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Estatísticas – As Diferentes Realidades Possíveis

Estatísticas – As Diferentes Realidades Possíveis

O positivismo e a sua influência no pensamento.

As amarras duma educação, e de todo um sistema social, baseado num paradigma científico diferente daquele que actualmente melhor serve as necessidades humanas ainda parecem coartar em demasia o pensamento contemporâneo. Fomos formatados no sentido de separar para compreender, habituados à lógica de que mais significa melhor, levados a crer que só aquilo que se quantifica é fiável… Tudo isto teve como consequência um olhar redutor para os diferentes domínios de actuação humana, desde a medicina ao trabalho, passando, naturalmente, pelo Desporto.

A história da ciência e a evolução social têm a justificação para este trajecto, e foram vários os afluentes teóricos que engrossaram este caudal do positivismo científico, em que as ciências ditas exactas se sobrepuseram em todos os domínios, e que moldaram as ideias de diversos pensadores, como Descartes, por exemplo. Mas, ainda mais profundas foram as influências que estes pensamentos tiveram na construção da sociedade tal como a conhecemos.

Fomos embalando, com ventos favoráveis da evolução tecnológica que disponibilizou cada vez mais ferramentas, numa vertiginosa corrida de recolha e disponibilização de uma enormidade de dados que, carecendo da correcta interpretação e/ou suporte teórico-científico, só contribuiu para enublar cada vez mais o olhar que dispensamos aos fenómenos.

Hoje em dia, a rotura com este paradigma (tal como propagou T. Kuhn) não só é possível como se revela indispensável! A ciência mudou, as ferramentas ao dispor (materiais e conceptuais) são incomparáveis, como tal, a sociedade também terá de reflectir estas mudanças.

O problema da pós-verdade.

Torna-se cada vez mais difícil discernir o ónus das questões com a dinâmica social existente. A Internet, as redes sociais, e a tecnologia que temos ao dispor vieram, mais do que nos tornar consumidores obsessivos de informação, transformar qualquer um de nós em jornalista, em comentador, em produtor ou propagador de conteúdos.

Como construir conhecimento a partir desta montanha-russa de informação com que nos confrontamos a cada “scroll down”?

Tudo isto dá aso a que as emoções ganhem uma importância crescente, visto que, no meio de tantos títulos, fotos, emojis, notícias, artigos, etc., será aquele que mais chamar a atenção que ganha alguns segundos e, eventualmente, a possibilidade de ser considerado “verdadeiro”. Esta tendência está tão extremada que a verdade dos factos passa mesmo para último plano, para dar lugar à interpretação tendenciosa desses mesmos factos.

Neste momento, a estatística no Desporto, muito em particular no Futebol, enquadra-se nesta lógica deformada, e mais do que servir para efeitos de análise, serve para justificar de forma habilidosa os pontos de vista que pretendemos defender.

É por isso que, por vezes, derrotas parecem não sê-lo, que o mérito se esbate com argumentos incoerentes, ou que se tentam camuflar problemas recorrendo aos mais absurdos artefactos.

Formação: o caminho para o desenvolvimento.

São os principais agentes do jogo, e aqueles que detêm conhecimento sobre a área, que devem tomar a iniciativa de contribuir para a formação do público em geral. Fugindo ao que normalmente se assiste diariamente, ter a honestidade e seriedade de transmitir mensagens que se coadunem com o espírito e essência do jogo. E este jogo dá a todos possibilidades, não fecha hipóteses por mais ínfimas que sejam as suas probabilidades, é complexo e sujeito à influência do acaso, é dinâmico.

É alguma anormalidade ter mais posse de bola, mais remates, mais passes, e perder uma partida? Ser for possível condenar alguém por isso, estamos a condenar o jogo em si próprio.

Compreende-se que o clima de incerteza, instabilidade e guerrilha constante não auxilie a que a postura dos principais agentes seja diferente, mas é muito bom notar oásis de resistência no futebol altamente competitivo. De saudar, por exemplo, a postura de Mauricio Pochettino! Ou a atitude honesta de José Peseiro para com o seu colega aquando da sua apresentação neste novo desafio desportivo.

Sem camuflar, sem querer alimentar o próprio ego, sem provocar, respeitando a essência do jogo e com isso dando um sinal exemplar para a educação de quem os ouve e segue.

NOTA:

As estatísticas ou recolha de dados, como deriva de um cartesianismo latente e um positivismo enraizado, são uma das tendências sentidas com mais intensidade nas últimas décadas no jogo/treino.

Não foi há muitos anos (ainda hoje) que se avaliavam jogadores ao metro…

Não foi há muitos anos (ainda hoje) que se avaliavam desempenhos ao quilometro…

Foi um degrau neste percurso evolutivo, que talvez muitos se tenham esquecido ou cansado de continuar a escalar.

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