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Ilhas Faroe

Ovelhas para a história – Ilhas Faroe

O arquipélago árctico das Ilhas Faroe é conhecido por algo bem especial, as ovelhas, são mais do que os humanos e povoam 17 das 18 ilhas que compõem esta região autónoma do reino da Dinamarca. Faroe é uma derivação de ovelha em norsk. Contudo, a selecção ‘AA’ está a fazer história, 2016-2017 é já a qualificação onde os faroeses somaram mais pontos, ainda com duas partidas para disputar.

O apoio segue além fronteiras, como se viu no Bessa. Fonte: página oficial no facebook da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

O apoio segue além fronteiras, como se viu no Bessa. Fonte: página oficial no facebook da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

A FSF (Federação de Futebol das Ilhas Faroe) foi fundada em 1979, entrou no universo FIFA em 1988 e fez parte do enorme alargamento da UEFA no início dos anos 90, entrando na entidade reguladora do futebol europeu aquando da dissolução jugoslava, soviética e separação checoslovaca.

Primeira Estrela

Selecção amadora na sua génese, a equipa nacional das Ilhas Faroe captaram logo a atenção internacional pela sua baliza. Jens Martin Knudsen tinha a peculiaridade de defender de gorro, uma valência que lhe granjeou até contratos publicitários.

A razão do gorro prende-se com uma lesão sofrida quando tinha 14 anos, mas tornou-se icónico no universo internacional e tal também lhe valeu uma ida à BBC para um episódio da Fantasy Football League.

Outra particularidade do guardião mais famoso das Ilhas Faroe, cuja baliza defendeu durante 18 anos (1988-2006), relaciona-se com a sua capacidade andebolística, sendo também internacional faroês na modalidade de pavilhão, que jogou a par do futebol, no entanto no andebol não era guarda-redes mas jogador de campo.

O seu jogo mais famoso terá sido na maravilhosa vitória face à Áustria em 1992, onde Knudsen foi uma ‘ovelha’ brilhante a ocupar toda a baliza. O Bom Futebol árctico deixava a formação alpina incrédula.

Quase podia ser premonitório que este episódio do Futbol Mundial sobre as Ilhas Faroe tenha decorrido aquando do embate do arquipélago com a Rússia. 12 anos depois, na qualificação para o primeiro Mundial russo, as Ilhas Faroe atingem o seu máximo histórico e miram certamente a dezena de pontos, um marco!

Documentários à escala faroesa

O tri do TB Tvoroyri foi objecto de trabalho por parte da televisão pública das Ilhas Faroe. Aliás, é possível acompanhar o campeonato local, para os reais aficionados de futebol e não de alguns clubes do ‘Belo Jogo’, através da Kringvarp Foroya (kvf.fo), com pelo menos um directo – que pode ser seguido online – pelo canal público de televisão.

Também o KI Klaksvik mereceu nota televisiva pela sua equipa dos anos 60 e 70. O futebol é rei desportivo no arquipélago, batendo mesmo os tradicionais desportos nórdicos ou viking, apesar do profissionalismo ser quase miragem para a maioria dos praticantes.

No entanto, existem já profissionais e, mais interessante, a maioria dos poucos estrangeiros que para ali rumaram como futebolistas permanecem no gélido arquipélago, apaixonados pela beleza natural, pela calma, pelas pessoas, já tendo as selecções locais filhos desses ex-futebolistas, polacos, sérvios, numa bem curiosa opção de vida… ou como há mesmo magia neste belo arquipélago.

Orgulho faroês, como o ‘Segredo Melhor Guardado’ da Europa

Animação nas Ilhas

Um recorde histórico

O mais comum no universo do futebol, da vida, é fechar-se horizontes, ter visões tão limitadas e limitativas sobre o mundo. Observam-se e analisam-se perspectivas macro, habitualmente menosprezando-se as igualmente relevantes micro-perspectivas.

Para uma selecção onde a maioria dos componentes ainda é amadora, somar pontos a cada encontro é, já de si, histórico, especialmente quando enfrentam quadros nacionais profissionais e de topo. O habitual é perder, é somar derrotas e acumular experiência(s) mas há sempre aquele momento, aquela época em que tudo se conjuga, ganha-se moral, chegam resultados e, até ‘cair a ficha’, procura-se fazer história. Assim vai sucedendo com as Ilhas Faroe nesta qualificação rumo ao Mundial 2018, onde já somaram mais pontos do que alguma vez antes e miram certamente atingir a dezena nos dois desafios em liça ainda.

A mais recente selecção, Fonte: página oficial do facebook da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

A mais recente selecção, Fonte: página oficial do facebook da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

Como acima notado, a estreia oficial das Ilhas Faroe aconteceu com estrondo, recepção à Áustria e vitória por 1-0, iniciava-se a qualificação rumo ao Europeu 1992, por sinal estando o arquipélago no grupo de Jugoslávia e Dinamarca, apuramento jugoslavo, desmembramento do país, exclusão do Europeu, repescagem dinamarquesa e título! Nos três primeiros encontros os faroeses marcaram, derrota por 4-1 no ‘reino-mãe’ e empate a um diante de Irlanda do Norte.

Foram dois anos até novo golo, derrota em Chipre por 3-1, Abril de 1993, na qualificação rumo aos EUA’94. 10 derrotas!

21 derrotas oficiais depois, face a outra selecção amadora, a mais frágil do continente, San Marino, as Ilhas Faroe voltavam a ganhar, somaram duas vitórias na qualificação rumo a Inglaterra’96, ambas face à mais antiga república do mundo.

Para o Mundial de 1998 as Ilhas Faroe voltaram a somar dois triunfos, no duplo confronto face a Malta.

A melhor qualificação, mesmo que não em pontos, ocorreu no apuramento via 2000, o Europeu holandês e belga. Depois do horrível arranque, com ‘estalo’, 5-0, na Estónia, as restantes derrotas foram pela margem mínima ou por 0-2, conseguindo empates face a Escócia, Bósnia-Herzegovina e Lituânia.

Na caminhada até Japão/Coreia do Sul a selecção conquistou sete pontos, dupla vitória face ao Luxemburgo e empate inicial diante de Eslovénia. Numa altura em que as ‘ovelhas’ envelheciam no contexto do grupo original que evoluiu nos anos 90, em período de transição, as Ilhas Faroe conseguiam o máximo de pontos até à altura.

A campanha rumo a Portugal 2004 também começou com empate, Escócia novamente, mas só. Nota, no entanto, para os bons desempenhos, derrotas apertadas incluindo com a poderosa Alemanha, 1-2 e 0-2.

Novo empate, Chipre em 2004, mas a qualificação rumo ao Mundial de 2006 revelou um retrocesso. O processo de transição é sempre custoso, tão mais quanto se ‘esticam’ futebolistas até ao limite, criando assim um ‘vazio sucessório’ por falta de rotinas e hábitos das caras-novas.

Voltaram as derrotas consecutivas. Entre 13 de Outubro de 2004 (0-2 face à Irlanda) e 11 de Outubro de 2008 acumularam-se 21 desaires oficiais seguidos, voltando a ser a Áustria (1-1) a ‘quebrar’ o enguiço e a dar confiança. Ou seja, o apuramento para o Europeu Áustria/Suíça fez-se apenas com derrotas. Foram oito anos a espaçarem as duas vitórias oficiais neste período, do 1-0 ao Luxemburgo a 1 de Setembro de 2001 ao 2-1 à Lituânia em 9 de Setembro de 2009.

No apuramento rumo a 2012 novo empate diante de Irlanda do Norte e ‘vingança’ face à Estónia, mais uma selecção batida pelas Ilhas Faroe, 2-0 em Junho de 2011.

Depois de San Marino, Malta e Luxemburgo, as Ilhas Faroe conquistavam a primeira vitória extramuros diante de uma selecção ‘pro’, a Grécia, duplamente derrotada na qualificação rumo ao Europeu de 2016, a vergonha de Ranieri que, inacreditavelmente, deixa o comando helénico para ser campeão inglês ao leme do Leicester. Uma daquelas inacreditáveis histórias.

Parte do troço da viagem rumo ao Bessa no Porto foi filmado e partilhado nas redes sociais pela FSF.

Landsliðið á veg til venjing í Porto. Løgreglan syrgir fyri, at føroyska liðið kemur skjótt og væl fram 😊🇫🇴⚽️

Posted by FSF – The Faroe Islands Football Association on Tuesday, 29 August 2017

 

Ao observar o grupo de apuramento rumo ao Mundial de 2018 seria de esperar que as Ilhas Faroe digladiassem com Andorra a fuga à derradeira posição da chave 2.

O começo dificilmente poderia ser melhor. Torshavn recebeu uma Hungria ‘inchada’ pela boa prestação no Europeu 2016, um retomar dos grandes magiares aniquilado pelo nulo face a mais de quatro mil adeptos no pitoresco estádio.

O relvado que habitualmente acolhe as Ilhas Faroe. Fonte: facebook oficial da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

O relvado que habitualmente acolhe as Ilhas Faroe. Fonte: facebook oficial da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

A viagem a Riga previa-se difícil mas as Ilhas Faroe, orientadas pelo campeão europeu de 1992 Lars Olsen, conseguiram o pleno Báltico, 0-2 no Skonto e quatro pontos em duas partidas! Era um começo de sonho, quebrado com o 0-6 na recepção a Portugal poucos dias depois.

Poder-se-ia pensar que a descida à realidade traria novamente as Ilhas Faroe para as derrotas. A viagem à Suíça em Novembro de 2016 aportou um 0-2, uma derrota normal e não muito pesada, recuperando índices de confiança nos futebolistas.

2017 começou com nulo em Andorra, duas selecções de equivalente igualha, cinco pontos no saco. Em Junho nova derrota por 0-2 face à Suíça, mas sem abalar a estrutura.

Diante de Portugal, no Bessa, 5-1 para os lusos, 1-11 no acumulado, um peso justificado com uma maior ambição dos ‘ovelhas’. ainda naturalmente aninhados atrás, com perspectiva defensiva, todavia já não a visarem apenas uma derrota pelo menor número de golos encaixados possível, já com olhos na baliza adversária, algo que Lars Olsen lhes impôs, ambição apesar de continuarem vários dos futebolistas a o serem em part-time.

A recepção a Andorra era muito importante, para ambas uma vez que também os homens dos Pirenéus haviam sacado um escalpe inacreditável com a vitória sobre a Hungria. Um tento do ala Rolantsson, um dos profissionais, campeão na Dinamarca pelo Aalborg e a alinhar nos noruegueses do Brann Bergen, valeu mais três pontos e as Ilhas Faroe atingiam a marca dos oito pontos, algo nunca antes alcançado

Em Outubro há recepção a Letónia e viagem à Hungria e os 10 pontos serão mesmo objectivo fixo na mente de todos.

O grito da selecção.

1-0 og trý stig til Føroyar 😊🇫🇴⚽️

Posted by FSF – The Faroe Islands Football Association on Sunday, 3 September 2017

Cada viagem continua a ser uma festa

Foto no Bessa. Fonte: facebook oficial da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

Foto no Bessa. Fonte: facebook oficial da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

Igualdade de Género

Uma ‘vantagem’ que facilmente se nota é a igualdade de tratamento nas várias variantes do ‘Belo Jogo’. Os títulos nacionais de futebol e futsal masculino e feminino são premiados mediaticamente em idêntico espaço anualmente. Fica bem e não há quem se sinta injustiçado.

A criatividade da comunicação na Federação das Ilhas Faroe. Fonte: facebook oficial da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

A criatividade da comunicação na Federação das Ilhas Faroe. Fonte: facebook oficial da Federação de Futebol das Ilhas Faroe

Ovelhas entre profissionais e amadores

Selo lançado em 1979 no arquipélago em homenagem ao maior habitante local, a ovelha. Fonte: Wikipedia

Selo lançado em 1979 no arquipélago em homenagem ao maior habitante local, a ovelha. Fonte: Wikipedia

Gunnar Nielsen passou pelo Manchester City, defende as cores do campeão islandês FH, é profissional. O veterano Frodi Benjaminsen, perto de deixar a selecção, é carpinteiro. Jonas Thor Naes alinha no IBV da Islândia, tal como Bartalsstovu. Existem futebolistas que trabalham na aquacultura, na pesca, no ensino, nas forças de segurança, no pastoreio, na construção civil, a par de um crescente número de profissionais – ou que procuram o profissionalismo.

Ari Jonsson esteve várias temporadas no Silkeborg, regressando em 2016 ao arquipélago para alinhar no HB. o lateral Baldvinsson alinha na Noruega, Davidsen no Vejle da Dinamarca, Edmundsson no Odense, Nattestad no Molde, imaginando-se como será o balneário, não tanto com conversas sobre as modas, o novo veículo, o relógio especial, antes os amadores a questionarem os profissionais sobre a ‘vida de futebolista’ e os profissionais curiosos sobre o dia dos ‘semis’, são ‘ovelhas’ variadas, diversas, mas bem distintas do que eram no início desta caminhada, onde praticamente toda a selecção era amadora.

As perspectivas são ainda mais animadoras depois da histórica qualificação dos sub17 para uma fase final de Europeu em 2017. Está a ser um ano realmente histórico para o futebol das ilhas ‘ovelhas’ e é de antever que os mais jovens continuem a rumar a academias na Dinamarca, na Noruega, na Suécia, no Reino Unido e afins.

Nichos de Interesse

Voltando ao ponto de partida, ao contrário do que tantos pensam, há sempre interesse pela ‘periferia’. Já me questionaram mais sobre a liga das Ilhas Faroe, a quererem saber mais, acompanhá-la, do que qualquer outra da Europa Central, Balcânica ou de Leste, para citar alguns exemplos. E a evolução do futebol local, a par de todo o maravilhoso entorno e tranquilidade associados ao arquipélago situado a meio caminho entre a Escócia e a Islândia, ou a Noruega e a Islândia, que fazem fronteira marítima com as Hébridas Exteriores, pertencentes à Escócia, também merecedoras de visita, com um castelo-ilha medieval, Kisimul, um castelo vitoriano imponente, em Stornoway, na ilha de Lewis, a principal do arquipélago e onde se encontra um ‘mini-Stonehenge’, as Callanish Stones, um arquipélago também conhecido pelos muitos naufrágios ao seu largo.

Para saber e conhecer o Bom Futebol das Ilhas Faroe de forma mais próxima há um blogue a ele dedicado, No Grass Pitches, com várias matérias realizadas no arquipélago árctico.

Os dois últimos encontros com emissão da Kringvarp Foroya, ambos do Vikingur, líder da Effodeildin 2017, o primeiro a bater o B36 e ganhar avanço na liderança, o segundo em vitória face ao Skala. O título está completamente em aberto, o Vikingur lidera com cinco pontos de vantagem sobre KI Klaksvik, seis para NSI Runavik e sete adiante de B36 Torshavn, sete rondas ainda por realizar.

https://www.youtube.com/watch?v=W9MdYo-pxYM

https://www.youtube.com/watch?v=HSBb1cY174k

 

 

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