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O Campo da Minha Rua

O Campo da Minha Rua

Nunca pensei em inscrever-me para jogar, no campo da minha rua… Até porque não haviam inscrições formais para além de estar presente e ter a possibilidade de participar, continuar se o mérito assim permitisse, até as pernas aguentarem, até a sede apertar (nunca apertava), até as solas cederem ao cimento (e mesmo depois disso), ou até o atraso para o jantar ser demasiado obsceno para que não procurassem por mim…

Nunca pedi para jogar, no campo da minha rua… O campo estava lá sempre, para todos, para quem quisesse ir mais cedo, para quem quisesse ir sozinho (tantas vezes), para quem chegava mais tarde e tinha de conquistar dentro do campo o direito de entrar (as vitórias nunca se discutem), para os mais novos, para os mais velhos (era tão bom jogar contra os mais velhos), para todos os que amavam o jogo.

Nunca quis sair, do campo da minha rua… O campo da minha rua era todo o mundo, era toda a minha vida sem eu saber! Os golos sempre valeram Ligas dos Campeões (porque ninguém quer ficar 4 jogos de fora até chegar novamente a sua vez), as fintas da televisão passavam naquele cimento centenas de vezes por tarde, as polémicas apenas aguçavam a intensidade (felizmente não havia VAR), nunca vi ninguém fingir uma falta ou mandar-se para o chão… Queixar-se era como perder, ser ultrapassado e permitir golo uma hecatombe, fazer uma “cueca” estava escrito que devia ter o respeito do silêncio profundo, e a vida corria debaixo de chuva ou 40 graus de temperatura ali à frente, enquanto o tempo para nós parava. No campo da minha rua era só Futebol, mas esse Futebol construiu grande parte de mim e de mais uns quantos!

Quando o Desporto molda o carácter.

“Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.”

Albert Camus

O Desporto, o Futebol em particular, está repleto de potencialidades! Esta área continua a ser, com cada vez mais importância se olharmos as crises que nos assolam, uma plataforma impar para a educação e formação do Homem. Vejamos: perante todas a dúvidas e incertezas, apesar de todas as mudanças, parece ser indiscutível que a Educação é determinante para toda a Humanidade. E num período em que a Educação encarada como mera transmissão de conteúdos deixou de servir os interesses da sociedade, e em que as competências emocionais e comportamentais, que se relacionam directamente com as vivências e a formação da personalidade, estão tão em voga, cabe-nos decidir claramente (aos profissionais do Desporto, que podem proporcionar estas vivências de forma controlada e com intencionalidade) como utilizar esta tão proeminente ferramenta.

Não será rentável lamentar-nos do que já não existe, do que já mudou. Os campos da nossa rua agora são outros, utilizados de outro modo… Isso significa que perderam relevância? Mesmo podendo assumir que a resposta é afirmativa, isso é equivalente a dizer que o Futebol perdeu as condições que permitem educar e formar homens e futebolistas capazes?

Onde fica agora, o campo da minha rua?

Actualmente, o verdadeiro campo da minha rua não tem balizas… Aquela que me caiu em cima do peito já desapareceu! Já não se marcam golos, já não se festeja… Restaram os grafittis como testemunhas da alegria e do prazer, e umas quantas centenas de agora homens que por lá passaram. Todos sabemos quem são os outros… Porque o campo da minha rua tem esta particularidade: é um espelho da alma!

Sabe-se quem vacila perante a pressão de tomar uma decisão difícil, sabe-se quem se esconde quando o companheiro precisa de ajuda, sabe-se quem são os “queixinhas”, sabe-se quem são os que nunca têm culpa de nada, sabe-se quem são os que julgam que sabem tudo… Mas não é só no campo da minha rua. É em todos os campos!

Não pode fazer-se dos novos e modernos sintéticos um local onde o velho Futebol é a ferramenta formativa principal? Onde importa a disponibilidade para se sacrificar antes da cobertura defensiva, onde a coragem é anterior à circulação táctica, onde a entreajuda e disponibilidade para os outros é condição indispensável para poder sequer participar, onde o compromisso é a verdadeira medida de tudo.

Os campos da rua dos nossos filhos e netos serão certamente outros, o jogo que eles jogam está nas nossas mãos decidir qual vai ser!

NOTA:

Hoje em dia, os campos onde jogam a maior parte das nossas crianças estão repletos de gente que dá mais importância ao que se passa fora deles, ao que é acessório, do que propriamente ao jogo e ao prazer que dele se pode retirar.

Com certeza nunca jogaram na rua! Se jogaram, terão sido daqueles que fugiam da carga de ombro porque o adversário estava todo transpirado e em tronco nú… Ou dos que levavam um toque na canela e pediam um sumaríssimo… Esses, geralmente, só apareciam uma vez! Agora parecem ser mais persistentes, infelizmente. Não lhes saí do corpo, da alma…

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