-- ------ Sub-23: será este o passo a seguir para melhorar o futebol em Portugal?
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Sub-23: será este o passo a seguir para melhorar o futebol em Portugal?

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Sub-23: será este o passo a seguir para melhorar o futebol em Portugal?

Sempre que existe uma possibilidade de mudança, o dilema recai sobre se essa mudança é o melhor caminho a seguir. Surge então o sentimento de que estamos a sair da nossa zona de conforto, pois uma mudança, independentemente de que tamanho seja, faz com que algo mude nas nossas vidas. Estamos nós prontos para a mudar?

 

1. “Tantas dúvidas, muitas contra, muitas a favor…”

Com o passar dos anos, as equipas profissionais de futebol têm desenvolvido as suas infraestruturas e os seus recursos humanos, onde os profissionais são cada vez melhores e onde cada vez existem melhores condições de trabalho. Contudo, as suas formações não têm crescido ao mesmo ritmo que a equipa profissional.

Hoje, temos clubes como o Benfica, Porto, Sporting, Braga, R. Ave e Vitória de Guimarães que têm realizado um grande investimento nas suas formações. Conferem aos seus atletas maior qualidade de treino e acompanhamento para uma melhor formação. O grande objetivo é fazer com que os seus atletas atinjam os patamares profissionais.

Complexo do Vitória receberá o campeonato sub-23.

Imagem 1 – Complexo Desportivo do Vitória de Guimarães. Fonte: vitoriasempre.net

Se analisarmos os restantes clubes, a sua formação é deixada para trás, acabando o atleta por finalizar a sua participação desportiva nos juniores. Há sempre exceções, mas essas são cada vez menos, pois os jogadores que podem usufruir de melhores condições de trabalho acabam consequentemente por ter a maior parte das oportunidades para se tornarem profissionais.

Este ano surgirá o campeonato sub-23, onde há muitas dúvidas acerca da sua importância. Muitos dizem que é apenas um prolongar da formação, outros que é uma excelente forma de promover os nossos jovens e de lhes dar oportunidades. Acredito que estamos a caminhar para algo que não conhecemos ao certo. Porém, como qualquer outra mudança, esta poderá acarretar coisas boas e más, deixando apenas a certeza que algo mudará.

 

2. Discrepância de profissionalismo entre a formação e a equipa sénior

A maioria dos contextos dos clubes da primeira e segunda Liga apresenta grandes discrepâncias entre a sua formação e a sua equipa profissional, criando um fosso enorme onde apenas os jogadores que têm maiores capacidades poderão passar sem caírem no esquecimento. Esse enorme fosso é devido a diversos fatores:

 

  • Condições de Trabalho/Exigência

As condições de trabalho no último escalão de formação nem sempre são as mais adequadas, o que dificulta muito o desenvolvimento do atleta. Quando se fala em passar um atleta do escalão de juniores para um escalão de seniores profissionais, é fundamental perceber a dificuldade de adaptação do jogador, uma vez que as condições de trabalho são totalmente diferentes. Como em tudo na vida, quando as condições de trabalho evoluem a exigência também aumenta, o que leva a que muitos atletas não consigam corresponder de forma natural às exigências das equipas profissionais.

Imagem 2 – Treino de prevenção de lesão. Fonte: rodrigopoletto.blogspot.pt

 

  • Competições de Juniores/Aspirações dos Atletas

Numa retrospetiva sobre a competição de juniores, podemos perceber que a maior parte das equipas participantes são amadoras. A maioria dos jogadores segue o contexto escolar entrando nas universidades e deixando o futebol de lado. Com isto, um atleta que queira ser profissional acaba por estar a competir com atletas (colegas ou adversários) que não têm aspirações nenhumas numa carreira desportiva, o que irá prejudicar o seu desenvolvimento enquanto jogador.

Imagem 3 – Campeonato Nacional de Juniores. Fonte: fpf.pt

 

  • Paciência/Aposta/Dedicação

Estes são três atributos que qualquer profissional do desporto terá que ter para poder promover um atleta júnior.

Imagem 4 – Uma aposta certeira de Boloni. Fonte: adeptosdebancada.com

Paciência, porque para qualquer evolução é necessário tempo, sendo este um dos aspetos mais importantes. Tudo necessita de um determinado tempo, quer seja ele de adaptação ou de evolução. Nada é imediato (pelo menos de forma sustentada e adequada ao desenvolvimento). Todos os intervenientes necessitam de ter paciência com a adaptação do atleta num contexto profissional, pois mais ninguém quer tanto como o próprio chegar ao topo. Outro atributo é a dedicação que todos têm de demonstrar pelo desenvolvimento do jogador. Não basta querer só que ele “chegue lá”, é necessário ajudá-lo a lá chegar. Por isso, existem treinadores que formam 7 jogadores em 10 e outros que formam 2 em 10.

Por fim, é preciso apostar no jogador, não tendo pressa que ele resolva todos os problemas do clube. Ser realista e ter conhecimento das capacidades e potencialidades do atleta.

Uma promoção sustentada nestes três atributos terá certamente maior probabilidade de sucesso.

 

3. Exemplo do Portimonense

Por experiência própria, num contexto como o Portimonense, a equipa profissional encontra-se a uma distância de profissionalismo muito grande em relação à equipa de juniores. Não significa que o trabalho a esse nível seja mal feito, mas sim que os jogadores, mesmo fazendo os dois anos de juniores, não se encontrem preparados para um patamar profissional de modo a dar o mínimo de resposta.

Imagem 5 – Portimonense, um dos clubes que irá criar equipa de Sub-23. Fonte: portimonense.pt

A equipa de juniores está, neste momento, a disputar a 2.ª Divisão Nacional de juniores. Disputa jogos contra equipas de diferentes níveis de aspirações dos seus jogadores. Os jogadores que chegam a juniores vêm de um contexto de competição distrital, onde conseguem muitas vezes ser campeões devido às diferenças significativas de qualidade de jogadores. Aquando da sua chegada ao patamar júnior, muitos deles não se encontram preparados para um trabalho mais profissionalizado, servindo o 1.º ano (de juniores) apenas para adaptação do jogador ao novo contexto.

Mesmo após uma adaptação a um nível mais profissional mas não suficiente, encontramos uma grande dificuldade na mentalidade e aspirações dos atletas para um trabalho mais profissional. Num patamar que porventura serviria para ser a rampa de lançamento para a equipa profissional, encontramos muitas vezes jogadores que preferem ir de férias com os pais ou em viagens de finalistas do que marcar presença no jogo do campeonato. Esta é uma realidade das aspirações da maior parte dos juniores do nosso país. Querem, mas ao mesmo tempo não querem muito. Esta é uma das grandes dificuldades de adaptação que os atletas encontram quando chegam a um contexto mais profissionalizado.

Na minha opinião, dificilmente teremos jogadores prontos a entrar numa convocatória numa equipa principal provenientes do escalão de juniores. Isso não significa, contudo, que não haja jogadores com potencial que possam integrar os treinos e que fiquem como jogadores de reserva à espera da sua oportunidade (uma vez que os 2 primeiros anos de sénior devem ser vistos como um investimento pessoal da parte do jogador). Apenas acredito que é preciso promover os jogadores mais próximos do patamar de profissionalismo desejado ao mesmo tempo que tenham potencial de qualidade técnica que permita a sua constante evolução. Posteriormente, é necessário os três atributos anteriormente referidos de forma a que o jogador consiga entrar num mundo novo ao qual ele não fazia ideia que existia.

Imagem 6 – Atleta dos Juniores do Portimonense Futebol SAD que assinou contrato com a SAD. Fonte: portimonense.pt

Um exemplo disso é o atleta Bruno Reis, com o qual tive o prazer de trabalhar. Assinou contrato com o Portimonense, cuja sua inserção no contexto profissional está a ser efetuada com todos os pressupostos.

 

4. Poderão os Sub-23 Servir os Propósitos da Formação?

Tal como o Portimonense, acredito que outras equipas passem pelo mesmo processo. Acredito que a chegada da competição de sub-23 permita uma melhor inserção dos atletas num contexto profissionalizado. Esperando sempre, claro, que os clubes utilizem realmente esta competição para promover a formação de atletas profissionais e não apenas como um escalão pós-juniores.

Uma competição profissional, onde o trabalho efetuado é todo ele profissional com o objetivo de permitir que os atletas entre os 18 e os 23 anos se desenvolvam de forma a inserirem os mesmos pressupostos que na equipa A.

Neste momento, apenas a equipa B do Porto está a apresentar resultados competitivos na Segunda Liga, estando as restantes com algumas dificuldades para se manterem na mesma ou atingirem patamares superiores na tabela classificativa. Claro está que existem muitos fatores para esse acontecimento, mas um deles é a procura das equipas B em fomentar um jogo de qualidade técnica o que por vezes não permite atingir o resultado mais desejado. Não esquecendo que os relvados e os estilos de jogo das equipas da Segunda Liga não promovem a qualidade de jogo técnica desejável para a formação de atletas de alta qualidade. Havendo, claro está, sempre exceções.

Podemos dizer que um atleta do Benfica, Sporting ou Porto encontra-se mais preparado que os restantes jogadores para inserir uma equipa profissional. Ainda assim, dentro do clube onde é formado, apresenta também semelhantes dificuldades para conseguir entrar na equipa principal.

Em minha opinião, a competição sub-23 irá permitir que os jogadores possam entrar num contexto mais profissionalizado antes de serem inseridos numa equipa A profissional. A competição deverá servir para formar e permitir que as equipas procurem estilos de jogos atraentes onde a qualidade terá de ser um fator preponderante para o desenvolvimento da competição. Se não for assim, não valerá a pena e só será mais uma.

“A mudança é sempre boa, tanto pode servir para melhorar, como pode ajudar a perceber que o caminho não é aquele que pensávamos.”

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