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Entrevista Exclusiva a Hugo Marques – Vida de Guarda-Redes

Entrevista Exclusiva a Hugo Marques – Vida de Guarda-Redes

Hugo Marques, o actual guardião da baliza do histórico Farense conversou com o BomFutebol. Uma viagem sobre a sua carreira e o momento actual, bem como o lançamento da sua aplicação ScouterFoot.

Lançaste a ScouterFoot, uma rede social vocacionada para o futebol. Podes explicar aos nossos leitores em que consiste a aplicação ?

Hugo Marques – A ScouterFoot foi pensada e criada para que os jogadores se possam promover e mostrar ao mundo do futebol o que têm evoluído. Partilhar com todos o que é a vida de jogador, no fundo é uma rede social só direccionada para o futebol.

Quais são os próximos passos da aplicação? Alargar a treinadores e outros agentes do futebol?

Hugo Marques  – Agora numa segunda fase iremos fazer “parcerias” com grupos de agentes desportivos. Podem seguir os craques e poderão ver possíveis novos jogadores para a “carteira” deles. Depois iremos juntar os clubes, já que temos inseridos os jogadores (as), os adeptos (as), treinadores (as), e claro haverá sempre novidades a acrescentar durante o crescimento da ScouterFoot. Os jogadores terão sempre um papel fundamental na evolução da rede social.

É uma aplicação para profissionais, amadores, jogadores mais jovens etc. Todos estão no mesmo patamar nessa rede social?

Hugo Marques – Sim, estão todos no mesmo patamar. Até na base de dados criada há clubes de todo o mundo e escalões. Desde campeonatos amadores até aos campeonatos de elite. Em Portugal temos todos os clubes do Campeonato de Portugal até à I Liga. Caso não exista algum clube, o jogador tem a possibilidade de adicionar, basta enviar uma mensagem para nós com o nome da equipa. Todos contam e todos têm uma história para contar. O sonho é para todos, desde o futebol feminino, passando pela formação e o futebol profissional.

Que factor diferenciador achas que pode capitalizar a ScouterFoot ?

Hugo Marques – Acho que será muito importante, porque será sempre diferente teres um kick (like na ScouterFoot), ou teres um comentário de um treinador ou colega de equipa, ou até mesmo de um clube ou agente. É uma forma de fazer o jogador ainda mais especial. Saber que existe alguém do mundo do futebol atento ao desenvolvimento dele na época em curso. É uma app pensada para o futebol e todos os envolvidos têm de aproveitar.

ScouterFoot

És um guarda-redes que no inicio jogava à frente. Na baliza ou a avançado, a paixão pelo jogo está acima de tudo?

Hugo Marques – Sim, acima de tudo a paixão pelo futebol. Sabendo que a posição de guarda-redes é muito dificil, mas ao mesmo tempo na minha opinião, a mais importante. É sempre o ultimo a cair numa equipa, e hoje em dia, já se celebram defesas como se de um golo se tratasse.

Com a tua experiência, como olhas para a forma como os miúdos aprendem o jogo nos dias de hoje. Deixou de se jogar à bola?

Hugo Marques – Hoje em dia as coisas estão diferentes do antigamente. Assim como no meu tempo de miudo também era diferente do tempo dos mais antigos. Acho que é como na vida, tudo muda e temos de estar preparados para tal. A única pena que tenho é que com o tempo se vai perdendo um pouco a essência do futebol. Tem de se jogar a bola com uma pedra, uma lata e até pacotes de leite vazios. A verdadeira irreverencia e magia vem dai, do futebol de rua.

Que ensinamentos ainda guardas da tua etapa na formação?

Hugo Marques – Algo que nunca vou abdicar é do respeito para com os mais velhos, da chamada mística e de nunca desistir. Nunca podemos pensar que está tudo feito ou ganho. No futebol não há relaxamento. Detestar perder uma “peladinha” para mim vem do meu feitio, mas também vem da competitividade que sempre esteve presente na minha formação no Varzim e no F.C. Porto.

Concluíste a formação no F.C. Porto. Como foi passar por um grande do nosso futebol?

Hugo Marques – Ter a oportunidade de fazer formação num clube com a mística e grandeza do F.C. Porto não é para todos. Fico grato com tudo que lá ganhei como homem. Tive o prazer de trabalhar com jogadores míticos. Foi uma aprendizagem enorme e até hoje carrego comigo tudo que eles me passaram. Desde o Jorge Costa, Pedro Emanuel, Hélder Postiga, Bruno Alves, Paulinho Santos, Aloisio etc etc. É algo que fica para sempre connosco, seja no futebol , seja fora dele.

Jogaste no Campeonato Angolano, ficam certamente muitas histórias para contar. Como foi a experiência?

Hugo Marques – A nível psicológico, só joga no campeonato angolano quem for forte. A pressão posta no jogador não é saudável. Quem joga lá, joga em qualquer lado do mundo. Guardo memórias fantásticas e memórias muito negativas que só se ultrapassam com coragem e um carácter forte. Ser o melhor guarda-redes do Campeonato e jogar perante 45 mil pessoas num derby, foi um momento alto da minha carreira. Nesse jogo fiz a defesa da década e fui considerado pela critica, o melhor em campo. Algo para nunca mais esquecer.

Ao serviço do 1º Agosto em Angola ( fonte: http://www.redeangola.info )

Acabaste por ser internacional Angolano. Como foi participar na CAN ? ( Campeonato Africano das Nações)

Hugo Marques – Foi uma experiência única, porque nem todos os jogadores podem dizer que têm duas grandes competições com duas selecções diferentes. Um Mundial sub-17 com Portugal, e uma CAN com Angola. Ser Internacional era um sonho e foi concretizado. Jogar ao lado de um histórico como o Kali, foi mais um titulo que a vida me deu.

Que realidade encontraste no regresso ao futebol português ? 

Hugo Marques – Quando regressei vi que, em 4 anos, tudo tinha mudado. O caminho para chegar ao topo estava muito mais facilitado. Em termos de formação, a ideia não está errada, mas acho que não se pode por jovens no céu tão rapidamente. Dai em falar na diferença na parte do respeito e da mística. Em termos de apostar no que é nosso, achei uma boa diferença. Existe uma maior aposta em jogadores da antiga 2ª B. Uma realidade que já devia existir há muito tempo.

O Farense é um histórico. Acredita num regresso a curto prazo do clube à I Liga?

Hugo Marques – Não tenho duvidas que, se esta direcção se mantiver, juntamente com a equipa técnica, e um núcleo de jogadores  sérios. Tenho a certeza que passando alguns anos será uma dos sérios candidatos à subida à I Liga. Mas antes temos pela frente um play-off muito duros, e só depois podemos pensar nisso. Como se costuma dizer, ganhar dá muito trabalho.

O Campeonato de Portugal é uma prova muito dura. Joga-se BomFutebol no CP?

Hugo Marques – Sim, é uma prova dura, não se pode facilitar em nenhum jogo. As pessoas olham para o nosso trajecto e pensam que foi fácil, mas não foi. A diferença para nós, é que nunca facilitámos nos jogos que diziam que eram fáceis e que íamos golear. Essas equipas acabaram por tirar pontos a outros concorrentes directos. Agora vem a fase mais dificil . Vamos estar fortes, não podemos controlar tudo, mas na parte que nos toca, não vamos facilitar.

Que mudanças notas dos tempos iniciais da tua carreira até à actualidade ao nível do treino dos guara-redes?

Hugo Marques – Noto muita diferença, ainda apanhei treinos que tínhamos de defender 8 a 10 bolas em cada exercício. Hoje em dia esta muito diferente, mais parecido com o jogo, onde é impossível defenderes 8 bolas seguidas na mesma jogada. Vejo os guarda-redes mais presentes no jogo da equipa, mais no jogo com os pés e treina-se tudo e não apenas os chamados treinos de coça. Existe um cuidado mais especifico, o guarda-redes já não é só para defender, mas também para jogar.

O Rivaldo era um pesadelo, ou um desafio nos treinos ? ( Foi colega de Hugo no Kabuscorp )

Hugo Marques – O Rivaldo foi uma agradável surpresa, quer a nível de treino, quer como pessoa. Aos 40 anos corria mais do que muitos, e a qualidade continuava lá. Fazíamos muitas apostas de penaltis e livres fora da área, exercícios de reposição de bola também. Perdi quase todas, mas sempre que ganhava sentia que o tinha feito a um Campeão do Mundo e da Liga dos Campeões. São momentos que vou levar comigo para o resto da vida. Ainda vamos falando e brincamos com isso. Um abraço para ele e para a família linda que tem.

O Teu BomFutebol

Um jogo inesquecível : 

Tenho muitos jogos que estão na minha memória, mas gostava muito de este ano, ter para contar, o jogo da subida de Divisão com o Farense. É o titulo que mais quero neste momento.

Um colega Top:

Durante anos tive alguns que me marcaram por várias razões. Colegas de viagem, colegas de vida, colegas de profissão. Não posso nomear um, ainda este ano ganhei mais um especial , seria injusto mencionar apenas um.

Um ritual que não dispensas :

Agradecer a Deus antes de cada jogo e pensar na minha mulher e nos meus 3 filhos. É algo que me faz bem e me deixa em paz.

Um treinador marcante:

Dou a mesma resposta que dei acerca do colega. Tive treinadores que me marcaram e ainda marcam. Fizeram de mim um guarda-redes melhor e um ser humano mais completo. Todos me ensinaram coisas boas e talvez só um não queria voltar a apanhar na carreira. Mas como disse não vou nomear apenas um.

Um ídolo:

Todos temos um ídolo não é? De posição tive o Vítor Baía, mas tive alguns que não são da minha posição. O Bruno Alves, o Luís Coentrão e revejo-me muito no Neca ( actual capitão do Farense ). Muito pelo carácter deles e pelo que me deram e ainda dão nos momentos que passamos dentro e fora do campo. Sem nunca esquecer os demais. Mas estes são exemplos para todos os jogadores. Deixar aqui também um abraço ao meu amigo pessoal Filipe Santos ( amigo de infância ). Para mim é uma das melhores pessoas do mundo, mas que não joga futebol, dai nunca ter tido a oportunidade de falar dele.

Um Estádio:

Vou falar de 5 estádios que marcaram a minha vida. Primeiro o Pelado do Varzim , onde tudo começou e me orgulho de ter la ficado muitas vezes aleijado, de lado nas pernas por causa do terreno. Depois o Mini Estádio do Olival, onde fui campeão nacional pelos Juvenis do Porto. Em terceiro o Estádio do Gil Vicente, onde apanhei dos melhores grupos na minha vida profissional. Em quarto, o Estádio Nacional de Angola, aquela defesa perante 45 mil pessoas foi perfeita. Depois o São Luís, onde voltei a ser feliz e sentir-me vivo para o futebol num palco mítico do futebol português.

Percurso Desportivo
Formação: Varzim; F.C. Porto

U. Lamas ; Vila Meã ; Gil Vicente ; Tirsense ; Kabuscorp ; 1º Agosto ; Sp. Covilhã ; Farense

Queria agradecer esta entrevista e desejar toda a felicidade para o vosso projecto. O futebol precisa de pessoas como vocês. Agradecer à minha família, por fazer de mim quem sou e por me fazerem sentir feliz todos os dias. Um abraço Hugo Marques, mais conhecido por Choco

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