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O Mercado e a Vida dos Clubes

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O Mercado e a Vida dos Clubes

Chegado o final da época desportiva inicia-se uma fase caracterizada não só pela incerteza e pela ilusão, mas também por uma gritante falta de visão e estratégia. Um período em que se muda invariavelmente, mas em que quase sempre se percebem mal quais os critérios e intenções subjacentes a essas mudanças, muitas vezes pobremente justificadas com a necessidade de resultados imediatos.

Quais os fundamentos e a regulamentação necessária para uma actuação que promova o jogo e a modalidade na sua generalidade?

 

As consequências de um sistema de competição selvagem.

Os resultados imediatos e o lucro têm uma preponderância de tal ordem na lógica de funcionamento da gestão desportiva actual que se tornam um fim que justifica todos os meios, legítimos ou não. Esta é uma problemática agudizada por um sistema que possibilita uma variedade de ferramentas que tornam insustentável uma actuação que tenha como tapete a noção ética e conjunto de valores que nos possam guiar em direcção a um crescimento sustentável.

O acesso às mais habilidosas formas de financiamento, a falta de controlo da proveniência do dinheiro que é investido, a falta de regulamentação séria e coerente quer sobre investimentos, quer sobre contratos, tornam este meio uma selva em que o canibalismo é aceite como sendo normal.

Esta cadeia, podendo parecer distante, tem consequências directas no posicionamento de todos os intervenientes desta área. Deste modo, é comum sentirem-se ondas de mudança avançar de forma descendente, sendo os clubes mais poderosos a liderar os movimentos e vagas que vão desaguar nas associações que nos são mais próximas, visto que à falta de normas quem dita leis é quem tem poder para isso.

Infelizmente isso resulta, em última análise, numa total precariedade para a maior parte dos principais agentes deste jogo (porque a maioria dos praticantes não se situa na dita alta-competição), numa ausência de possibilidades de desenvolvimento da generalidade dos clubes a médio/longo-prazo e, naturalmente, no empobrecimento do grosso das competições (que se tornam cada vez mais em guerras para aniquilar os oponentes ao invés de confrontos que promovam a evolução de ambos).

A mudança necessária no posicionamento dos clubes.

Os clubes, na ânsia de sobreviver, vêm-se perante uma série de dilemas incontornáveis: Sabem necessitar de resultados imediatos para ter acesso a recursos, mas isso pode hipotecar o seu futuro. Desejam um crescimento sustentado, mas não podem esperar pela construção e formação das condições necessárias.

Na resolução destes problemas assistimos muitas vezes a uma fuga para a frente, tentando conciliar aquilo que são tendências evolutivas contraditórias, e que terão os seus custos quando desprezadas. É comum assistirmos a casos de endividamento excessivo que leva posteriormente à quebra de compromissos assumidos, à cedência a condições pouco rentáveis colocadas por investidores de proveniência duvidosa que à mínima turbulência não estão minimamente preocupados com o clube, e a um sem-número de outras acções que derivam certamente de ignorar aspectos que deviam ser tidos em consideração.

Os clubes precisam de definir linhas limite de actuação, de construir uma visão para si que tenha em conta a sua história e o que pretendem a partir dela (onde se podem posicionar no panorama geral), e na sequência devem elencar um conjunto de estratégias a implementar com vista ao crescimento positivo, mesmo que este não seja linear (será normal, pela natureza do jogo, passar por períodos menos bons).

Este será o princípio para não ficarem escravos dos constrangimentos do mercado e das suas relações perversas, mas também do imediatismo dos resultados que parece, mas não consegue, engolir a grandeza de instituições que são mais do que um jogo de domingo a domingo.

O jogador – Como decidir o futuro?

No meio de tudo isto está o principal motor do jogo: os jogadores!

Poderemos aventar todo o tipo de argumentos e hipóteses para o posicionamento desta classe nesta fase do ano desportivo, no entanto, não deveremos esquecer-nos de que sem eles o jogo não se joga, mas acima de tudo que a vida deles é mais do que o jogo. Isto para que consigamos compreender melhor algumas decisões que vão sendo tomadas, para que possamos encontrar as causas de determinados comportamentos.

Por exemplo: Que ponderação têm as condições monetárias em relação às condições de desenvolvimento desportivo para a decisão do futuro de cada um dos jogadores? É certo que encontraremos respostas diferentes para cada um! Até respostas diferentes do mesmo jogador em fases diferentes da sua vida.

É importante perceber o que representa a carreira nesta profissão para a maior parte dos jogadores, para que possam decidir de forma mais informada ao longo do seu percurso. O conhecimento mais concreto desta realidade pode prevenir situações de abuso (quer por partes de clubes, de empresários, etc.), mas sobretudo contribuir para trajectos mais sólidos na relação do que é o percurso profissional e o desenvolvimento de competências e interesses noutros âmbitos. Tudo para que o futebol não roube vida, mas abra um mundo de possibilidades.

NOTA:

Que importância no mercado poderão ter medidas ventiladas pela UEFA, como por exemplo a implementação de tectos salariais? Assistiremos ao mesmo desprezo como para com o fair-play financeiro?

Que importância terão os contratos colectivos de trabalho se não houver condições de controlo? Qual a pertinência e relevância da existência de um estatuto de jogador federado? E quem diz jogador diz treinador ou dirigente…

Poderiam estas ferramentas concorrer para um desenvolvimento global mais saudável desta modalidade?

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