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Gestão de Egos – O Pesadelo do Treinador

Gestão de Egos – O Pesadelo do Treinador

As recentes notícias de possíveis desavenças entre jogadores do plantel do PSG, veio a trazer novamente a público o papel do Treinador na gestão de egos do seu plantel. Por incrível que pareça, não é o maior ou menor conhecimento do jogo ou do processo de treino que por vezes condena o trabalho do treinador ao insucesso. A capacidade de gestão dos egos dos diferentes jogadores do plantel é fundamental no futebol actual.

São conhecidos os casos de treinadores com reconhecida cultura táctica, conhecimento do jogo e dos fundamentos do treino de futebol mas que simplesmente não conseguem colocar os desejos e ambições individuais de cada jogador em consonância com os objectivos e ambições da equipa. Nestes casos, nem todo o conhecimento do mundo em termos futebolísticos, poderá salvar o treinador do desastre.

E porquê hoje em dia a gestão de recursos humanos por parte do treinador é tão importante? Tudo começa pelo facto do perfil de Homem que o jogador de futebol da actualidade é.

O Jogador actual – O Jogador Informado

O jogador de futebol actual é diferente do jogador de há vinte ou trinta anos atrás. Vive-se numa sociedade com mais acesso à informação disponível, em constante contacto com o mundo que nos rodeia pelas redes sociais. Como é óbvio o jogador de futebol da actualidade inserido na sociedade actual, é um reflexo disso mesmo . É um jogador mais informado, com mais interesse no conhecimento do jogo e do mundo, com mais opinião sobre os assuntos actuais e com mais meios de verbalizar essa mesma opinião pelo mundo fora.

Não estou a afirmar que o jogador da actualidade é melhor ou pior do que o jogador de há vinte ou trinta anos. Simplesmente é diferente! Vive numa era diferente e também joga e vive um ambiente futebolístico totalmente diferente do que era há vinte anos atrás. O dinheiro que o Futebol actual movimenta nada tem haver com o que acontecia há vinte anos atrás. Todas estas pressões e a forma como cada jogador se adapta a elas, ajudam a moldar a personalidade e carácter do jogador de futebol actual.

Claro que há vinte, ou mais, anos atrás também os treinadores tinham que saber colocar as ambições individuais de cada jogador em prol dos objectivos colectivos. Mas a verdade é que hoje em dia, toda a envolvente em torno do jogador de futebol, desde empresários, família, amigos, etc., tornam o trabalho do treinador na gestão de egos do seu plantel muito mais difícil.

Um Treinador Actual no Mundo Actual

Tendo em  conta o contexto actual em redor do Futebol, além de um bom conhecimento do Jogo, o Treinador terá que ser um gestor de recursos humanos. O Treinador é o líder do seu plantel e o líder da sua equipa técnica. Estes são os seus recursos humanos, os recursos que terá que saber gerir de forma a obter-se o sucesso colectivo. Ou seja, o Treinador terá que gerir as ambições e objectivos individuais de cada individualidade de forma a que contribuam de forma produtiva para as ambições colectivas do clube e da equipa.

Para o Treinador ter essa capacidade de Gestão de Egos é necessário ter uma forte inteligência emocional. A inteligência emocional é a capacidade de saber gerir as suas emoções e as emoções dos que o rodeiam, de forma a optimizar o melhor rendimento e tomada de decisão. Parece algo simples de se atingir mas o processo para se dominar tal capacidade é bastante complexo e introspectivo.

Inteligência Emocional – Como a usar

Um Teinador de sucesso ao mais alto patamar terá que ter uma forte inteligência emocional. O primeiro passo para se ser emocionalmente inteligente é perceber as suas próprias emoções e como essas emoções afectam o seu comportamento. Ou seja, primeiro o Treinador terá que ser capaz reconhecer os seus pontos fortes e fracos para posteriormente dominar as suas próprias emoções em seu próprio benefício. Dominar a suas emoções não é tornar-se insensível e frio. É perceber que em certos momentos usar um conjunto de emoções é benéfico para se atingir determinado comportamento e que para outro comportamento outras emoções serão mais úteis. Este é um primeiro passo em que o Treinador terá que ser sincero consigo próprio, traçando o caminho necessário para se atingir o desejado nível de domínio e controlo das emoções.

O segundo passo é conhecer as emoções dos seus jogadores e colaboradores directos. Se o primeiro passo é um momento de sinceridade para consigo próprio, neste segundo passo o Treinador terá que ser hábil em perceber os sinais que possam indicar as emoções que jogadores e colaboradores possam ter e os comportamentos que advém dessas emoções. O Treinador terá que perceber isso analisando a postura corporal, reacções faciais, tom de voz e outros sinais físicos que cada emoção cria no nosso corpo.

Conhecendo as suas próprias emoções e as dos que o rodeiam, o Treinador conseguirá criar um laço de empatia com os jogadores. Esse laço de empatia servirá para o Treinador usar as suas emoções e as dos seus jogadores em prol dos objectivos comuns. O Treinador saberá que acções suas irão desencadear as emoções desejadas nos jogadores de forma a que estes tenham o comportamento desejado pelo treinador em determinado contexto. Para tal o treinador irá alternar entre diferentes estilos de liderança, desde o mais liberal ao mais autoritário. Esta mudança nos estilos de liderança dependerá sempre do contexto e do perfil emocional e psicológico do grupo de jogadores que lidera.

Zidane – O Treinador Gestor de Recursos Humanos da Actualidade

O homem que surge na imagem de destaque deste artigo é, para mim, o melhor exemplo actual do treinador gestor de recursos humanos. Sendo Zidane um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos é indubitável, o seu conhecimento do jogo. Pode não ser dos maiores entendidos da teoria do treino mas certamente que tem na sua equipa técnica quem domine essa área do conhecimento científico. Agora o que o faz neste momento ser dos melhores treinadores da actualidade é a sua capacidade de gestão dos egos dos seus jogadores. E acreditem que num clube como o Real Madrid os egos devem ser elevados.

Quando Zidane, a meados da época de 2015/2016, assumiu o cargo de treinador principal foi notória a diferença na qualidade de jogo. Os jogadores passaram a jogar com mais alegria e mais efectividade, fruto da capacidade que teve em fazer alinhar as ambições de cada jogador em torno de um objectivo colectivo superior. De lá para cá, Zidane ganhou duas Liga dos Campeões, duas Supertaças Europeia, um Campeonato do Mundo de Clubes, um Campeonato Espanhol e uma Supertaça Espanhola. Isto tudo em uma época e meia. Como?

Além de ter um plantel com alguns dos melhores jogadores do mundo, Zidane sabe o que dizer e fazer para retirar o melhor rendimento individual dos seus jogadores, sendo que esse rendimento resulta numa performance colectiva de alta qualidade. Zidane tem sabido gerir as ambições individuais de cada jogador, assentes nos objectivos colectivos da equipa. Ou seja, o treinador francês sabe como encaixar e orientar os desejos e egos de cada jogador, naquilo que é a conduta colectiva da equipa.

Nesta gestão dos egos dos seus jogadores, Zidane possui de um trunfo que poucos treinadores têm. Zidane é sobejamente conhecido como um dos melhores jogadores de futebol de todo o tempo. Esse estatuto, que ele ganhou em campo ao longo da sua ilustre carreira de futebolista, dá-lhe uma certa “superioridade moral” quando aconselha ou dá uma indicação a um jogador. Não estou a dizer que se sinta superior aos jogadores que treina mas não deixa de existir um certo de sentimento de admiração por parte dos seus jogadores. Jogadores estes que cresceram a vê-lo jogar e a ter algumas das melhores exibições da história do futebol.

Zidane tem provas dadas enquanto jogador, ganhou títulos e foi durante anos o melhor jogador do mundo. Esse estatuto, para alguns jogadores, torna a mensagem que Zidane passa com mais valor do que se a mesma mensagem fosse dita por um outro treinador com menor histórico no mundo do futebol. Voltemos ao tema do que se passou no PSG. Num clube como o PSG, com jogadores de grande valia técnica e futebolística, pagos a peso de ouro, o treinador terá que ser muito seguro de si mesmo. Terá que ser um verdadeiro líder, capaz de guiar os altos egos de cada jogador de forma a que funcionem todos na mesma direcção.

Perante o cenário que se passou no passado fim de semana, certamente que uma indicação ou acção por parte de Zidane seria mais aceite do que o mesmo fosse feito por parte de Emery. Não é querer desmerecer Emery enquanto treinador mas a verdade é que perante boa parte dos jogadores do seu plantel, e adeptos também, Emery ainda tem muito a provar enquanto treinador de classe mundial, para se tornar uma referência/autoridade no mundo futebol.

Gestão de Egos = Sucesso

Saber gerir os egos, emoções e ambições dos seus jogadores não é garantia de sucesso para um treinador. Agora verifica-se que essa é uma característica transversal às equipas vencedoras. Todas as equipas vencedoras têm em comum o facto de existir um ambiente de harmonia e equilíbrio emocional, convergindo as ambições e egos individuais em direcção ao sucesso colectivo.

Tomemos o exemplo de Fernando Santos aquando do Europeu de 2016. As palavras de Fernando Santos de crença de que voltaria a Portugal somente depois da data da final (acção) e a carga emotiva que estas continham, perante um clima em redor da selecção portuguesa nem sempre favorável, foram fundamentais para se criar um ambiente e um estado emocional (empatia) entre os jogadores e toda a equipa técnica, que fez ressalvar o melhor de si em prol de um objectivo colectivo. Terá sido a gestão emocional da equipa por parte de Fernando Santos o fundamental para a conquista do Europeu de 2016? Talvez não. Mas certamente que foi o factor que permitiu um rendimento extra e o alcançar de algo que parecia inatingível.

E você, caro leitor, que mais casos da gestão dos egos pela positiva, e pela neagtiva, lhe ocorrem? Será que esta capacidade é realmente fulcral para se atingir o sucesso no Futebol? Ou será um pormenor de significância discutível?

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