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O estranho caso de Julian Nagelsmann

A idade é sinónimo de competência?

O curioso caso de Julian Nagelsmann

 

Tal como a personagem Benjamin Button, do filme realizado por David Fincher, adaptado da obra de F. Scott Fitzgerald, e protagonizado por Brad Pitt, também no desporto existe um homem que está desafiar os “mandamentos” do tempo estabelecidos no mundo do futebol. Falo pois de Julian Nagelsmann, treinador de 28 anos, que no passado dia 11 de Fevereiro passou a ocupar o cargo de treinador principal do Hoffenheim, tornando-se no mais jovem treinador da história da Bundesliga.

A verdade é que já há algum tempo que estava acordado entre a direcção do clube alemão e o jovem treinador, que este passaria a ser o novo treinador do Hoffenheim a partir da próxima época, tendo sido acordado um contrato de três épocas de duração. Contudo devido a problemas de saúde de Huub Stevens, anterior treinador, a direcção deliberou que Nagelsmann assumiria o cargo de treinador mais cedo, na busca pela manutenção e maior estabilidade. Mas quem é Julian Nagelsmann? Que caminho percorreu até chegar onde chegou?

Nascido em Landsberg am Lech, na zona da Baviera, a 23 de Julho de 1987 e tendo sido um defesa nos seus tempos de jogador, Nagelsmann começou por jogar em clubes regionais até chegar, na época de 2001/2002, à equipa de sub-15 do FC Augsburg. Na época seguinte muda-se para a equipa B de sub-17 do TSV 1860 München, tendo ficado no clube até à época de 2006/2007 quando representou a equipa B do TSV München. No final dessa época assina pelo Augsburg mas acaba por se lesionar gravemente no joelho. Ainda tenta regressar ao ritmo competitivo na equipa B do Augsburg mas a gravidade da lesão obriga-o a retirar-se do mundo do futebol, enquanto jogador, aos 20 anos de idade.

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Foto 1 – Jovem Nagelsmann enquanto jogador. Fonte: zerozero.pt

É na equipa B do Augsburg que Nagelsmann começa a trabalhar enquanto técnico de futebol, pela mão do atual treinador do Borussia de Dortmund, Thomas Tuchel. Tuchel deu a Nagelsmann a responsabilidade de observar os adversários seguintes que a equipa de reservas do Augsburg fosse defrontar. Após uma época enquanto observador, Nagelsmann regressou ao TSV München como treinador-adjunto da equipa de sub-17. É na época de 2010/2011 que Nagelsman chega ao Hoffenheim, como treinador-adjunto da equipa de sub-17.

A história de “precocidade” de Nagelsman começou na época de 2012/2013, quando após a saída de Markus Babbel do comando técnico da equipa principal do Hoffenheim, Nagelsmann é convidado a fazer parte da equipa técnica do treinador interino Frank Kramer, tornado-se assim o treinador-adjunto mais jovem de sempre da Bundesliga. Nagelsman acabou por ficar até ao final da época no cargo de treinador-adjunto sob a orientação dos treinadores Marco Kurz e Markus Gisdol, tendo o clube conseguido garantir a manutenção na Bundesliga.

No ano desportivo de 2013/2014, Nagelsmann regressou ao futebol de formação, ocupando o cargo de treinador principal da equipa de Juniores (sub-19) tendo conseguido ganhar o título de campeão nacional da categoria nesse mesmo ano desportivo e na época seguinte terminar em segundo lugar na mesma competição. Foram estes bons e inéditos resultados desportivos na formação do Hoffenheim, juntamente com o conhecimento da cultura do clube, que fizeram com que a direcção decidisse apostar no seu jovem treinador para conduzir a equipa do Hoffenheim aos seus objetivos.

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Foto 2 – Nagelsmann a dar indicações aos seus jogadores. Fonte: sofoot.com

A verdade é que foi deixado a Nagelsmann uma difícil herança. No momento em que ficou como o líder técnico da equipa do Hoffenheim, a equipa estava no 17ª lugar da Bundesliga, com 14 pontos obtidos, a 7 pontos do primeiro lugar acima da linha de água. Em dez jogos realizados no seu comando, o efeito Nagelsmann traduz-se em 6 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, o que dá um total de 20 pontos obtidos em 10 jogos, em contraponto com os 14 pontos obtidos em 20 jogos pelo seu antecessor. Neste momento a equipa do Hoffenheim está no 13ª lugar com 34 pontos, mais 3 do que o primeiro clube abaixo da linha de água. Se é verdade que não é um registo fantástico, é sinal de evolução e do trabalho desenvolvido por Nagelsmann.

O segredo da evolução do Hoffenheim está assente na filosofia de jogo e de treino de Nagelsmann. Tendo como fontes de inspiração Tuchel, Guardiola, Luis Enrique e Arsene Wenger, Nagelsmann gosta que as suas equipas pressionem defensivamente perto da baliza adversária para recuperar a posse de bola o mais perto possível da zona de golo e assim passar mais tempo no meio-campo ofensivo. As suas equipas são objetivas na gestão da posse de bola, tendo sempre a baliza adversária como foco principal, apostando numa forma de jogar atrativa para o público e para os seus jogadores. Outro aspecto importante na sua filosofia é a relação com os seus jogadores. Seria de esperar que um treinador de 28 anos tenha dificuldade em que a sua autoridade seja aceite pelos seus jogadores, podendo alguns jogadores até serem mais velhos do que ele mas a verdade é que Nagelsmann sabe manter a sua autoridade quando necessita e sabe proteger o seu plantel da pressão de ganhar, como afirma o seu defesa central Niklas Sule, em declarações à comunicação social: “O que ele fez foi desbloquear-nos mentalmente. Ele sabe exactamente quando tem de levantar a voz e garantir a sua autoridade, bem quando tem de nos proteger”.

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Foto 3 – Nagelsmann com ar bastante introspectivo. Fonte: mirror.co.uk

Apelidado de “Baby Mourinho” pelo antigo internacional alemão Tim Wiese, a verdade é que Nagelsmann ainda terá que percorrer um longo caminho para chegar ao nível glorioso de José Mourinho. É reconhecido pelos seus pares da Bundesliga, como um jovem treinador inquisitivo, bastante trabalhador, altamente motivado e perfeccionista, características essenciais para ser um treinador de sucesso. Para já Nagelsmann tem demonstrado competência no pouco tempo que está ao comando técnico do Hoffenheim, retirando a equipa do fundo da tabela para uma zona mais confortável e a depender somente de si para garantir a manutenção. Nagelsmann é a prova no futebol de alto rendimento que a idade não é sinónimo de competência. Com mais ou menos idade, a competência depende do carácter e das capacidades que cada um tem e usa perante os desafios com que se depara. Maiores desafios surgirão na frente de Nagelsmann, veremos como ele irá ultrapassá-los.

Autor: Ricardo Freitas

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