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Fan ID: uma nova forma de ir aos estádios?

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Fan ID: uma nova forma de ir aos estádios?

No final do último mês, Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, foi ouvido no Parlamento. Esta audiência foi requisitada na sequência de um artigo escrito pelo próprio e publicado nos três jornais desportivos nacionais. No artigo, o presidente da Federação alertava para os efeitos negativos que a “apologia ao ódio” e o “constante tom de crítica em relação à arbitragem” podem ter no futebol português. De entre todas as sugestões, a criação de um curso de formação obrigatório para todos os dirigentes desportivos foi a que recebeu mais atenção.

No entanto, Fernando Gomes também demonstrou vontade em criar um ‘fan ID’, um cartão de identificação especial para os adeptos de futebol e que pode alterar a forma como os portugueses vão aos estádios.

Esta sugestão encontra precedentes em vários países europeus e parece não haver consenso possível. Embora sejam desconhecidos os moldes em que a FPF pensa esta medida, é possível prever os detalhes e o funcionamento deste cartão de identificação analisando como a medida é aplicada noutros países e competições.

O cartão de identificação é, por norma, obrigatório para adeptos que queiram acompanhar a equipa em jogos fora. Os adeptos devem registar-se numa base de dados – geralmente do domínio do clube – e esperar que o cartão chegue a casa. Para concluir o registo com sucesso, os adeptos devem fornecer informações pessoais e elementos identificativos, tal como a data de nascimento, a altura e uma fotografia. A aplicação desta medida prende-se, em grande parte, a questões de segurança.

Na Europa

Esta medida esteve em discussão e/ou foi implementada em alguns países europeus. No final dos anos 80 e início dos anos 90, na consequência de confrontos provocados por adeptos do Millwall em jogos da FA Cup, Margaret Thatcher, Primeira-Ministra na altura, demonstrou vontade em implementar a medida dos cartões de identificação obrigatórios nos campeonatos ingleses. No entanto, as conversações não chegaram a bom porto.

Os clubes recusaram a ideia, por causa dos custos elevados; a opinião pública considerava que a medida constituía uma forma de violação da liberdade civil e, por isso, a derrota foi inevitável. Outros assuntos tomaram a ribalta e este ficou quase esquecido. Até Maio deste ano, quando os adeptos do Millwall se envolveram de novo em graves confrontos físicos. A EFL impôs, então, que a medida fosse implementada pelo clube.

Na Itália, foi o Ministério do Interior que impôs o cartão de identificação aos espectadores de jogos de futebol. Pelo que conseguimos apurar, foram vários os erros nas bases de dados e o processo era, nas épocas iniciais, muito complicado para quem vivia longe da cidade do clube em que se queria registar. A média de assistências nos estádios italianos tem decrescido. Da média de mais de 25 mil espectadores por jogo do campeonato em 2009/2010 passou para cerca de 22 mil espectadores por jogo na última temporada. Naturalmente, devem ser considerados outros factores, mas não deixa de ser legítimo questionar se o decréscimo não teve origem, em parte, na implementação da medida.

No final dos anos 90, a medida foi implementada na Bélgica. No entanto, os problemas que o sistema provocou e o custo elevado fizeram com que, em 2005, a medida fosse abandonada.

Taça das Confederações 2017 e Mundial 2018

O Europeu 2016, disputado na França, foi assombrado por uma vaga de hooliganismo com cenas de pancadaria a irromper em vários pontos do país. No epicentro de tudo estavam os adeptos russos e ingleses. Depois de confrontos violentos que envolveram adeptos de ambos os países em Marselha, a UEFA desqualificou a Rússia com pena suspensa e aplicou-lhes uma multa avultada. Estes acontecimentos intensificaram a discussão quanto à segurança dos adeptos no Mundial 2018, que vai ser disputado no próximo ano em território russo.

Uma das medidas encontradas para garantir a segurança de todos foi a implementação do Fan ID obrigatório. A medida já foi testada na Taça das Confederações, com a responsabilidade a recair sobre as autoridades russas. Para assistir a um jogo dessa competição, entre os últimos meses de Junho e Julho, os espectadores tinham de fazer o registo após a compra do bilhete. Para esta competição específica, o Fan ID também servia como visa para entrar no país.

Para o próximo Mundial, que começa no próximo dia 14 de Junho e termina cerca de um mês depois, o website para registo já está disponível e contém todas as informações necessárias. Os espectadores podem realizar o registo após compra do bilhete e têm a opção de receber o seu cartão de identificação em casa, pelo correio, ou de o levantar num centro de distribuição (a localização destes centros ainda é desconhecida). O que se sabe, com absoluta certeza, é que nenhum espectador vai poder entrar nos estádios sem constar da base de dados e ter as suas informações registadas.

A aplicação da medida em Portugal (Parte 1)

A obrigatoriedade da utilização dos cartões de identificação levanta inúmeras questões. Num país em que muitos clubes lutam para se manterem com as portas abertas e financeiramente saudáveis, os custos de instalar o sistema e de tratar de dados pessoais e sensíveis podem, no caso de recaírem sobre os clubes, ser um golpe duro nas suas contas.

Convém também perceber se esta medida pode afastar espectadores dos estádios. Na última época desportiva, assistiram a cada jogo da Liga NOS, em média, 11 923 espectadores, mas onze clubes (de dezoito) não conseguiram uma média superior a 5 mil espectadores por jogo. É clara a falta de capacidade dos clubes portugueses em atrair espectadores. Uma medida que contribua ainda mais para o afastamento das pessoas dos estádios pode ser prejudicial, até porque influencia categoricamente as receitas dos clubes, uma vez que é uma fonte de receitas principal.

Sendo uma medida de segurança, convém perceber o quão grave e pertinente são as questões de violência no futebol português. No início de Abril último, a PSP informou que 21 pessoas estão proibidas de entrar em estádios de futebol em Portugal. Para efeitos de controlo e para que não violem as regras, as pessoas que estão proibidas de frequentar os estádios devem, por norma, comparecer no quartel da sua zona de residência à hora do jogo.

A aplicação da medida em Portugal (Parte 2)

Os cartões de identificação podem servir de alternativa de controlo, embora haja relatos de que em vários países da Europa as regras impostas pelo cartão de identificação podem ser contornadas. Embora existam, por vezes, alguns focos de tensão e violência, a maioria dos jogos decorre sem problemas assinaláveis. O diálogo, que deve ser estendido aos dirigentes, forças de segurança e comentadores dos programas desportivos, pode ser uma medida mais eficaz em instruir os adeptos e acabar com a violência.

Convém perceber os impactos que esta medida pode ter no futebol português. Por enquanto, sabe-se que, se a medida for para a frente, vai modificar a forma de os adeptos se deslocarem aos estádios em Portugal. Mas será uma mudança positiva ou negativa?

A Economia do Golo

Autoria: Raquel F. Veiga (A Economia do Golo)

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