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Milhões de razões mas apenas uma essencial

Milhões de razões mas apenas uma essencial

O interregno entre épocas desportivas traz diferentes sensações a quem se envolve no jogo, nomeadamente aos agentes desportivos que constituem o tecido organizacional onde assenta a prática desta tão afamada modalidade, mas quantos serão os que sobretudo sentem saudades de ver a bola rolar?

Entre as movimentações maioritariamente cínicas e interesseiras do mercado de transferências, o desenvolvimento incipiente de projectos desportivos a cada nova época, e as qualificações desportivas com motivo quase exclusivamente financeiro, o amor por jogar vai ficando esquecido. E amar o jogo significa amar as pessoas e as relações estabelecidas, amar os hábitos e normas, amar o que somos e não o que temos.

Haverá verdade para lá dos milhões?

O Sport Lisboa e Benfica conseguiu um muito desejado apuramento para a fase de grupos da maior prova de clubes do Mundo (avaliando os jogadores e clubes envolvidos, os valores gerados, etc.), a Champions League. Ao escutar com atenção o discurso do treinador Rui Vitória no final do segundo jogo do playoff é possível destrinçar um artefacto utilizado, ainda que possa ter sido de forma sub-consciente ou com intuito lesivo para terceiros, que parece subverter o que é essencial no jogo: “somámos 42 milhões”.

É isto que os adeptos de futebol precisam de escutar? É isto que motiva os jogadores e treinadores? É este o exemplo que a modalidade quer transmitir à sociedade em geral?

Nos dias que correm seria totalmente descabido acreditar que o futebol não é uma área económica de enorme importância e impacto, e que os clubes não são empresas profissionalmente (no sentido de ter assalariados a assegurar essa função) geridas com intuito final de obter o maior lucro possível, mas é precisamente esta lógica capitalista que se apoderou de tudo e todos que urge ser humanizada.

O canibalismo económico-financeiro que se tornou comum também no futebol vai engordar alguns que vêm os seus interesses defendidos pelos mais variados lobbys, mas desnutrir a maioria que ainda não vê neste jogo milhões, mas apenas uma razão para jogar: o amor!

A razão fundadora!

Com toda a certeza que os jogadores do Sport Lisboa e Benfica, e também todo o staff, sentem e sabem que participar na Champions League é principalmente um enorme desafio competitivo, uma oportunidade de defrontar oponentes de grande valia, uma possibilidade de com isso evoluir e crescer enquanto jogadores/treinadores e homens, mas também um espaço para o clube se desenvolver como um todo e afirmar o seu papel diferenciador na sociedade.

Fazer disso a tábua de salvação financeira para uma época desportiva de um clube é apenas um indicador de como o sistema está pervertido!

Olhar para o espectáculo desportivo através da lente dos prémios de participação, dos direitos televisivos, dos direitos e contratos publicitários, do merchandising, dos valores das transferências, dos salários, prémios e comissões praticados adensa tanto o lodo que se torna impossível perceber com nitidez o que faz do jogo aquilo que ele é.

Existirão muitos e diversos motivos para estar envolvido nesta área, seja directa ou indirectamente, mas que o sistema se refunde sobre a base das razões essenciais que levaram a que esta modalidade tenha a visibilidade actual, e que o futebol continue a primeira ser um espaço de mérito e humanismo.

Da hipocrisia reinante…

É possível concluir independentemente do nível a que estejamos, ou a ligação que tenhamos a este fenómeno, que a falta de regulamentação existente leva a que tenhamos uma imagem clara: neste meio vale tudo (menos arrancar olhos, como costumam dizer).

Todos apelam ao carácter quando lhes convém, mas nem todos o demonstram nas acções determinantes. Todos revelam bons sentimentos quando há interesse, mas nem todos os mantêm quando o interesse esmorece. É por isso comum assistir a situações como a da badalada transferência de Malcom para o F.C. Barcelona, ou o recente imbróglio com Marega no F.C. Porto.

Quando já só se jura amor ao dinheiro, e não ao jogo, a bola que outrora viveu no nosso coração esvazia. Se há algo que o futebol terá de ensinar, é que ser é muito diferente de ter…

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