-- ------ O fenómeno da secura de golos em Vera Cruz - Brasileirão sem "g0l"
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O fenómeno da secura de golos em Vera Cruz – Brasileirão sem “g0l”

O fenómeno da secura de golos em Vera Cruz – Brasileirão sem “g0l”

Brasileirão era sinónimo de magia pura e criatividade a rodos, apesar da propalada lentidão do seu futebol. Nos tempos que correm, já nem magia nem… golo

 

Vivem-se, por estes tempos, dias difíceis no Brasil. Não que a história evidencie propriamente o contrário. Quase sempre assim é. Ou foi…

Muito mais há a “Temer” do que propriamente a crer. A ilusão de dias melhores é praticamente nula, o amarelo da bandeira (símbolo das riquezas do país) não passa de um amarelo amachucado, deprimido. O branco, expressão de desejo de paz, não é mais do que um branco insalubre, sem alma. Sinal dos tempos de profunda crise política, que por conseguinte leva a outras de maior relevo: económica e social.

 

1. Crise alargou-se ao futebol

Crise essa que é transversal e se alastrou ao… futebol. Não que o escrete tivesse feito propriamente um mau Mundial 2018. Não obstante não ter transposto os quartos-de-final do maior certame do planeta, Tite apresentou um time bem montado e notoriamente com presente e… futuro. A crise é interna, mais concretamente no principal escalão futebolístico do maior país da América do Sul. A Série A, mais conhecida por Brasileirão, tem proporcionado espetáculos pouco consentâneos com esse vocábulo. Parcos em futebol e em… golos. Golo, ou, como por lá se diz, “gol”, tem sido uma palavra cara. E cara rima com rara…

 

2. Futebol lento e previsível, técnicos «batidos» mas… descontextualizados dos novos tempos

Na base da explicação há vários fatores, entre as quais a qualidade (ou falta dela) em geral dos treinadores brasileiros. Um problema, aliás, identificado há anos. No seguimento, perceciona-se que, na esmagadora maioria das equipas, só há dois momentos de jogo: organização ofensiva e defensiva. As transições são momentos praticamente inexistentes. Com pouca ou nenhuma expressão, à exceção de uma ou outra mais reativa (como o A. Mineiro, São Paulo, A. Paranaense – em grande ascensão da jornada 14 até à atual, não obstante as duas últimas rondas não terem corrido bem -, Grémio e Inter de Porto Alegre).

O Fluminense (9.º colocado) é um caso bem exemplificativo disso mesmo. Marcelo Oliveira, que substituiu em junho Abel Braga (técnico que já orientou várias equipas no futebol português), apresenta uma ideia com princípios bem intencionados. Futebol em posse, saindo curto desde o guarda-redes, pressupondo variações de centro de jogo,… O problema é que tudo é feito a um ritmo exasperadamente lento, o que faz com que se torne num estilo insípido (várias vezes se assiste a uma variação de um lateral para o outro, «matando», à partida, a génese do que uma variação de centro do jogo pressupõe). Qualquer recuperação de bola é imediatamente traduzida em passe para o lado ou para trás, nunca visando ser vertical por forma a atacar rapidamente o adversário. É o exemplar perfeito de uma equipa em permanente organização.

Imagem 1- Flu, de Marcelo Oliveira, é uma equipa um pouco à imagem do seu campeonato. Fonte: Esportes Estadão

A lentidão e previsibilidade das equipas faz com que raramente se vejam jogos «partidos». As oportunidades por jogo são escassíssimas e é muito raro assistir-se a um encontro em que haja ímpeto e, tão simples e só, ritmo. O ritmo dos jogos é sempre muito baixo e, para quem assiste, dá sempre a sensação que dificilmente vá haver golos (como, aliás, sucede).

 

3. Promessas a saírem cada vez mais cedo

O Flamengo ressentiu-se da pausa mundialista, após ter visto duas das suas joias da coroa «voarem» para a Europa: Vinícius Júnior (Real Madrid) e Felipe Vizeu (Udinese). A magia de Lucas Paquetá (acabado de estrear-se pela canarinha) tem sido insuficiente para o Mengão, que não só perdeu a liderança como já está a 5 pontos dos líderes Internacional e S. Paulo e atrás ainda do Palmeiras (em grande recuperação desde a chegada de L. Felipe Scolari ao comando técnico). Vinícius que, recorde-se, acabou de completar 18 anos há somente dois meses atrás. Vizeu está a seis meses dos 22 e Paquetá, acabado de fazer 21, também pouco tempo deve aguentar no clube onde fez toda a sua formação.

Também Roger Guedes, com a mesma idade de Vizeu e Paquetá, abandonou o Galo na paragem do Campeonato do Mundo 2018. Ele que estava a ser, muito provavelmente, o melhor jogador do Brasileirão até essa altura. Guedes, que chegou a ser falado para Benfica e Porto, abandonou o Atlético Mineiro em busca do dinheiro… chinês. Rumou ao Shandong Luneng, uma opção de carreira que foi alvo de chuva de críticas no Brasil.

Imagem 2- Roger Guedes estava a brilhar… até aparecer a cobiça chinesa. Fonte: Gazeta Esportiva

Rodrygo, a nova coqueluche do Santos, faz parceria com Gabriel Barbosa no ataque do histórico Peixe. Com apenas 17 anos, já está de contrato assinado com o… Real Madrid. 45 milhões de euros foi a astronómica soma com que o gigante europeu convenceu o Peixe a libertar o promissor dianteiro, que virá para a Europa em junho de 2019. Mais um caso paradigmático de uma estrela prestes a abandonar o futebol do seu país muito precocemente.

Imagem 3- Rodrygo, um dos novos diamantes do futebol brasileiro, é um dos que vai deixar o campeonato do seu país prematuramente. Fonte: O Globo

Estes quatro casos explicam o alvo apetecível a que estão sujeitos as grandes promessas brasileiras desde bem cedo. A prospeção (cada vez mais) precoce dos clubes europeus tem (des)ajudado ao estado a que chegou o futebol no principal campeonato do país de Pelé.

 

4. A preocupante (e rotineira) onda de despedimentos de técnicos. Entradas, saídas e reentradas a ritmo galopante

«Chicotadas», o problema do costume. Uma autêntica roda-viva de treinadores, não sendo, claro, este ano exceção. Bem pelo contrário. Entradas e saídas, saídas e (re)entradas. Um ritmo que não se vê, nem de perto nem de longe, nos jogos disputados…

Com 24 rodadas, foram já 20 (!) os treinadores despedidos nesta edição do Brasileirão. Quase ao ritmo de um por jornada. Números assustadores e que fazem refletir sobre a falta de estabilidade que as equipas enfrentam constantemente. São Paulo, Flamengo, Internacional, Grémio, Atlético Mineiro e Cruzeiro constituem o restrito grupo de seis clubes onde tal loucura não se verificou. Pelo menos até ao momento…

A última vítima foi Osmar Loss (que em maio já havia substituído Fábio Carille). Deixou, há seis dias atrás, o Corinthians por troca com Jair Ventura (que havia iniciado a temporada no Santos e nem há dois meses atrás demitido do comando técnico do Peixe). Uma autêntica dança de comandos…

Imagem 4- Jair iniciou Brasileirão no Santos, foi despedido e presentemente defende as cores do Timão. Fonte: Massa News

 

5. Proscritos na Europa, renascidos e verdadeiras estrelas das torcidas no Brasileirão

É particularmente significativo verificar a magnitude que alguns jogadores atingem no Brasil quando comparado ao (escasso) rendimento atingido na Europa. Gabriel Barbosa é, porventura, o caso mais notório a este (des)nível. Proscrito em Milão (1 golo em escassos 10 jogos ao serviço do Inter em 2016/17) e em Lisboa (1 golo em 5 jogos pelo Benfica na primeira metade de 2017/18), o jovem atacante recuperou a alcunha com que deixou precisamente o Santos para ingressar no futebol europeu: Gabigol. Ainda que, pelo menos por ora, só no Brasil. É o principal artilheiro da atual edição do Brasileirão, com 12 golos nas 23 que disputou. Uma média praticamente de um golo por cada dois encontros.

Imagem 5- Gabriel Barbosa na Europa, Gabigol no Brasil. Duas faces, dois contextos distintos. Fonte: A Tribuna

Isto diz muito sobre as diferenças evidentes (e enormes) entre os principais campeonatos europeus e o Brasileirão. E quem fala de Gabigol fala de casos como Elias (nunca tendo singrado ao serviço do Sporting e A. Madrid, não obstante ser uma das peças-chave do Atlético Mineiro), Diego Souza (titularíssimo no S. Paulo e com passagens fugazes por Benfica e Metalist, da Ucrânia), Bruno Cortez (indiscutível no Grémio e com uma passagem horripilante pelo Benfica), Jádson (intocável no Flu e com passagem discretíssima por Itália – Udinese), Gérson Magrão (habitual titular do América Mineiro, com insucessos somados em Kiev, ao serviço do Dínamo local, e Sporting), entre muitos outros casos.

 

6. Paraná, uma imagem de desgoverno

Depois, não menos importante que as restantes, saltam à vista as questões organizativas. O Paraná, lanterna vermelha deste Brasileirão 2018, é um caso paradigmático da falta de rumo de uma Diretoria sem rei nem roque. O clube de Coritiba, pasme-se, efetuou 35 contratações para esta campanha e utilizou, até agora, nada mais nada menos do que 41 (!) jogadores no campeonato. Números que falam por si e que colocam a nu, sem necessidade de uma reflexão minimamente aprofundada, um problema permanente do futebol brasileiro.

 

7. Números que não mentem

Vamos, agora, à dureza (indesmentível) da matemática. Na pretérita ronda, dos 10 jogos disputados, apenas um (!) teve mais do que dois golos, o Atlético Mineiro vs A. Paranaense, que culminou num 3-1 para a equipa da casa. Foi, também, o único jogo em que ambas as equipas conseguiram marcar. Todos os restantes, um verdadeiro deserto. O América Mineiro vs Ceará e o Sport vs Cruzeiro culminaram mesmo sem golos (não obstante o Cruzeiro ter-lhe visto sido negado um golo limpo, por intermédio de um offside inexistente).

Brasileirão sem 'gol'. Jornada 24, a imagem de um panorama desolador

Imagem 6- O panorama desolador de mais uma jornada do Brasileirão. Fonte: zerozero

A tendência tem sido clara. Aos somente 13 tentos marcados nesta 24.ª jornada, juntaram-se-lhe apenas 18 na 23.ª, 19 na 22.ª, 21 na 21.ª e 13 na 20.ª (não obstante haver, nesta, ainda um jogo por disputar). Feitas as contas destes últimos 49 jogos, a assustadora média de 1,7 golos por jogo não deixa margem para dúvidas sobre a falta de Bom Futebol e do seu âmago (golo) no país que mais vezes viu a sua Seleção tornar-se campeã mundial de futebol.

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