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O Futebol não está no Interior

O Futebol não está no Interior

A condição determina, ou nós determinamos a condição?…

O tema não é recente, muito menos exclusivo desta área. Abordado pelas esferas políticas talvez em demasia, mas sem a profundidade ou boa vontade que permita concretizar medidas efectivas e transversais para atenuar uma série de constrangimentos naturais, inerentes à localização geoestratégica de certas zonas.

A interioridade é objecto de estudo sociológico, e um conceito definido a partir da verificação de um determinado conjunto de condições que fazem com que certas zonas possam ser assoladas por problemas menos comuns em zonas de concentração de recursos ou centros de poder. Afecta todos os domínios do tecido social, como tal, o Desporto, e o Futebol em particular, também se ressente!

Ter conhecimento desta condição é justificação para o que não fazemos? Não! A nenhum nível!

Esta condição influencia de algum modo a nossa tomada de decisão e as oportunidades disponíveis? Sim! Mas não nos impede de, com os recursos disponíveis, criar vias de desenvolvimento que contribuam para contornar a problemática.

A interioridade é um facto, mas a interpretação e as decisões que tomamos a partir daí são variáveis. Mesmo no Interior, não há quem tire o futebol do nosso interior!

A escassez

De há uns anos para cá, as tendências foram-se modificando. Ou melhor, aquilo que em alguns pontos já se ia sentindo começou a sentir-se com cada vez mais intensidade, e em contraponto algumas alterações foram fazendo abrandar estes focos de alarmismo.

Basta consultar a plataforma PorData para constatar o decréscimo de população nos últimos anos nas regiões do interior. E nem precisamos de colocar em cima da mesa o decréscimo de população em idade activa, o número de nascimentos, etc. Se anteriormente os aglomerados populacionais eram reduzidos, actualmente temos algumas localidades (aldeias, vilas) quase desertas.

As auto-estradas, o melhorado (?) sistema de transportes, a Internet que disponibilizou uma infinidade de informação e a possibilidade de comunicar de uma forma totalmente distinta auxiliam a construir uma máscara que cai rapidamente, porque não tem cara para a sustentar.

A concentração de massa crítica, pela escassez de pessoas e o seu perfil, é terrivelmente inferior em zonas do interior, e numa era dominada pelo conhecimento esse é um obstáculo que não se resolve com medidas de pouco alcance, ou uma série de programas pouco específicos e inacessíveis.

Ainda assim, tendo tudo isto em consideração (ou sobretudo tendo tudo isto em consideração), podemos e devemos fazer mais e melhor! Existem recursos disponíveis e suficientes para aumentar a rentabilidade, portanto devemos estudar como. Necessitamos, perante as evidências, de nos coordenar, de partilhar, de potenciar todos os capitais que temos à disposição, e não querer dividir para reinar, ou desejar o monopólio das condições para poder dizer somos os melhores da nossa rua…

O Futebol é só um espelho de todas estas tendências sociais, e a elas não foge se não existir quem possa tomar decisões em sentido contrário.

O caminho da ignorância para a oportunidade

Podemos alinhar pelo diapasão das lamentações intermináveis ou das justificações comuns. É possível indicador de que nos resignámos, de que não iremos em momento algum conseguir romper com esta inércia, afastar este estado de espírito derrotista e conformado, terminar com esta ignorância consentida.

Ou podemos agir! Não podemos empurrar para os outros responsabilidades que são nossas! Seja como treinadores ou como dirigentes (as classes que mais podem influenciar as mudanças), devemos assumir as nossas posições em defesa de algo maior que nós próprios. O Desporto, o Futebol, é o meio indicado para motivar acções contra-corrente e contagiar todo o panorama social, sejam tomadas as rédeas por quem tenha conhecimento e competência para o fazer.

O caminho é longo e árduo, até pelas resistências que sempre se levantam por parte dos interesses instalados, mas não intervir tem um preço muito mais elevado. Pode ser muito bem um dilema entre esperar ou criar as nossas próprias oportunidades, ainda que seja dever de quem governa (a diferentes níveis decisórios, desde o governo central ao poder autárquico) zelar por um desenvolvimento harmonioso de TODO o país.

NOTA:

Tentemos exemplificar, no que ao futebol diz respeito, pegando no contexto que melhor conheço: o do distrito de Castelo Branco. Que possivelmente terá semelhanças com os distritos de Portalegre, Bragança, Évora ou Beja.

Quantos clubes competem e se conseguem manter consistentemente nos campeonatos nacionais de formação? Quantos jogadores formados exclusivamente na região chegam a patamares profissionais enquanto seniores? Quantos clubes competem e se conseguem manter consistentemente nos campeonatos nacionais e profissionais de seniores?

Podemos perfeitamente arranjar um vastíssimo conjunto de justificações e causas para qualquer resposta que tenhamos, mas a pergunta essencial é: Não podemos fazer melhor? Depois perguntamos: Como?

Não podemos esquecer-nos que ao longo destes anos alguém tem tomado decisões, e se o estado actual não agrada, a alguém se deve. Empurramos para quem?

O facto de não se falar nos problemas, não significa que eles não existam! Há que agir!

Foto de Capa: Marta Lima – Futebol dos Tostões

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