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Reduzir sem empobrecer… um dos grandes fundamentos da periodização

Hugo Martins na India

Reduzir sem empobrecer… um dos grandes fundamentos da periodização

O Desporto e fundamentalmente o Futebol têm vindo a assumir-se na nossa sociedade como um dos mais importantes acontecimentos no nosso dia a dia e um fenómeno de elevada importância no quadro da cultura desportiva contemporânea.

Estima-se que o Desporto como actividade económica representa 2,5% do comércio mundial e cada vez mais é olhado como um produto gerador de educação, de cultura, de lazer, no quadro da organização social dos países.

Como tal quando a oportunidade de trabalhar na All India Football Federation com vista à preparação para o Mundial de Futebol Sub-17 realizado naquele País, senti que o desafio era extremamente emocionante pelo que decidi entrar em acção.

A preparação de uma estreante num Mundial de Futebol

No inicio foi extremamente importante adaptar ao contexto segundo as dificuldades dos jogadores, as dificuldades ao nível do número de atletas e as dificuldades ao nível do tempo de preparação e logicamente às diferenças socioculturais e religiosas.

Numa primeira fase do trabalho procurou-se conhecer os jogadores, observar novos atletas para no final selecionar um grupo de jogadores com o perfil mais próximo dos conceitos e ideias de jogo para equipa.

Preparar uma equipa para uma competição com a dimensão de um Mundial de Futebol em 7 meses num País onde o Críquete é o primeiro desporto da nação foi extremamente desafiante.

A tarefa de representar, divulgar e promover a modalidade no País pressionou para que a nossa imagem fosse a de uma equipa com coragem, solidária, unida e organizada.

A primeira participação de uma equipa Indiana num Mundial de Futebol, a ausência de competições nacionais nos escalões mais jovens e a menor cultura tática dos jogadores levaram a que a prioridade fosse trabalhar as nossas debilidades. Contudo para isso estabelecendo uma visão sedutora do futuro, exibindo otimismo e entusiasmo, fatores que se crê transmitirem esperança no futuro e um objetivo comum.

A Índia e os valores tradicionais

A sociedade tradicional da Índia está definida como uma hierarquia social relativamente restrita. Apesar de progressivamente ter diminuído devido à urbanização e medidas determinadas pelo o estado, o sistema das castas é caracterizada pela transmissão hereditária de um estilo de vida que vulgarmente inclui uma profissão.

Ainda assim os valores tradicionais das famílias indianas são muito respeitados e o modelo patriarcal tem sido o mais comum durante séculos. A maioria dos Indianos têm os seus casamentos arranjados pelos seus pais e o matrimônio planeado para toda a vida.

Como tal devido ás sentidas enormes diferenças sociais e culturais houve a necessidade de uma forte estimulação intelectual com a finalidade de levar os jovens jogadores a questionar-se, não só a si mesmo, como também a todo o processo da equipa, motivando deste modo os atletas a serem participativos, inovadores e criativos na resolução conjunta dos vários desafios do grupo.

A complexidade humana

O índice de trabalho, o auto-sacrificio em prol do todo e os elevados padrões éticos revelaram-se ao longo do tempo uma segura mais valia deste grupo de jovens.

Apesar das naturais dúvidas tenho observado que o jogador ao movimentar-se durante um jogo movimenta-se não só por imposição tática mas também de acordo com as suas qualidades físicas, intelectuais e morais.  Num jogo de futebol, natureza, cultura, arte, ciência, competição e cooperação ligam-se como elementos do mesmo todo, portanto é a complexidade humana que o treinador deve saber trabalhar e motivar.

Procuramos ver o Homem para além do desportista e muito nos interessa o seu bem estar dentro e fora do trabalho porque cada ser humano é único e diferente. E para sermos confiáveis e de confiança é nos exigido competência, honestidade, coerência e preocupação com os outros.

O adversário mais complicado de todos foi construir a equipa, ajudá-la a crescer e a desenvolver-se segundo as nossas ideias, com a nossa ideia de jogo, aquilo que é matriz, aquilo que são os nossos princípios, hierarquizando-os e vivenciando-os com a integração de todas as variáveis no modelo de relação.

A humanização do treino

Na verdade as prioridades no inicio da construção de um modo de jogar, até porque na altura ainda não tínhamos os adversários definidos para a competição, foram o de “olhar para dentro”. Trabalhámos desde o primeiro dia alguns dos princípios e sub princípios, que seriam reguladores de todo o nosso modelo. A motivação, o anteriormente referido índice de trabalho, o espírito coletivo e a enorme vontade em aprender transmitiram-nos segurança e confiança no desenvolvimento individual e coletivo destes jovens jogadores.

Na cultura Indiana valoriza-se tanto a mentalidade competitiva como a humildade individual e não é raro vislumbrar a submissão deste povo e destes jovens. Foi a partir do nosso treino e vivencias ao longo de 7 meses entre estágios e múltiplas viagens que procurámos influenciar para o nascimento de um novo tipo de Homens. Propusemo-nos a manter e orientar a forte mentalidade competitiva dos jogadores, a desenvolver e reforçar a sua capacidade de decisão, a desenvolver a sua autonomia e não menos importante diluir a sua marcante submissão.

Foi portanto através de um processo de Humanização do treino que acreditámos provocar a evolução do Homem, do desportista. A comunicação foi uma das grandes ferramentas ao longo de todo o processo na tentativa de aperfeiçoar as aptidões e potenciar uma boa interação de todos os meios envolventes ,“as coisas são as relações que têm”. Como tal foram planificadas sessões de treino com uma atividade global, apesar de diferentes dominantes nos exercícios operacionalizados e flexíveis na sua aplicação.

“No Futebol o sujeito do discurso é o ser humano que, em equipa e em grupo e motivado, se transcende, mesmo nos momentos difíceis da derrota.”

Autoria: Hugo Martins

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