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A (In)Cultura Desportiva em Portugal

A (In)Cultura Desportiva em Portugal

Após o término da prestação da selecção portuguesa na Taça das Confederações mais uma vez ficou a descoberto um dos problemas que assola o nosso panorama desportivo. Não estou a falar do que a selecção portuguesa de Futebol produz. Se pode ou não jogar melhor. Falo sim da falta de cultura desportiva, e por arrasto futebolística, em Portugal.

Após a derrota com o Chile, no desempate por penalties, nas redes sociais choveram comentários negativos da prestação de Portugal e das escolhas de Fernando Santos. Quando há um ano atrás a mesma forma de jogar, com basicamente os mesmos jogadores e opções tácticas idênticas a reacção foi maioritariamente a oposta. Aliás, tanto nas redes sociais como na imprensa era só elogios e verdadeiras odes dedicadas aos bravos heróis lusitanos.

Imagem 1 – Tristeza de Ronaldo após derrota com o Chile – Fonte: www.adeptosdebancada.com

Este contraste de pensamentos e reacções bipolares são típicas do ser português. Não me interpretem mal. Eu amo ser português e ferve-me o sangue ouvir um estrangeiro a depreciar o meu belo país ou as minhas gentes. Mas é preciso ver as nossas falhas para podermos crescer enquanto portugueses.

Imagem 2 – Portugueses encheram as ruas para receber com orgulho os campeões europeus – Fonte: www.jn.pt

Ganhando, Tudo Bem vs Perdendo, Tudo Mal

Em Março deste ano foi lançado um artigo de reflexão no BomFutebol sobre os 6 Cancros do Futebol Português. Título forte e algo polémico, pensei eu na altura. Mas depois de ler tudo o que foi escrito tinha, e tem, lógica. Ficou foi a faltar um sétimo mal no nosso futebol. O público!!!

Sim, nós em geral, somos um dos males que afecta o futebol em Portugal! A nossa cultura desportiva/futebol, está assente na premissa de que se ganhamos está tudo bem, independentemente da forma como o fizermos. Mas se perdermos, todo o processo até ao resultado final é inútil e desadequado.

Não interessa se a equipa joga bem ou mal, o que interessa é que ganha!. Não interessa se os valores do Fairplay são cumpridos ou não! O que interessa é a equipa ganhar, a todo o custo! Isto não é cultura desportiva ou futebolística. Isto é cultura de clube a roçar a clubite! O que infelizmente é o que se passa em grande maioria no nosso país.

Uma pessoa com uma verdadeira cultura desportiva sabe avaliar que quando a sua equipa ganha, nem sempre significa que foi a melhor em campo. Poderá ter sido sim a mais eficaz nesse jogo mas que tem potencial para produzir mais do que que mostrou. Da mesma forma que se a sua equipa perder, saberá analisar se os jogadores fizeram de tudo para alcançar a vitória ou não. Assumindo, sem pudores e rodeios, a superioridade da equipa adversária em boa parte dos momentos do jogo, se isso for por demais evidente.

Quem gosta verdadeiramente de futebol, gosta do jogo! Não fica refém de clubes. É óbvio que cada um tem o seu clube e a paixão pelo seu clube. Contudo a grande maioria dos portugueses que se dizem entendidos em futebol, que dizem que gostam de futebol e que falam de futebol, falam do seu clube, do que se passa em redor do seu clube e não do jogo em si. Ter uma verdadeira cultura desportiva (futebolística) é assumir o gosto pelo futebol, pelo seu clube mas sem receio de admitir a superioridade de um adversário. Não há espaço para o receio de gostar menos do seu clube se gostar mais do futebol em si.

Cultura Desportiva, Sinónimo de Exigência

Uma pessoa com cultura desportiva não é complacente, não arranja desculpas e não se acomoda com a derrota. Pelo contrário, até é mais exigente, já que deseja aliar o sucesso desportivo com um processo de jogo igualmente atractivo. Sabe reconhecer a qualidade e excelência de um bom jogo de futebol por parte da sua equipa, mesmo que isso não signifique que ganhe sempre. Sabe que jogar um futebol atractivo de forma consistente poderá não ser suficiente para ganhar todos os jogos. Mas sabe que deixa a sua equipa mais perto da vitória de uma forma consistente.

Ter este nível de exigência a larga escala em Portugal, seria uma evolução significativa para o nosso futebol. Vejam o que se passa em Inglaterra e na Alemanha. Países com uma forte cultura desportiva, sendo que a exigência do público vai mais além do que simplesmente ganhar jogos. Eles querem é ver um futebol atractivo. Um futebol que os faça vibrar, cantar, sonhar e desejar por mais. E pagam com bom grado os exorbitantes preços dos bilhetes que são cobrados nesses países. Sendo um fenómeno assistir a um jogo de futebol nesses países, sem que o estádio esteja lotado.

Imagem 3 – Estádio do Borussia de Dortmund completamente cheio – Fonte: www.trivela.uol.com.br

Em Portugal o fenómeno é um estádio esgotar. Se para mim, que vejo um jogo pela televisão com o estádio vazio, é desolador imagino quem joga o que sente. Esta é a realidade em Portugal, com excepção para os jogos dos chamados clubes grandes e dos jogos disputados em Guimarães. As pessoas não estão dispostas a gastar dinheiro no bilhete, seja barato ou caro, para irem ao futebol. Porquê? Isto porque em grande parte das vezes vão assistir a um pobre jogo de futebol. Como o que interessa é que o seu clube ganhe, basta verem pela televisão ou saberem do resultado do jogo mais tarde.

Imagem 4 – Realidade da maioria dos estádios de futebol em Portugal – Fonte: www.geracaobenfica.blogspot.pt

O que interessa é ganhar, a exigência está no ganhar, e quem joga procurará usar de todos os subterfúgios para o conseguir. Por isso é recorrente nos jogos em Portugal o recurso a artimanhas para perder tempo de jogo útil. É recorrente a tentativa de iludir o árbitro na busca de qualquer vantagem significativa. É recorrente o uso de estratégias de jogo reducionistas e sem apelo ao exaltar da excelência futebolística. É recorrente o uso de tudo menos o recurso a um futebol atractivo. Uma verdadeira cultura desportiva exige a vitória mas como consequência de um processo de jogo atraente e bem estruturado. Ou seja, mais importante do que a meta final é como se chega lá.

Utopia Futebolística

Imaginem como seria se todos os portugueses exigissem que os seus clubes jogassem um futebol atraente. Um futebol com golos, emoção, fintas, dribles, desarmes e muita alegria. Um futebol com a mesma exigência de vitória mas uma maior exigência da qualidade de jogo em si. Um futebol que fosse um espaço para se atingir a excelência desportiva e humana.  Os jogos seriam mais interessantes a todos os níveis. Os estádios voltariam todos a encher-se de fervorosos adeptos de FUTEBOL, independentemente do clube. O futebol português como marca económica ficaria mais forte pelo mundo fora. O interesse de mais investidores e de espectadores estrangeiros dispostos a verem o nosso campeonato aumentaria as receitas dos clubes. Os quais depois poderiam usufruir de melhores condições para melhor o futebol apresentado.

Imagem 5 – Que o futebol em Portugal seja sinónimo de festa – Fonte: www.coimbrajornal.com

Temos jogadores com qualidade no nosso campeonato. Jogadores tecnicamente evoluídos. Tacticamente inteligentes. Fisicamente capacitados. Psicologicamente motivados. O que falta para que este sonha possa começar a ser cumprido? Falta um público português que deseja ter cultura desportiva. Para podermos exigir dos outros, temos de exigir de nós.

Queremos mudança no nosso futebol? Queremos mais qualidade do que a que temos agora? Comecemos primeiro por mudar a nossa mentalidade e a nossa forma de ver o futebol. Quem quer mudança tem de se mudar a si primeiro. Chegou a hora de exigir mais qualidade, mais Bom Futebol.  Este será o primeiro passo para esta utopia futebolística.

 

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