isso.

Depois também me marcou muito o Mister Osvaldo Silva, porque trabalhávamos muito o aspecto técnico e isso marcou o meu jogo para a vida. Tratar sempre muito bem a bola era imperial.

Mais tarde Mourinho e Mister Jesus talvez sejam os que mais me marcaram por todo o conhecimento que me passaram a nível tático.

Estrangeiro, regresso e seleção!

Após algumas temporadas no Atlético, emigrou para Espanha. Porque Espanha e como avalia a experiência?

Fui para Espanha por falta de oportunidades em Portugal. Tinha 21 anos e já me tinham sido negadas duas oportunidades  no Salgueiros e Campomaiorense, onde fui treinar à experiência e acabei por não ficar. Depois disso apareceu uma proposta do Ceuta que pagou 12 mil contos (60 mil euros) ao Atlético e um bom salário para mim logo arrisquei.

Acho que foi a melhor decisão que tomei, porque me fez crescer muito como pessoa e como futebolista. A imprensa em Espanha é, normalmente, muito exigente sobretudo com os estrangeiros e isso obrigou-me a estar sempre a um nível alto, o que foi muito bom para mim. Acabei por evoluir tanto que me foi dada a tão esperada oportunidade na nossa Primeira Liga, oportunidade dada pelo Mister Mourinho que já me conhecia de Espanha.

 

Após Espanha chegou a Primeira liga na União de Leiria, onde começou a dar nas vistas até a chamada a seleção. Qual a sensação de representar a Seleção Nacional? A Seleção Nacional era um objetivo?

Foi tudo muito rápido, passei de jogar na 2ª B espanhola a jogar na 1ª e seleção do meu País. Foi incrível porque eram tantos sonhos realizados em tão pouco tempo, não era um objectivo porque nunca pensei que do Leiria poderia ir à Seleção Nacional, até porque a seleção tinha um leque de jogadores disponíveis muito forte, mas era um sonho… E tudo começa num sonho.

Quando se pensava que poderia reforçar um clube de maior dimensão, saiu novamente de Portugal para o Wolverhampton Wanderers, onde não fez muitos jogos. O que se passou para não vingar em Inglaterra, após várias temporadas excelente nível?

Houve várias razões para não vingar, começou logo pela minha análise do que era a minha equipa e o modelo de jogo. Eu não fiz essa análise e devia tê-lo feita. Quando cheguei lá é que percebi que o modelo de jogo não era o ideal para mim. Mas entretanto eu também não tinha as ferramentas que adquiri passado uns anos, se tivesse sido hoje, eu teria conseguido me adaptar, porque tenho ferramentas que me permitem adaptar a qualquer tipo de futebol mas na altura não tinha. Entre não ter essas ferramentas e que a equipa e os treinadores também não me souberam ajudar nessa adaptação foi complicado, mas enriquecedor.

Silas no Wolves – Fonte: birminghammail.co.uk

Novamente em Portugal

Após voltar a Portugal, o Silas vinga novamente, desta feita no Belenenses. Estaria a Seleção novamente na mira?

Eu já apareci tarde, estreei-me na 1ª liga a uma semana de fazer 25 anos e a seleção é o maior marco da minha carreira, pelo menos na minha opinião. Mas o meu objectivo diário sempre foi servir o melhor que podia o meu clube e ajudar os meus colegas a atingirmos objectivos colectivos. A seleção é sempre uma consequência do nosso trabalho diário, nunca foi uma obsessão para mim.

Voltou novamente ao União de Leiria, de regresso à 1ª Liga. Como vê o estado atual da União?

Foi com pena que vi o União De Leiria a cair como caiu, mas sei que neste momento estão a dar passos sustentados para poder voltar às ligas profissionais de onde nunca devia ter saído. Acredito que rapidamente estará outra vez a competir nas ligas profissionais.

 

Posteriormente, voltou a emigrar, desta vez para o Chipre. Em 3 temporadas, 3 clubes, como revê a passagem por este país? Ainda é o “el dorado” de há uns anos atrás? Como é o futebol cipriota?

Chipre foi uma boa experiência e foi um desafio pessoal, já tinha 34 anos e fui em Janeiro. Esses seis meses não foram bons a nível colectivo porque, na realidade, a equipa não estava preparada para competir, havia demasiados egos virados para o benefício pessoal. Depois, a partir de Julho, houve muitas alterações no plantel e os jogadores que chegaram (só transitámos uns 4 ou 5 do ano anterior) trouxeram mais espírito colectivo e ambição e acabámos por ser campeões do Chipre pelo AEL Limassol que já não era campeão há 44 anos. Foi uma experiência muito boa.

Já não se paga o que se pagou há uns anos, portanto poucos são os clubes onde compensa ir. Acho que o futebol Cipriota está cada vez melhor, mas ainda pode melhorar muito em todas as áreas. Sobretudo na área do dirigismo. Tem um sistema onde há uma primeira fase que jogam todos contra todos e depois acaba por se dividir em dois grupos que na minha opinião não é bom para a liga e não permite aos clubes mais pequenos crescerem.

 

Depois desta experiência, a passagem pelo NorthEast United da Índia. Como foi o choque cultural num país tão longínquo? Em que nível está o futebol num dos países com mais população no mundo?

Eu fui para a Índia numa altura onde já tinha uma maturidade diferente, já tinha lido muito sobre a Índia e não tive um choque, porque sabia bem onde ia. Tenho uma grande capacidade de adaptação e fui muito bem recebido. Para além disso havia muita gente a falar Português (eu, o Miguel Garcia e o Simão Sabrosa) e também bastantes a falar Castelhano e inglês, portanto para nós foi de alguma forma tranquilo. O que custou mais foi estar longe da família!

O Futebol na Índia está a ter uma evolução notável, fruto dos treinadores e jogadores que todos os anos vão de certa forma “ensinar” e formar o jogador e o próprio treinador Indiano…há uma grande partilha de conhecimento e uma grande vontade de aprender do povo Indiano e o Pais tem um grande potencial porque a população é enorme e seguramente que dentro de poucos anos surgirão bons talentos dos quais vamos ouvir falar.

Cova da Piedade no final da carreira

De volta a Portugal, ingressou no Cova da Piedade, que conseguiu o feito de chegar à 2ª Divisão. Como foi essa temporada e o momento do penalti na final contra o Vizela?

No Piedade foi uma experiência maravilhosa. Eu ia acabar a carreira e ex-colegas e amigos “desafiaram-me” para os ir ajudar no objetivo que tinham de subir, visto que os conhecia há muitos anos , assim como ao treinador, que tinha sido meu colega nos juvenis do Atletico. Acabei por aceitar, também porque me sentia em condições para ajudar. Acabámos por subir e ser Campeões Nacionais do Campeonato de Portugal…

O Momento do Penalti foi um momento tranquilo para mim. Sabia o que ia fazer, estava muito tranquilo, já tinha milhares de jogos como federado. Sou muito equilibrado e optimista nestes momentos.

Silas no Cova da Piedade – Fonte: www.record.pt

Que diria ao Silas de 18 anos? Que conselhos lhe daria?

Ao Silas de 18 anos que faça tudo como eu fiz, até os erros valeram a pena. E que aproveite todos os segundos porque dos 18 aos 41 é um saltinho muito rápido, onde será o homem mais feliz do mundo!

Melhor/es Momento/s Desportivo?

Estreia na seleção Nacional, na B e na A.

Ídolo /Jogador referência?

Figo

Melhor jogador com quem jogaste?

Figo

Jogador que mais dificuldades te causou?

Guardiola

Melhor Treinador?

Jorge Jesus / Mourinho

Melhor Golo?

Golo ao Porto do estádio do Dragão

Melhor Assistência?

Assistência de Calcanhar para o Candido Costa num Paços Ferreira vs Belenenses

Filme Favorito?

John Q (Denzel Washington)

Música Favorita?

Black dos Pearl Jam

Algo que não dispensas diariamente?

Companhia dos meus filhos.

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