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Ronaldo “Bianconeri”. Um jogo a reinventar?

Serie A - Allegri e Cristiano Ronaldo - Juventus

Ronaldo “Bianconeri”. Um jogo a reinventar?

Nota prévia: Serve este artigo uma introdução e enquadramento. Neste tema, pretendendo-se não oco, os conteúdos posteriores incidirão sobre factos de jogo que fundamentam de forma concreta e observável a análise.

Enquadrar um jogador num Modelo. Sensibilidade do próprio Modelo para integrar e potenciar um jogador.

Organização de jogo e Criatividade Individual. Tratar-se-á de uma dicotomia?

Ronaldo num novo campeonato e contexto de jogo, creio que um exemplo pertinente para esta análise.

Sobre o conceito de modelo e de modelização

Um Modelo é resultado de uma acção conjunta de modelizador(es) e modelizados. Enquanto representação/referência de algo, esse Modelo, querendo-se constituir colectivo, ele é, necessariamente na sua interpretação, individual.

Por exemplo, como saberei eu, treinador, tendo a minha ideia/representação sobre e para o modelo, que representações/imagens têm os jogadores, cada um individualmente, desse mesmo modelo (que se quer Colectivo)?

O reconhecimento deste facto, transporta consigo determinados desafios e questões. Para Treinadores e jogadores.

I. Sobre o Calcio

Delicio-me particularmente com o futebol italiano. Vejo intenção, qualidade, coerência entre atacar e defender… há timing. Reconhecimento de Espaço, interacção, boa decisão. Há algo de (muito) belo ali1. Há jogo… Há CULTURA TÁCTICA.

 

II. Sobre Ronaldo no Calcio

O verdadeiro segredo para se reinventar é adaptar-se às novas regras ou às novas metodologias. Sou um artista e um artista tem de se reinventar”

Nélson Évora, Agosto 2018

(à LUSA, após conquista dos Europeus ao ar livre de Atletismo)

Essas “novas regras”, são, neste caso, por exemplo, diferentes padrões de jogo daqueles a que Ronaldo estava habituado.

O espaço é menos, a cultura táctica mais. Correr muito? o cálcio exclui tais. Um contexto onde poucas são as equipas que não exprimirão altos índices da verdadeira capacidade condicional: a inteligência.

III. Ronaldo na Juve

Como todos sabem, a Juve é um dos melhores clubes do Mundo… Foi uma decisão fácil. O que fiz no Real Madrid foi incrível (…), mas a Juventus mostrou mais do que todos que queria. Deram-me esta oportunidade e estou feliz”.

Ronaldo

Começas bem, creio. Mostras respeito, reconhecimento, maturidade. O clube primeiro. Não sobrepões o teu (enorme) estatuto.

Porque sabes que te querem, integrar-te-ás. Porque sabes que precisas da equipa, não subverterás a lógica: individual ao serviço do colectivo.

Ao nível do teu jogo, necessariamente terás de entender o novo Modelo e a sua organização, ajustares-te e apoiares-te em interacções diferentes de Madrid.

Primeiro passo, entender o Modelo.

IV. Juve com Ronaldo

(Allegri, mensagem a passar ao grupo)

Ronaldo é igual aos outros”?

De forma alguma… Não encaixa. Grandes jogadores como os da Juve, necessariamente, inteligentes, integrá-lo-ão, respeitando a premissa de que Ronaldo não é igual aos outros.

Ronaldo é especial, todos sabemos disso. Porque é especial, o sucesso dele é o nosso sucesso. O nosso sucesso é o sucesso dele.”

Será mais por aí.

Estarão Allegri e restantes jogadores a abdicar das suas condições/posições? Claro que não.

V. Modelo. Na organização a criatividade, na criatividade a organização.

O Modelo de Jogo, enquanto forma observável, só se expressará em coerência, se (logo à priori) entendidas estas premissas base de Liderança, de valores e relações.

Sendo recíproco o ajustamento, é no princípio de recursão organizacional2 de Morin, que se fundamenta um processo complexo deste género: os produtos e os efeitos do processo são simultaneamente causas e produtores daquilo que os produziu.

Colectivo e Individual precisam um do outro e modelam-se um no outro. O Modelo de Jogo é portanto um fenómeno a ganhar forma por vias colectivas e individuais, mas em coerência com a Ideia=imagem do Modelo. Em coerência com os valores da Equipa. Mas muito também – e é aqui que o conceito que a sociedade tem de Equipa muitas vezes, na minha opinião, se esbate – em coerência com as características individuais e sua possibilidade criativa e do sobre-aproveitamento do potencial de cada indivíduo.

Aqui defende-se com rigor, temos de encontrar uma forma de o servir melhor”

(Massimiliano Allegri à entrada de um período de pausa no campeonato italiano e após “jejum” de golos de Ronaldo nos 3 primeiros jogos)

em Jornal Record, 04.09.2018

Por ser especial, também o Modelo deverá entender (e servir) Ronaldo…

É um desafio para o treinador que a matriz de jogo possa “espremer” da forma mais eficiente Equipa e jogadores e é um desafio para os jogadores colocarem a sua criatividade ajustada à matriz.

Ronaldo ajustar-se-á a um novo padrão sobre o qual por sua vez influenciará certamente.

O padrão, por sua vez, ajustar-se-á a novos indivíduos e influenciá-los-á.

VI. O fluir de uma intenção.

O Modelo, contém à priori uma matriz enquanto intenção. uma ideia/intenção prévia.. Quando idealizada, há em conta nomeadamente as características dos jogadores.

O Modelo pode de ano para ano, com diferentes jogadores, alterar até substancialmente a sua matriz.

O Modelo, dentro dessa matriz, tem naturalmente de contemplar a necessidade de se apoiar no potencial criador de todos os jogadores, para fluir a sua organização e fazer emergir novas, diria… possibilidades. Não é isto que fará perder a sua Identidade enquanto forma.

Não estaremos a abdicar da nossa condição de treinadores se algo que idealizámos não suceder como queríamos porque os jogadores descobriram outras soluções igualmente ricas. Que às vezes nem imaginávamos.

O jogo muitas vezes fala por si e, no seu fluir, traz naturalmente os problemas e as soluções com que nós, treinadores e equipa, precisamos para crescer e… decidir.

A interpretação dos jogadores, sempre no aqui e agora, confere-lhe um carácter não-estanque. Há uma intenção que flui em acto. Acontece e reacontece. No aqui e agora.

Para bem do jogo e daquilo que os jogadores lhe podem aportar, é bom que tenhamos nós próprios consciência disso.

VII. Porquê este tema?

Pegando neste binómio Juventus-Ronaldo…

Sublinhar o carácter dinâmico e circunstancial do Modelo. Ele acontece e modela-se no aqui e agora.

Questionar a separação e incompatibilidade entre o haver organização e o ser-se criativo, leva-me ainda mais a questionar a profundidade com que os próprios conceitos de organização e de criatividade são vistos, analisados e debatidos.

Questionar a separação entre Colectivo e Individual. Não se trata de dicotomia, sim de uma simbiose. Organizações e Equipas não serão menos colectivas, nem Gestores serão menos líderes se integrarem o “individualismo”. Depende de como o conceptualizarem.

Questionar a uniformização de comportamentos e a nivelização pelo mesmo. Somos essencialmente dotados de características muito próprias. Sendo adaptáveis, os indivíduos podem através dos seus processos criativos dotar as organizações de um colectivo ainda mais forte. Através de comportamentos diferentes.

Incentivar os processos criativos via jogo, citando o Prof. Vítor Frade, “sendo-se livre de agir mas sem agir livremente”. Aculturando uma matriz do jogo, mas sempre muito pela envolvência autónoma, pela descoberta, pela confrontação de problemas, pelo errar. E isso, ainda que de forma guiada, só o jogo pode trazer. Mas tal requer tempo…

Gerar confiança, requer ideias coerentemente bem conceptualizadas. Se a concepção é incoerente, todo o plano falha. E gerar confiança Só é possível o Modelo oferecer condições para tal.

VIII. Para terminar

Tal como o jogo, tal como o processo.

Há coisas na vida que parecem decididas pelo destino, e neste caso foi assim. Nunca esperei jogar aqui, mas há coisas que surgem naturalmente.”

Cristiano Ronaldo

É de lei.

Um forte Abraço,

Carlos Miguel

[email protected]

IX. Outras Referências bibliográficas

-Carlos Miguel (2017). Bom Futebol o que é? (Parte I). Bomfutebol.pt

Carlos Miguel (2017). Bom Futebol o que é? (Parte II). Em busca de um algoritmo. Bomfutebol.pt

LUSA. Nelson Évora: “Sou um artista e um artista tem de se reinventar”. 13 de Agosto de 2018

– MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 18 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

– Sousa, P. (2009). Um Algoritmo do FUTEBOL (mais do que) TOTAL: algo que lhe dá o Ritmo! Uma reflexão sobre o “Jogar” de qualidade. Tese de Licenciatura. Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Porto.

1 O tema-mote com que introduzi, em Maio de 2017, a minha colaboração com o bomfutebol.pt, Bom futebol o que é? , aborda a problemática da existência ou não de uma relação de causalidade entre estética, eficácia e eficiência, quando falamos numa forma de jogar. Dessa problemática, ressalta a necessidade de designadamente questionarmos sobre o que é ou não estético, na medida em que a eficácia (e eficiência) que lhe está subjacente, poder ter algo de diferenciador em termos de desempenho. Exemplos disso são para mim padrões de muitas equipas italianas, tidas como “defensivas”. Na minha forma de ver, à luz desta questão estética-eficácia-eficiência, bastante ofensivas até, revelando nomeadamente enorme coerência no atacar e defender, conferindo-lhe assim um carácter belo (mesmo em jogos em que o 0-0 se prolonga).

2 Princípio de recursão organizacional: a ideia de que “os indivíduos humanos produzem a sociedade nas interações e pelas interações, mas a sociedade, à medida que emerge, produz a humanidade desses indivíduos, fornecendo-lhes a linguagem e a cultura.” (MORIN, 2010, p. 95)

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