-- ------ Sistemas de Monitorização de Carga: GPS no Futebol - Bom Futebol
Bom Futebol

Sistemas de Monitorização de Carga: GPS no Futebol

Football Medicine - Lesão

Saúde no Futebol com a Football Medicine®

Sistemas de Monitorização de Carga: GPS no Futebol

Retomando a crónica anterior, onde apresentamos a pirâmide de fatores de risco de lesão da Football Medicine®, constatamos que a gestão das cargas de treino/jogo impostas aos atletas, é o maior fator de risco de lesão muscular. Sendo este um fator de risco modificável, a sua análise e controlo assume ainda maior preponderância para o staff médico/técnico.

Figura 1 – Pirâmide de fatores de risco de lesão muscular da Football Medicine

Fadiga e gestão de carga de treino

Alterações na metodologia de treino (e.g. estímulos inabituais), curtos períodos de recuperação após esforços intensos (e.g. após jogo), sub-treino ou sobre treino são tudo situações relacionadas com a gestão das cargas impostas aos atletas que estarão na base de grande parte das lesões ocorridas no futebol, especialmente, mas não exclusivamente, as lesões com mecanismos de lesão indiretos (e.g. lesões musculares).

De acordo com o UEFA Champions League Injury Study, onde se realizou um follow up durante 11 anos dos clubes presentes nas competições Europeias e respetivo desempenho nas ligas domésticas, constatou-se que as equipas que apresentaram menores taxas de incidência de lesão e dias perdidos por lesão durante a temporada tiveram também melhor classificação e média pontual nas suas ligas domésticas, bem como nas competições Europeias, mostrando-se assim a importância da prevenção de lesões para o desempenho competitivo das equipas de futebol profissional.

Sabe-se que o estado de fadiga é um dos grandes percursores das lesões ocorridas no futebol, especialmente nas lesões musculares de isquiotibiais. Desta forma, a adoção de estratégias para a prevenção de lesões contemplando a identificação de fadiga ou estados predisponentes a esta, assumem um componente fulcral da dinâmica de trabalho do staff de apoio à equipa.

Adaptações e alterações de rotina na carga de treino (e.g. frequência, duração e intensidade) devem ocorrer durante o ciclo de treino, podendo estas acentuar ou diminuir a fadiga. A gestão de fadiga é um processo capital na mediação da adaptação do atleta ao treino e garantia de que o atleta está preparado para competir. A importância da gestão de fadiga dos atletas, originou um aumento no interesse na monitorização da carga de treino e estratégias de recuperação, auxiliando no planeamento do treino, dessa forma assumindo papel importante na prevenção de lesões.

Métodos para monitorização de fadiga/carga de treino

Como mencionado anteriormente, a gestão das cargas de treino será provavelmente o maior fator de contribuição para as lesões musculares no futebol – lesão mais frequente – sendo então indispensável a sua monitorização.

A carga de treino contempla as cargas internas e externas impostas aos atletas. A carga externa está relacionada com o trabalho realizado pelo atleta (e.g. duração, velocidade, distância percorrida, acelerações e desacelerações), sendo importante para entender a capacidade e output do atleta ao treino. Por outro lado, a carga interna, ou stress fisiológico relativo resultante da carga externa, é crucial para a determinação quer do stress imposto pelo treino, quer da subsequente adaptação do atleta ao treino (e.g. frequência cardíaca, recuperação e variabilidade da frequência cardíaca, s-RPE – sensação subjetiva de esforço da sessão).

Nos dias de hoje, os sistemas de GPS utilizados no futebol permitem não só o controlo/análise das variáveis de carga externa, mas também da carga interna, sendo, portanto, o Gold Standard na monitorização e gestão das cargas de treino.

Sistemas de GPS

Figura 2 – Sistema de GPS: a) Hardware e Software necessário à recolha e processamento dos dados; b) Utilização de uma unidade GPS em treino.

Não é objetivo deste artigo explorar ao detalhe o funcionamento dos sistemas de GPS nem tão pouco evidenciar todo o seu potencial uma vez que essa tarefa, possivelmente requeria que existisse já um entendimento significativo relativo a este mesmo sistema. Interessa, porém, explicar de forma simples em que consiste este sistema, e quais as variáveis mais importantes a recolher.

Como mostra a Figura 2, este é constituído por várias unidades de GPS utilizadas de forma individualizada por cada atleta, sendo colocado na região torácica com auxílio de um colete. Para além do GPS, a unidade possui também um acelerómetro, sendo a sua utilização complementada ainda pelo uso de um cardiofrequencímetro. Desta forma, é possível recolher dados relativos aos deslocamentos/distâncias percorridas pelos atletas, velocidades a que foram percorridas, acelerações/desacelerações realizadas pelo mesmo, assim como a frequência cardíaca do atleta a cada instante; sendo que a partir destas variáveis, outras mais complexas e de maior ou menor valor serão disponibilizadas após o tratamento dos dados através da utilização do software desse mesmo sistema de GPS.

Várias questões poderão ser neste momento colocadas: A sua utilização é realmente útil? Não será este mais um gadget da moda?  O que vem acrescentar?

Em primeiro lugar importa esclarecer que muito do que sabemos hoje acerca da exigência física da prática de futebol advém destes aparelhos, uma vez que foi através deste tipo de ferramentas que hoje sabemos que em média um atleta percorrerá uma distância de aproximadamente 9-12km a uma intensidade média de 80-90% da sua frequência cardíaca máxima. Permitiu também perceber quantos desses 9-12km são percorridos em sprint, quantas ações de sprint se realizam durante um jogo, e assim melhorar as metodologias de treino de forma a corresponderem às exigências impostas pelo jogo. Além disso, permitiu evidenciar que atletas de diferentes posições têm exigências físicas e metabólicas significativamente diferentes.

Sabemos também que, para o mesmo treino, os atletas têm performances distintas. Como exemplo, atletas rápidos ou com maior capacidade de aceleração, para a mesma distância percorrida, terão certamente maior distância percorrida em sprint (> 7m/s) ou alta intensidade (> 5,5m/s) do que atletas mais lentos. Assim sendo, apesar desses dois atletas poderem ter distâncias totais percorridas similares, quando comparadas as distâncias percorridas a altas velocidades terão certamente padrões diferentes, o que acarretará desgastes físico e metabólico diferentes também.

Desta forma, os sistemas GPS permitem traçar um perfil de treino/jogo individualizado para cada atleta, sendo que este poderá ser usado durante a temporada para perceber se o atleta está em sub-rendimento, se se encontra sobre fadiga, se está a ter incrementos de carga excessivos para o seu perfil, ou até mesmo, em casos de lesão, auxiliar a planificar o seu programa de reabilitação no campo.

Figura 3 – Dados de GPS de uma sessão de treino de uma equipa de futebol. De notar que, para o mesmo treino, os atletas obtiveram desempenhos diferentes. Em destaque estão: distância total percorrida, distância percorrida em alta intensidade (> 5,5m/s), distância percorrida em sprint, número total de acelerações e desacelerações superiores a 2m/s e frequências cardíacas máximas e médias.

Os sistemas de GPS são então o Gold Standard no que diz respeito à monitorização objetiva da carga interna e externa de treino e com uma utilidade inquestionável relativa ao controlo do desempenho individual de cada atleta e que poderá e deverá ser utilizado de forma ativa na planificação e gestão dos processos de treino da equipa e reabilitação de atletas lesionados.

A título de exemplo, um estímulo baixo e o sobre treino poderão levar à ocorrência de lesões semelhantes porém causadas por mecanismos distintos: o atleta com um baixo estímulo de treino poderá ter de executar tarefas/exigências físicas durante o jogo para as quais não se encontra preparado e dessa forma contrair uma lesão – má adaptação/descondicionamento; já o atleta em sobre treino, devido à fadiga acumulada, é um atleta predisposto à lesão uma vez que os estados de fadiga levam a uma falha do sistema neuromuscular que em última instância poderão levar a ocorrência de lesão aguda (e.g. lesão muscular), por outro lado são também atletas mais suscetíveis a lesões de sobrecarga (e.g. tendinopatias).

Como pode a utilização dos Sistemas de GPS auxiliar na prevenção de lesões dos músculos posteriores da coxa?

Como expusemos anteriormente, as lesões de isquiotibiais são o problema nº 1 no futebol profissional. Dispondo dos perfis individuais de GPS de cada atleta e sabendo que o grupo muscular dos isquiotibiais é extremamente sensível aos esforços realizados em alta intensidade (velocidade superior a 5,5 m/s), é possível exercer um impacto positivo na prevenção dessa mesma lesão de forma simples e eficaz:

  1. Garantir que os atletas não são submetidos a esforços de alta intensidade nas 48h seguintes a um jogo – Recuperação pós-jogo/controlo da fadiga/sobretreino
  2. Garantir que durante a semana de treinos, cada atleta perfaz um volume de treino que pelo menos iguala os valores de alta intensidade realizados num jogo, sem, no entanto, ultrapassar mais de 10% desse valor de referência de jogo (e.g. no caso de calendários com 1 jogo/semana, sendo que em calendários mais congestionados provavelmente o jogo será o estímulo de treino) – Condicionamento
  3. Garantir que nas 48h que antecedem o jogo (pelo menos), os esforços de alta intensidade são inexistentes (dia antes do jogo) ou reduzidos (2 dias antes do jogo) a um mínimo de forma a garantir total recuperação dos atletas – Recuperação pré-jogo/controlo da fadiga/sobretreino

Relação das cargas impostas ao atleta no tempo

É indiscutível que, para que a performance melhore é necessário que existam períodos de sobrecarga física (intercalados por períodos de recuperação). No entanto, sabe-se hoje que existe uma relação ótima no que diz respeito às cargas impostas num curto período de tempo (carga aguda) e as cargas impostas num período mais alargado (carga crónica). Para os interessados no tema, a Figura 4 evidencia essa relação, sendo que poderão obter mais informações acerca desse assunto através dos estudos realizados por Tim Gabbett.

Figura 4 – O registo da carga de treino aguda e crónica e a interpretação do rácio da carga de treino aguda/crónica permite determinar: se os atletas se encontram totalmente recuperados do último treino/jogo (rácio aguda/crónica – 0,80 a 1,20) → possuindo assim um menor risco de lesão; ou fatigados/não recuperados (sobre treino) – rácio aguda/crónica >1,50 → encontrando-se com um maior risco de lesão.

Os sistemas de GPS têm, no entanto, algumas desvantagens: são extremamente dispendiosos e necessitam de conhecimento especializado para o seu manuseamento e interpretação dos dados. Dessa forma, na ausência de orçamento para a sua aquisição ou de mão-de-obra para o seu manuseamento, existem outras formas de monitorizar cargas, sendo estas subjetivas e, dessa forma, com maiores condicionalismos. Porém, não são menos válidas para a avaliação da exigência dos esforços realizados ou estados de recuperação.

Medidas subjetivas de carga interna: RPE (sensação subjetiva de esforço, questionários de readiness)

A perceção subjetiva de esforço de um atleta é uma ferramenta prática e válida para a avaliação da intensidade do treino e, quando avaliada de forma sistemática e rigorosa, pode-se mostrar uma boa ajuda não-dispendiosa.  A RPE pode ser avaliada através de várias escalas, porém é comumente avaliada por um sistema de 15 pontos (e.g. 6-20) ou 10 pontos (0-10). Apesar de nenhuma escala de RPE isolada poder ser considerada ótima em todos os ambientes, até pela subjetividade das respostas poderem ser condicionadas (e.g. possível perceção do atleta que as suas respostas possam influenciar escolhas de índole técnica), estas escalas são bastante ajustadas a desportos como o futebol, de alta-intensidade, caraterizados por uma resposta fisiológica não linear.

Figura 5- Exemplo de RPE.

Para a obtenção de informação adicional, a RPE pode ser combinada com outras medidas (e.g. duração do treino), permitindo o cálculo da carga interna a que o atleta foi sujeito em determinada sessão (s-RPE). Este cálculo permitirá, por exemplo a obtenção de rácios de carga aguda (e.g. normalmente, uma semana de trabalho) /crónica (normalmente, um mês de trabalho), tendo sido já verificada a associação entre rácios > 1,5 ou <0,8 e um maior risco de lesão.

Figura 6

Em adição às informações recolhidas através da RPE, outros questionários podem ser ferramentas úteis no sentido de detetar precocemente alterações/distúrbios nos atletas. Este tipo de recolha é de extrema utilidade uma vez que, alterações na qualidade/quantidade de sono (e.g. diminuída por 2 ou mais dias), frequência cardíaca matinal em repouso aumentada (e.g. desvios superiores a 10 batidas da FC normal) e uma queda abrupta de peso corporal (e.g. > 2 a 3 % peso corporal – eventual desidratação) são indicadores de incompleta adaptação ao treino/recuperação incompleta, que poderão levar a um estado de sobretreino.

Figura 7 – Questionário de Readiness to train – Variáveis recolhidas: Qualidade do sono, Nº horas de sono, soreness muscular, apetite, cor da urina e prontidão para o treino, da esquerda para direita, respetivamente.

Dados objetivos de fadiga neuromuscular

Como temos vindo a desenvolver neste capítulo da nossa rúbrica Saúde no Futebol com a Football Medicine®, a avaliação do estado de fadiga assume um papel fundamental no processo de gestão de cargas. Dessa forma, é perentório a utilização de medidas objetivas que auxiliem a sua identificação.

A investigação científica indicia que testes de reatividade (e.g. cálculo de Reactive Strength Index – RSI – usando Drop Jumps) e até mesmo de força máxima (e.g. adductor squeeze test; monitorização da força desenvolvida no exercício Nordic Hamstrings) poderão dar boas indicações relativas ao estado da fadiga neuromuscular, além de serem testes com alguma capacidade discriminativa relativa ao risco de contrair lesões musculares.

Desta forma, estes testes poderão ser utilizados de forma sistemática antes do início do treino de modo a identificar os atletas que não se encontrem ainda totalmente recuperados ou que estejam notoriamente menos recuperados que os demais.

Não existindo uma só variável gold standard para a monitorização do estado de fadiga dos atletas, a Football Medicine® recomenda a adoção de um “método misto”, que deverá envolver quer medidas de carga interna quer externa, demonstrando um nível de fiabilidade e validade aceitáveis, sendo sensíveis a flutuações nas cargas de treino.

Figura 8: a) Drop Jump; b) Adductor squeeze test; c) Norboard.

A próxima crónica será focada na avaliação dos fatores de risco de lesão muscular, sendo que a gestão de cargas de treino é de facto o mais preponderante deles. Decidimos, porém, nesta crónica separar esse mesmo fator de risco dos demais dada a sua íntima relação com os sistemas de GPS e a complexidade que este tema pode acarretar.

Autoria: Football Medicine

Deixe o seu comentário

bomfutebol
Powered by Live Score & Live Score App