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Gilmar em entrevista exclusiva ao Bom Futebol

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Gilmar Estevam? Simplesmente Gilmar. Essa mesma ‘fera’ que pulverizou golos pelos relvados portugueses entre 1993 e 2001. Apenas com três camisolas: a de Vitória Sport Clube, Desportivo de Chaves e Boavista.

Contactámo-lo e logo respondeu do “seu” Brasil, com a simplicidade de quem fazia golos. Avançado pujante, “goleador, mas também batalhador, não se limitando a ser jogador de área”, como ele próprio referiu, portentoso, acrescento, deixou saudades em Guimarães e Chaves, onde ainda hoje é muito lembrado.

Gilmar, conta-nos, sabemos que estás ligado ao futebol no teu país de origem. O que estás a fazer?

Gilmar – Em primeiro lugar cumprimento a equipa do Bom Futebol e, claro, mando um abraço para Portugal. Estou no Brasil a trabalhar como treinador há uma década. Já tive algumas conquistas em clubes de Minas Gerais, incluindo subidas de Divisão. Orgulho-me também de ter cumprido objetivos para os quais me propuseram, que não passavam somente por ascensões de escalão.

Tens acompanhado o futebol português? Como viste a temporada dos teus ex-clubes?

G – Sim, claro, sempre que posso vejo os jogos. Gostei muito da classificação do Vitória, que fez uma grande campanha. Acho até que podia ir mais longe! Mas o que é facto é que fez uma grande classificação. O Boavista está a retornar, a procurar estabilizar-se para poder chegar mais à frente, mas conseguiu atingir a metade da tabela, o que foi bom. O Chaves, como sabemos, com as condições que o clube oferece acaba por não ser surpreendente. Acredito que não ter descido e feito o que fez é meio caminho para estabilizar e afirmar-se cada vez mais na 1.ª Divisão, mas não posso deixar de dizer que fiquei mais satisfeito com o que fez o Vitória, o clube em que fiz mais história em Portugal.

Jogaste cinco temporadas no Vitória Sport Clube, mas começaste e acabaste a tua carreira em Portugal no Desportivo de Chaves. Comecemos, portanto, pelo início. Diz-me, Gilmar, em que moldes iniciou a tua aventura em Portugal na 2.ª Liga pelos flavienses? Um ano em que subiram de Divisão e captou a atenção do Vitória…

G – Joguei 2 anos na Arábia Saudita e fui convidado para o Desportivo de Chaves por intermédio de um brasileiro que lá estava na época, o Ricardo, que estava com o Carlos Garcia, que era treinador na altura, e fui muito bem recebido, é uma cidade que recebe muito bem as pessoas. Cheguei com a minha família, adaptei-me muito rapidamente, só que houve um atraso na documentação proveniente da Arábia. Acabei, por isso, por treinar um mês e meio, sem, portanto, poder jogar, mas quando me estreei pelo Desportivo comecei logo por fazer muitos golos, que ajudou bastante o Chaves no seu objetivo de subir de Divisão e, para mim, em termos de adaptação, foi muito bom. Cidade tranquila, muito acolhedora, um clube que me tratou sempre muito bem. Por isso tive também um rendimento tão satisfatório.

Imagem 1 – Gilmar em ação pelo Desportivo de Chaves num jogo diante do Louletano.

Seguiu-se, então, a aventura em Guimarães, onde jogaste com regularidade ao longo das 5 temporadas, tendo feito 53 golos em 170 jogos. Como foi estar num clube com uma massa associativa tão exigente? Lidaste bem com isso?

G – Sem dúvida. Adaptei-me bem à torcida, há muita «cobrança», mas sempre com um respeito enorme e posso dizer mesmo que nunca tive quaisquer problemas nos anos em que aí estive. Como vivemos muitas coisas boas, foi mais fácil, porque todos sabemos que quando as coisas não vão bem os torcedores pressionam muito, há mais problemas, mas todas as temporadas que aí estive as coisas correram bem e, por isso, houve uma tranquilidade maior para trabalhar.

A torcida do Vitória é muito forte, como vocês sabem, muito exigente. Eu acompanho constantemente os jogos na internet e vejo o número de adeptos cada vez a crescer mais e é terrível para os adversários.

Imagem 2 – Foi na meia década em Guimarães que Gilmar historiou uma carreira plena a todos os níveis. Na foto, festeja um dos mais de meia centena de tentos que celebrou com o símbolo do Rei.

 

Em 1999/2000 foste para o Boavista, onde ficaste apenas essa temporada e marcaste 7 golos nos 27 jogos que realizaste, precisamente na anterior a serem campeões nacionais. Como se processou essa ida de Guimarães para o Bessa?

G – Estava em Guimarães há 5 anos e como não nos tínhamos qualificado para a Taça UEFA (atual Liga Europa) nesse ano eles fizeram uma reformulação no plantel, tendo eu, o José Carlos e o Vítor Paneira, todos com mais de 30 anos, sido convidados para sair.

Como já tinha trabalhado com o Jaime Pacheco, ele acabou por levar-me para o Boavista para disputar a Liga dos Campeões e o Campeonato Português, mas as coisas não correram como tinha pensado. Tive algumas lesões, a concorrência era grande e houve um jogo entre o Boavista e o Vitória que acabou por ditar o meu afastamento do plantel, somente por ter cumprimentado, no final desse encontro complicado, o pessoal de Guimarães.

Imagem 3 – Apesar de não ter tido aventura no Bessa à altura dos predicados que havia deixado em Chaves e Guimarães, Gilmar não deixou de patentear a sua marca goleadora, tendo anotado na única época ao serviço do clube da pantera 7 tentos. Na foto, num jogo diante do “seu” Vitória.

E depois, em 2000/2001, o regresso a Chaves. E novamente para a 2.ª Liga…

G – É verdade, recebi o convite do Chaves com muito prazer, joguei lá esse ano, mas só joguei esse porque já tinha intenções de regressar ao Brasil.

 

Deixaste saudades em Trás-os-Montes. Tens mágoa de nunca ter jogado pelo Desportivo na 1.ª Liga? O que tens a dizer sobre o clube, a cidade e as gentes transmontanas? Um pouco na linha do Vitória, é também um clube exigente…

G – Fui para o Boavista pelo convite do Jaime Pacheco, tendo assinado um contrato de 2 anos. Infelizmente, tive muitas mazelas e o Jaime apostou numa dupla de atacantes mais veloz, o que me prejudicou. Esses constrangimentos não me beneficiaram, senti que tinha pouco espaço na equipa, daí a minha saída ter-se dado no final da primeira época, além das que referi anteriormente.

Retornei, então, ao Chaves e, sim, aí confirmei que o Chaves está numa linha parecida à do Vitória, apesar do Vitória estar num patamar diferente, de dimensão europeia, um clube com mais estrutura, mas eu senti-me sempre muito bem em Chaves, as pessoas trataram-me muitíssimo bem, sempre com muito respeito e, por essa razão, não tenho mágoa nenhuma, apenas boas memórias.

Em algum momento surgiu oportunidade de representares um dito “grande” em Portugal?

G – Não, não surgiu. Apesar de ter feito boas temporadas, não surgiu essa oportunidade.

E no estrangeiro, concretamente na Europa, tiveste alguma oportunidade financeiramente mais sedutora para saíres de Portugal?

G – Houve, sim. O Celta de Vigo tentou a minha contratação, mas acabou por não haver acordo. Na verdade, também não havia grande interesse da minha parte em ir para Espanha, porque me sentia extremamente bem em Guimarães.

Tiveste grandes treinadores em Portugal (Quinito, Manuel Machado, Vítor Oliveira, Jaime Pacheco, Filipovic,…). Qual o que te marcou mais?

G – Olha, é engraçada essa pergunta. Claro que cada treinador tem a sua filosofia de trabalho, cada um marca positivamente de alguma forma. Negativas também, mas eu não posso falar nada de negativo destes treinadores. Claro que tenho uma lembrança muito boa do Quinito, que foi o primeiro treinador que tive no Vitória Sport Clube, ajudou muita na minha adaptação na 1.ª Divisão, um campeonato diferente. Tenho um carinho muito especial por ele, mas não posso esquecer nenhum desses nomes. São treinadores com quem tive, sem exceção, sempre uma boa convivência. Com o Jaime Pacheco fiz também grandes campanhas, tanto em Guimarães como no Bessa, e são os dois de quem tenho melhores recordações, porque também foram com os que trabalhei mais tempo.

Do Vítor Oliveira guardo também grandes recordações, uma pessoa espetacular. Do Manuel Machado, igual. Tal como o Filipovic, um treinador que me ajudou muito por ter sido da minha posição.

Só tenho, por isso, grandes recordações de todos, porque todos me ajudaram em diferentes vertentes, por isso só tenho a dizer bem. Não posso esquecer o Carlos Garcia, que me treinou em Chaves (no 1.º ano).

E presidentes, qual o que e marcou mais?

G – Sem dúvida, sem pensar muito, foi o Pimenta Machado. Um presidente com quem trabalhei 5 anos e, em particular com ele, a convivência foi sempre ótima. Uma pessoa espetacular. Tudo o que ele tratou comigo cumpriu sempre e era um presidente carismático, que lutava por nós. Foi muito bom ter trabalhado com ele e foi, sem dúvida, o melhor presidente com quem trabalhei.

Com o do Boavista não tive uma boa convivência [ndr: João Loureiro], penso que pelo facto de ter vindo do Vitória SC, clubes que tinham, na altura, uma rivalidade muito grande.

Não posso esquecer também de falar de um diretor do Desportivo de Chaves, que era como se fosse presidente, o Capitão Melo, que recentemente faleceu. Uma pessoa espetacular, que sabia gerir bem e integrar os jogadores, especialmente os brasileiros que chegaram e que tiveram de se adaptar o mais rapidamente possível para ajudar o Chaves na subida de Divisão, algo que, como sabes, felizmente conseguimos.

Imagem 4 – Gilmar não teve dúvidas em eleger o histórico líder vimaranense como o que o mais marcou na carreira.

Logicamente que jogaste também com grandes jogadores. Tiveste companheiros de equipa que atingiram patamares ainda mais elevados. Queres destacar algum em particular?

G – Claro que sim, jogadores sensacionais. Cada ano joguei com jogadores diferentes e excecionais. Falando concretamente do Vitória SC, destaco primeiramente o Zahovic, que jogava perto de mim, tinha uma qualidade enorme, depois foi até para o FC Porto. Mas também Vítor Paneira, Nuno Capucho, Ziad, Dane, o próprio Pedro Martins, que atualmente treina o Vitória, grande companheiro e amigo, estou sempre a torcer por ele, o Edmilson também. Não posso, obviamente, esquecer também o Pedro Barbosa, grande jogador também, que seguiu para o Sporting CP. Jogadores de muita qualidade que ajudaram também ao meu sucesso em Guimarães.

Imagem 5 – Pedro Barbosa foi um dos destaques de Gilmar na hora de escolher os maiores talentos com quem partilhou o balneário.

Qual ou quais os amigos que levaste para a vida dessas oito temporadas em Portugal?

G – Amizades, felizmente, arranjei muitas, mas tenho que destacar uma pessoa espetacular, que me recebeu muitíssimo bem e ajudou muito à minha integração, a todos os níveis, incluindo familiar, que foi o Neno. Esse nunca vou esquecer. Uma pessoa excelente, cheia de caráter e que ajudou, não só a mim, mas todos os brasileiros que chegaram ao Vitória, recebeu sempre bem e abria a porta de casa a todos nós. Essa convivência foi excelente, por isso é que guardamos uma profunda amizade até hoje.

Consegues dizer-me qual foi o melhor golo da tua carreira?

G – (risos) Não é fácil, de facto, destacar o melhor. Pode ser bonito ou feio, mas o mais decisivo é sempre o mais importante. Eu fiz muitos golos importantes, mas vou destacar um pela forma como foi. Nós ganhámos 1-3 no Estádio da Luz, num campo que só quem lá jogou é que sabe o quão difícil é ganhar lá. O Preud’Homme era o guarda-redes, um guarda-redes fantástico que foi inclusivamente considerado o melhor da Copa do Mundo em 1994. Eu fiz um golo de cabeça e ficou-me esse momento especial.

É claro que os que fiz ao Braga foram todos eles especiais, especialmente quando fiz um hat-trick, mas destaco este por tudo o que referi, especialmente pela superior qualidade do Michel Preud’Homme.

Melhor momento da tua carreira…?

G – Não te consigo destacar nenhum, felizmente tive muitos e bons.

E o pior… ?

G – O pior momento que recordo foram as lesões e um problema de família em 1996. Tive um problema com a minha esposa, que acabou por perder um filho, na altura em que estava em Guimarães. Passei, nessa altura, por vários problemas particulares que acabaram por refletir-se dentro de campo. Acabei por ficar suplente do meu compatriota Edinho, que até me esqueci de falar há pouco, grande atleta, grande jogador, grande homem.

Qual foi a história mais hilariante no mundo do futebol das certamente muitas que vivenciaste?

G – Aconteceram muitas, mas estou a lembrar-me de uma muito engraçada. Havia muitos brasileiros no Vitória, como sabes, e os brasileiros são um pouco mais brincalhões do que os portugueses. Houve então uma época, penso que em 1996/97, havia o hábito do Vitória dar o pequeno-almoço numa área anexa ao balneário, chegávamos mais cedo e íamos, então, tomar o café da manhã. Havia de tudo, leite, croissants, bolos,… Então, sobrava muita coisa. O Riva, meu compatriota, que na altura tinha uma filha pequena, foi vítima de uma brincadeira que eu, o Neno, o Márcio Theodoro, o Alexandre, que era o mais engraçado, muito brincalhão, resolvemos fazer. Assim que acabou o pequeno-almoço, decidimos colocar pão, croissants e montes de outras coisas na bolsa dele. Tudo o que veio à mão.

O treino decorreu, tudo normal, acabámos de treinar e comentámos que tinha sobrado imensa comida e o Riva gritou logo que não levava. Aí, quando abriu a bolsa dele tinha lá comida que nunca mais acabava. Ficou bravo, chamou-nos canalhas, enquanto ríamos descontroladamente e o acusávamos de estar a levar a maior parte da comida que tinha sobrado. Ainda demorou uns 15 dias a voltar a falar connosco normalmente.

Foi uma brincadeira que não esqueço, ver o Riva tão bravo, até queria brigar connosco. Mas passado esse tempo ficou tudo bem, levou numa desportiva.

Qual é o jogador atual com que identificas mais semelhanças contigo na forma de jogar?

G – Eu era um jogador que trabalhava muito para a equipa, complicava muito a vida aos defesas, batalhava muito na frente, não me limitava a ser um jogador de área. Há aqui um jogador no Brasil com quem me identifico muito, que é o Lucas Pratto, um argentino que joga no São Paulo. É um jogador que vejo ter muitas parecenças comigo por ter todas as características que referi.

 

Imagem 6 – Lucas Pratto, avançado centro de 29 anos, é o avançado com quem Gilmar mais identifica semelhanças com o seu estilo de jogo.

Por fim, Gilmar, tens alguma mensagem para os torcedores portugueses e de algum clube em concreto?

G – Claro que sim, em primeiro lugar quero deixar o meu agradecimento. Sou muito grato por ter jogado em três clubes em Portugal, ao longo de 8 épocas consecutivas, e terem-me tratado sempre bem.

Os torcedores portugueses só podem estar felizes, quem tem o Cristiano Ronaldo no auge, como está, sendo português, é uma felicidade. Nós, brasileiros, temos jogadores de muita qualidade, mas o Cristiano tem a sua história. Vem fazendo coisas espetaculares. Presentemente, no Brasil, muitos jogadores, garotos, procuram copiar o Cristiano Ronaldo, o que demonstra bem a dimensão do (seu) futebol.

Desejo, obviamente, aos torcedores dos clubes onde joguei, sucesso. Em especial ao meu grande Vitória. Saúde e muita força. Abraço aos torcedores do Vitória, do Chaves e do Boavista, mas é claro que o coração é preto e branco, vimaranense, bate forte por esse clube.

Um grande abraço para todos!

 

Nota de entrevistador: Gilmar foi um dos grandes avançados que passou pelo futebol português, tendo tido sempre uma regularidade impressionante ao longo das 8 temporadas em Portugal. Foi um jogador que, ainda em pequeno, aprendi a admirar, não só pelos seus indiscutíveis predicados como futebolista como também pela sua conduta sempre respeitosa dentro de campo. É Vitória da cabeça aos pés (tendo, como entrevistador, notado essa mística vitoriana muito forte fruto dos 5 anos em Guimarães) e profundo admirador das gentes transmontanas, concretamente de Chaves, uma cidade e um clube que gosta imenso. Como entrevistado, foi como jogador: show de bola.

 

Gilmar (carreira):

1987/88 – Santo Antônio FC (BR)

1988 – 1992 – Democrata-GV (BR)

1992/93 – Al-Ahli Jeddah (SA)

1993/94 – Desportivo de Chaves (POR)

1994/95 – 1998/99 – Vitória Sport Clube (POR)

1999/00 – Boavista (POR)

2000/01 – Desportivo de Chaves (POR)

Imagem 7 – Como jogador, Gilmar conheceu três países: Brasil, Arábia Saudita e Portugal.

 

Autor: André Rodrigues

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