-- ------ Rebelde com causa - Bom Futebol
Bom Futebol

Rebelde com causa

Em 1938, a Alemanha Nazi invade amigavelmente a sua congénere Áustria e procede à anexação desta jovem república, aproveitando o ambiente político instável e uma maioria germânica, que, à data, favorecia a anexação por parte do Terceiro Reich. Como forma a provar à população austríaca que não seria uma invasão mas sim uma fusão entre os países, foi marcado um amigável entre os mesmos, tendo sido o cada vez mais popular desporto conhecido como futebol escolhido para esta demonstração de conciliação. O problema é que a seleção Alemanha era, à data, muito inferior à sua congénere austríaca que, apesar de já se encontrar em declínio, ainda era apelidada de Wunderteam – Equipa Maravilha – e este jogo marcaria também o fim da seleção austríaca, que seria absorvida pela Alemanha, tendo 8 dos seus jogadores sido requisitados apenas 72 horas depois da entrada das tropas Alemãs.

O resultado escolhido foi um cordial empate, que provaria que ambas as nações estariam em pé de igualdade, num jogo realizado em Viena, perante o seu povo mas também perante altas patentes do partido Nazi Alemão. Apesar do povo austríaco favorecer a presença alemã, em Viena havia alguma resistência, principalmente das elites culturais, sempre mais ligadas à Viena Vermelha e com raízes judaicas. Entre os resistentes, havia também Matthias Sindelar, a estrela da seleção austríaca, considerado o melhor jogador e o melhor desportista austríaco do século XX. A melhor forma de resumir o que se passou em campo será através do relato de David Goldlbatt:

“Na primeira parte, Sindelar falhou uma mão cheia de oportunidades, sendo que alguns dizem que com toques tão refinados que poderiam apenas representar gestos de desafio. Após o intervalo, a sua paciência acaba e ele marca. O segundo golo, um gesto audacioso de Sesta, sela o resultado e Sindelar corre para dançar em frente dos representantes Nazis e os governantes Austríacos na tribuna VIP. A multidão vocifera “Österreich! Österreich!”

45c9a-wunderteam

Ilustração da Wunderteam Fonte: www.cafefutebol.net

Matthias Sindelar nasceu em 1903 em Mórovia, na altura parte do império Austro-Hungaro, numa família pobre, tendo-se mudado para Viena em 1905. Tendo o seu pai sido uma das muitas vitímas da 1ª Guerra Mundial, Matthias assumiu-se como chefe de família e conciliava o seu trabalho com futebol, tendo começado a jogador no Hertha Vienna, com 15 anos. Aos 18 anos já era titular absoluto e, após problemas financeiros do seu clube, mudou-se para o Austria Vienna, assumindo-se como estrela da equipa e obtendo níveis de popularidade que lhe permitiam aparecer em anúncios e ter poemas a si dedicados, devido ao seu futebol refinado. Apesar de tudo, apenas se estreou na seleção aos 23 anos e a sua primeira fase foi curta, devido à sua excessiva individualidade em campo, cujo selecionador Hugo Meisl não era particularmente fã. Mas o seu impacto no futebol era tão grande que nos reportamos novamente a David Goldlbat para o descrever:

“Ele fez a sua estreia internacional em 1926 e jogou bem antes de sair das preferências do disciplinador Meisl. Seguiram-se quarto anos de ausência de futebol internacional até que Meisl foi encurralado por uma reunião dos principais comentadores de futebol enquanto estava no Ring Café em 1931. Toda a gente argumentava pela chamada de Sindelar e Meisl mudou de ideias. A Escócia foi batida (ndr. 5-0) e a Wunderteam – que já era disciplinada, organizada, trabalhadora e profissional – adquiriu o seu playmaker e inspiração, aquele toque vital de imprevisibilidade.”

sinde3

Anúncio com Matthias Sindelar Fonte: www.biobiochile.cl

Apesar da Áustria dominar o futebol internacional no final dos anos 20 e durante quase toda a década de 30, nunca conseguir ganhar nenhuma competição, expectuando a Taça Mitropa, que era jogada apenas pelos países da Europa Central. Sindelar também não conseguiu um número elevado de títulos pelo Austria Viena, vencendo apenas 1 título de campeão e 5 taças da Aústria.

O seu estilo de jogo, que evidenciava a técnica e classe contra o jogo físico, garantiu-lhe a alcunha de Der Papierene – o Homem de Papel – pois pesava apenas 63 kgs e media apenas 1,75 mts de altura. A sua capacidade de drible e criatividade garantiram-lhe um lugar na história, tendo sido também incentivado pelo mito criado a volta da sua morte. Após o jogo do Anschluss acima já referido, Sindelar não voltou a jogar futebol profissional, pois recusou representar a Alemanha, alegando quer a idade avançada quer lesões. Comprou um café a um judeu, que foi obrigado a vender-lo, por um valor muito elevado, o que não foi bem visto pelas autoridades alemãs que, de acordo com relatos da época, não lhe deram tréguas até ao dia da sua morte. A 23 de Janeiro de 1939, Sindelar e a sua namorada Camilla Castagnola foram encontrados mortos em casa, devido a inalação de monoxido de carbono. A versão oficial foi que uma lareira defeituosa e entupida causou o envenenamento e a morte foi acidental. No entanto, outras fontes relatam que poderá ter sido suícidio, como refere o poeta Friedrich Torberg no seu poema “Auf den Tod eines Fußballspielers” ou mesmo assassinado pela Gestapo, como forma de silenciar uma oposição que poderia ser problemática.

austria_3

Seleção Austriaca Fonte: fourfourtwo.com

Numa Áustria cultural, em que o intelecto  e arte eram um estilo de vida, Sindelar elevou o Bom Futebol à classe de arte, sendo que poetas, criticos de teatro, políticos e anóminos cidadãos se deixavam deslumbrar pela sua capacidade. O crítico de teatro Alfred Polgar definiu-o da seguinte forma:

“Ele tinha o cérebro nas suas pernas e muitas das coisas incriveís e inexperadas aconteciam enquanto ele corria”.

sinde7

Túmulo de Matthias Sindelar Fonte: biobiochile.cl

Autor: João Pedro Português

Deixe o seu comentário

bomfutebol