-- ------ O regresso da moda do 3-4-3
Bom Futebol

O regresso da moda do 3-4-3

O regresso da moda do 3-4-3.

Antonio Conte apostou no 3-4-3 no Chelsea em 2016/2017. E essa opção tática valeu-lhe o título da Premier League. Quase como uma praga, a opção começou a ser plasmada pelos principais rivais e promete agora espalhar-se a outras ligas.

Voltando atrás no tempo, e procurando o paralelismo nacional, Manuel José foi o grande percursor do modelo 3-4-3 no nosso país, quando ao leme do Boavista optou por esta inovação tática. Estávamos em 1991. Um líbero, que era o campeão do mundo sub-20, Rui Bento, era a chave deste desenho tático. O modelo foi opção durante algum tempo e até outros tentaram copiá-lo. Porém, no nosso país, acabou por não vingar a médio e longo prazo.

Mais de 25 anos depois, assistimos a um renascimento deste desenho tático, tudo graças a um homem: Antonio Conte. O técnico italiano é uma espécie de pai adoptivo. Ou um pai do Frankenstein, que fez renascer o monstro. Como aqui demos conta há alguns meses, depois de um início titubeante na Premier League, Conte preferiu moldar a equipa às suas ideias e não o inverso, como tinha acontecido naquele primeiro mês ou dois nos comandos dos blues. Usou o sistema que já lhe tinha garantido sucesso em Itália, quer na Juventus, quer na seleção italiana, onde apesar de nada ter ganho, atingiu os quartos-de-final do Euro 2016, só caindo nos penalties contra os campeões do mundo, a Alemanha.

O sucesso da aposta no 3-4-3 foi tal que rapidamente assistimos a um plasmar do modelo tático nos principais rivais. O Tottenham foi o primeiro a assumí-lo e curiosamente teve a mesma maré de excelentes resultados desde então, conseguindo mesmo um surpreendente segundo lugar que há muito era uma miragem para os Spurs. Depois foi o Liverpool de Klopp, que privilegiava outro sistema, quer no Dortmund, quer nos primeiros tempos nos Reds. José Mourinho acabou por também usar este esquema algumas vezes, e até o francês Arsène Wenger terminou o ano a jogar em 3-4-3, curiosamente levando a melhor ao criador do monstro, na final da Taça de Inglaterra, em pleno Estádio de Wembley.

Falta referir Pep Guardiola e o seu Manchester City. Só que o técnico catalão é um caso à parte. Sempre inovador nos seus esquemas táticos, já usou várias vezes este esquema, mas ao contrário dos demais, parece não o fazer por copiar o sucesso alheio, mas sim porque na sua cabeça fervilham esquemas e opções diferenciadas, tendo no Bayern de Munique chegado a usar defesas com apenas dois homens ou usando defesas a três mas onde só um era central!

A moda pegou e parece pronta a disseminar-se a outros países. Se em Inglaterra parece que os big six parecem ir manter a aposta, na Alemanha já vimos um Dortmund várias vezes a jogar assim na temporada passada. Em Itália, o esquema nunca morreu desde Conte, e Allegri na Juve continua a usá-lo por vezes, como aconteceu na última final da Champions em Cardiff. O renascido AC Milan também parece possuir trunfos para esse esquema e não surpreenderá se a opção acabar por ser essa.

Em Espanha a moda parece não pegar, apesar do Barcelona já ter por vezes apresentado esquemas similares, aproveitando a polivalência de alguns dos seus centrais, em determinados momentos de jogo. E cá em Portugal, olhando para a pré-época, Jorge Jesus já testou o esquema, talvez porque Matthieu, um lateral-esquerdo de origem entretanto convertido em central, possa cumprir este papel híbrido do terceiro central que em fase ofensiva pode abrir mais no corredor, libertando o lateral-esquerdo para missões mais ofensivas.

O título está cada vez mais perto e o mérito maior é de Antonio Conte

O sistema preferido de Conte surpreendeu a Premier League. Fonte: Footballtactics.net

 

A chave do sucesso de 3-4-3

Moda ou não, venha para ficar ou seja como muitas modas, que rapidamente passam à história, o 3-4-3 é uma realidade atual e a chave do seu sucesso está em dois factores: os laterais e os centrais.

Comecemos pelos laterais. Ambos têm de ser verdadeiros extremos. Rápidos e com capacidade para um vaivém constante, capazes de desequilibrar no último terço sem descurar a competência na cobertura defensiva. No momento ofensivo, os laterais são quase alas, juntando-se aos extremos que podem assim procurar terrenos mais interiores, ou combinar com eles quando mais abertos no flanco.

Pegando no original de Conte no Chelsea, Victor Moses, um proscrito que andava perdido em empréstimos sucessivos por clubes do meio de tabela da Premier, assumiu o lado direito. Ele que é um avançado mas que tem um pulmão inesgotável e assinalável capacidade física. No lado oposto o espanhol Marcos Alonso, um lateral esquerdo de origem com grande pulmão e cuja altura o torna decisivo nas bolas paradas. A maior propensão ofensiva de Moses permite que muitas vezes o 3-4-3 de Conte seja híbrido, com Azpilicueta agora adaptado a central a abrir na direita, permitindo a Moses ser ala e Pedro ou Willian a jogar mais por dentro próximo de Diego Costa. Na esquerda isso acontece menos, com Hazard a abrir sempre mais na ala.

Em relação aos centrais, é fundamental que pelo menos um, senão mesmo os dois mais abertos, possam cair na linha e funcionar como alas. Azpilicueta fá-lo na perfeição, dado ser lateral, por exemplo. Ou na Juve, com Chielini e Barzagli, ambos centrais, mas com boa capacidade de adaptação ao corredor quando necessário.

Este sistema acaba por privilegiar o corredor central, dado haver pelo menos 2 médios centro e 2 avançados (quando um dos extremos faz os movimentos interiores), ou mesmo três se ambos os extremos procurarem o jogo interior recorrentemente. E isso leva-nos à análise da aplicabilidade deste sistema ao futebol português.

Ao contrário de Inglaterra, onde existe mais espaço e onde as equipas pequenas, salvo raras exceções, não optam por encostar as linhas e fecharem-se por completo na defesa, em Portugal são raras as equipas abaixo dos 5 ou 6 primeiros que não vai ao terreno dos grandes com os 11 jogadores no seu meio-campo. Ora este sistema, como acabámos de referir, privilegia o jogo interior, o que contra estas equipas poderá revelar-se infrutífero.

Se olharmos para os três grandes, uma das claras explicações do sucesso dos tetracampeões nestes últimos anos é a sua maior valia nos extremos em comparação com os rivais. É muitas vezes por aí que o jogo se desequilibra. O Sporting com Gelson na época transacta, ainda que apenas do lado do jovem extremo, conseguia gerar a maioria dos seus desequilíbrios ofensivos.

Ora num esquema de 3-4-3 como Jesus parece agora querer testar, Gelson terá que jogar mais por dentro muitas vezes, onde se sente menos à vontade e onde tem menor capacidade de desequilíbrio. E os próprios laterais não parecem encaixar neste sistema. Ou melhor, o direito, pois Piccini, do que é dado a ver, não aparenta ter tão desequilibrador ofensivamente. Ao contrário de Coentrão, que encaixaria que nem uma luva, assim como Matthieu, que pode abrir na esquerda e fazer de lateral nas subidas do caxineiro.

Irá Jesus para a frente com os testes e lançar esta opção tática na Liga NOS 2017/2018? Temos sérias dúvidas que o faça. E em fazendo, que se revele uma fórmula de sucesso. Pelo menos à luz dos jogadores de que dispõe atualmente. Mas como o mercado promete ser animado até 31 de agosto, pode ser que as vendas e compras podem ter em conta esta desenho tático.

Deixe o seu comentário

bomfutebol
Cópia não permitida! Conteúdo protegido por direitos de autor.