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Início de Carre(i)ra promissor

Início de Carre(i)ra promissor.

Primeiro trabalho como treinador principal e logo com um inesperado título. Fonte: The Gentleman Ultra

De figura defensiva no eixo da Juventus, no início dos anos 90, Carrera tornou-se no discreto adjunto de Conte. A falta de vontade do Chelsea em pagar mais este adjunto levou-o a Moscovo para assumir o treino defensivo do Spartak, mas a demissão de Alenitchev em Agosto traz o antigo internacional italiano para o comando, com máximo sucesso.

Carrera começou no Pro Sesto. Aos 22 anos ruma a Bari e é aqui que ganha dimensão enquanto defesa, ao ponto de Trapattoni o resgatar para a Juventus. Na ‘Vecchia Signora’ é campeão italiano, vence uma taça de Itália, uma Liga dos Campeões, uma Taça UEFA, uma Intercontinental, uma Supertaça, entre outros títulos. Foram cinco temporadas de tapa-buracos. Trapattoni colocou-o como lateral direito, contudo Lippi viu nele o típico líbero, posição que ocupou mas cujo espaço viu toldado pela chegada ao clube de Vierchowod. Em 1996 muda-se para Bérgamo e não muito depois já era o capitão da Atalanta. Com carreira longa, aos 39 anos troca a Atalanta pelo Nápoles, ainda faz uma época no Treviso e aos 41 assina pelo Pro Vercelli, onde se manteve três épocas, apenas pendurando as chuteiras aos 44 anos!

Foi no Bari que Carrera ganhou a dimensão de líbero que o levou até à Juventus. Carrera é o terceiro em pé a contar da esquerda Fonte: Futbolgrad

A vitória na Liga dos Campeões, onde constava também Paulo Sousa. Fonte: Museo Grigio

Duelo de capitães, duas referências da Juventus, Carrera na Atalanta, ‘Il Codino Divino’ Roberto Baggio no Brescia. Fonte: Museo Grigio

Chegava a fase de banco. Carrera regressou a Turim e assumiu o cargo de Coordenador Técnico dos jovens ‘bianconeri’, estávamos em 2009. O regresso de Conte, seu companheiro nos tempos de futebolistas em Turim, trouxe Carrera para os seniores, parte da equipa do antigo médio. Carrera assume mesmo o papel de treinador principal da Juventus durante o período de suspensão de Conte e de Alessio, o primeiro adjunto, e vai bebendo dos ensinamentos do amigo.

A saída de Conte da Juventus em 2014 arrasta toda a equipa técnica, onde se inclui Carrera, que ruma com o ‘chefe’ para a selecção nacional italiana.

Na equipa técnica transalpina. Fonte: Museo Grigio

Tudo se encaminhava para que permanecesse com Conte durante o trajecto deste. Carrera sentia-se confortável no papel atribuído, sem ambições a curto prazo de ser treinador principal.

A direcção do Chelsea, contudo, limitou Antonio Conte à escolha de quatro adjuntos ‘seus’, a equipa que apoiava Conte era de seis, ou seja, dois ficaram de fora, um deles Carrera.

Foi um balde de água fria para o antigo defesa que, de repente, ficava no desemprego e sem uma perspectiva de futuro.

A estreia de Carrera como treinador principal não foi muito mediatizada. Fonte: Sky Sports

A mão de Conte voltou a sentir-se no trajecto de Carrera. O treinador de guarda-redes Gianluca Riommi, no Spartak Moscovo há uns três anos, tinha sido incumbido pela direcção da ‘Narodnaya Komanda’ de encontrar um italiano para assumir a orientação defensiva da equipa principal. Riommi havia estado com Conte no início de carreira técnica deste no Arezzo e contactou o técnico do Chelsea, que lhe sugeriu de imediato Carrera.

Inesperadamente, Carrera estava no frio moscovita para assumir o trabalho defensivo com o plantel. O destino voltava a dar a mão ao antigo defesa.

O chefe de equipa era Alenitchev, o antigo criativo internacional russo que chegou a brilhar com o FC Porto. Antigo futebolista do Spartak Moscovo, acabou por não resistir no clube – ele que fez um trabalho notável no Arsenal Tula, guindando o clube do terceiro escalão até ao topo do futebol russo. Em Agosto, estava a temporada a começar, Alenitchev é demitido. Carrera, que havia iniciado 16/17 com a enorme desilusão da recusa do Chelsea em que integrasse a equipa técnica, vê-se com o desafio de liderar a ‘Narodnaya Komanda’, sem falar russo, ainda a procurar ambientar-se a uma liga, um clima, uma cidade tão distinta daquilo a que estava habituado.

A solução era temporária, os dirigentes do Spartak Moscovo pretendiam contar com o mágico Kurban Berdiyev, o homem que guindou o Rubin Kazan à condição de campeão e quase o repetiu pelo Rostov em 15/16, o homem do ‘Rosário’, contudo a solução Berdiyev revelava-se complicada e o bom desempenho do Spartak convencia os dirigentes. Carrera assumia a equipa definitivamente.

Avassalador no domínio pós-URSS, o Spartak Moscovo estava sem ganhar o campeonato desde 2001. Depois de obter nove dos primeiros 10 campeonatos depois da dissolução da União Soviética e estabelecimento da Federação Russa, o ‘Clube do Povo’ não mais conseguia conquistar a liga russa, vice-campeão em 2005, 2006, 2007, 2009 e 2012, parecia ter caído uma maldição sobre o clube.

O enorme sucesso de Romantsev tinha criado um peso demasiado forte para os sucessores. O letão Starkovs, a estrela Karpin e o espanhol Emery pareceram, a certa altura, próximos de quebrar a ‘maldição’, contudo foi necessário aguardar 16 anos e um ‘inexperiente’ – como treinador principal – italiano, o segundo a assumir os destinos do clube, depois de Nevio Scala (2003-2004) ter passado sem grande efeito pelo clube, para que voltassem a sair à rua os adeptos do Spartak Moscovo na celebração do tão aguardado campeonato.

A inesperada eliminação nas preliminares rumo à Liga Europa levaram Alenitchev a demitir-se. Carrera começava a implementar o modelo ‘Conteano’, construção desde trás, futebol apoiado, como o próprio já o disse em várias entrevistas, Conte é a ‘Universidade do Futebol’ e foi um excelente professor para Carrera.

O site The Gentleman Ultra analisa a táctica de Carrera, abrem os centrais, descai o médio mais recuado para o meio deles, iniciando-se assim o processo de construção.

A primeira fase de construção do Spartak de Carrera. Fonte: The Gentleman Ultra

 

Abrem os centrais. Fonte: The Gentleman Ultra

Os centrais mais utilizados foram o italiano Salvatore Bocchetti, Ilya Kutepov e Serdar Tasci, dos três usou comummente dois, que abrem completamente no início da construção, permitindo linhas de passe mais amplas e saída de bola diversificada.

Os dois laterais bem subidos, o médio defensivo ocupa posição entre os dois centrais, a equipa constrói com uma base de retaguarda de três homens, liberta os laterais ofensivamente à linha, permitindo aos alas flectirem para o interior e criarem duplo desequilíbrio, laterais à linha, alas no interior.

Os laterais bem subidos, outra imagem de marca. Fonte: The Gentleman Ultra

 

O antigo ‘Galo’ Zé Luís serviu como principal referência ofensiva, o cabo-verdiano vê bastas vezes Quincy Promes aparecer junto de si oriundo do flanco, surgindo como segundo ponta, enquanto Ananidze tem maior liberdade e ocupa por vezes o lugar do ‘criativo’ Ivelin Popov, que baixa no terreno para ter mais espaço para pensar e fazer jogar.

Uma das formas de baralhar o adversário é acumular futebolistas num dos lados do terreno, arrastando os oponentes para aí e libertando o lado oposto para a entrada, habitualmente, do lateral.

A estratégia do caos enganoso. Fonte: The Gentleman Ultra

As dinâmicas trabalhadas exaustivamente durante a semana são a chave do sucesso, mais do que olhar para o papel e ler esquemas tácticos inertes, é necessário observar o jogo e compreender as movimentações e a forma como se envolvem os futebolistas. Os desequilíbrios fazem-se assim. Abaixo, note-se como os alas se aproximam do médio criativo, abrindo espaço à entrada nas costas dos laterais opositores dos laterais da equipa.

As dinâmicas são a força do futebol. Fonte: The Gentleman Ultra

Mais uma vez se percebe como o importante perceber e interpretar no ‘Belo Jogo’ são as dinâmicas das movimentações, aqui com o ala a buscar dentro e o médio ofensivo a puxar à linha, arrastando marcações e assim se desequilibrando todo o alinhamento adversário.

As dinâmicas, sempre. Fonte: The Gentleman Ultra

Defensivamente a equipa posicionou-se habitualmente em 4-4-1-1 ou 4-4-2, deixando Ananidze mais liberto na primeira linha de pressão com o dianteiro.

Atrás, o bloco sempre se mostrou apertado e atento às movimentações adversárias. Muitos vão escrevendo e partilhando sobre a ‘régua’ defensiva, algo que deveria também ser revisto. As constantes movimentações – estamos a falar de desporto com seres vivos e não de matraquilhos – obrigam a resposta por parte do oponente e o alinhamento em v, ‘umeral’, acaba por se ajustar mais à realidade do futebol, sempre próximos, mas saindo – curto – na pressão sobre a zona da bola.

O alinhamento defensivo do Spartak. Fonte: The Gentleman Ultra

Os médios saem bem na pressão e ainda que, como o ‘mestre’ Conte, Carrera não seja grande adepto de transições, a capacidade recuperativa dos médios e a velocidade de Quincy, a par da criatividade de Ananidze, deram-lhe possibilidades de fazê-lo ocasionalmente.

Ainda não findou a liga russa, mas já alinharam Rebrov, o guarda-redes, Roman Zobnin e o brasileiro Fernando, o par de médios, Dmitri Kombarov, o lateral-médio esquerdo, Quincy Promes, um dos alas, Kutepov, central e uma das revelações da liga, o médio centro Glushakov, o lateral direito Eshchenko, o avançado cabo-verdiano Zé Luís, o germano-turco Tasci, os criativos Ivelin Popov e Ananidze, o italiano Boccheti, o ex-Benfica e ex-Castor Melgarejo, o central brasileiro ex-Sporting Maurício, o central russo-georgiano Jikia, o médio Samedov, os brasileiros Rômulo e Luiz Adriano, o lateral esquerdo Makeev e os jovens Zuev, médio ofensivo, Davydov,  ponta-de-lança, Tigiev e Kutin, defesas direitos, Timofeev, médio de cobertura, e Putsko, central, no regresso do clube ao topo do futebol russo.

Carrera, um treinador para a história?

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