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É tempo de balanços – Liga de Elite Allianz

Numa altura em que findam as épocas desportivas em Portugal, é tempo de fazer alguns balanços de como correu a época.

Hoje centro-me na recém-criada Liga de Elite (1ª Divisão de Futebol Feminino), a qual finda agora a sua primeira época após ter sido remodelada e acrescentada de equipas que foram convidadas para ingressar directamente nesta prova, nomeadamente o Sporting CP, o Sporting de Braga, o CF “os Belenenses” e o Estoril Praia.

Numa reflexão feita anteriormente ao início da época desportiva, já tinha esgrimido a minha posição, algumas preocupações e sugestões, nomeadamente neste artigo:

http://serginhocoach.blogspot.pt/2016/05/futebol-feminino-liga-de-elite-e-solucao.html

O objectivo de trazer mais atenção, equipas e adeptos ao futebol feminino foi conseguido?

Podemos dizer que este objectivo foi parcialmente conseguido, uma vez que Sporting CP e Sporting de Braga criaram novas equipas, e por conseguinte os seus adeptos. No entanto, e face ao desinteresse de mais equipas, foram convidadas para esta nova Liga de Elite o Belenenses e o Estoril, que já tinham equipas a competir no Campeonato de Promoção, não trazendo estas mais adeptos à modalidade.

Em termos de visibilidade, Sporting CP e Sporting de Braga sem dúvida que trouxeram mais visibilidade, quer através dos seus canais de comunicação que levaram jogos e resumos a mais público, quer através de público a assistir aos jogos, nomeadamente o Sporting CP que conseguiu em alguns jogos ter adeptos no estádio ao nível de equipas de Futebol Feminino Norte Americanas.

A mudança trouxe mais competitividade ao campeonato?

Este ponto torna-se mais discutível. Embora com o regresso de jogadoras internacionais Portuguesas de qualidade mais que comprovada, a aquisição de internacionais brasileiras e jogadoras espanholas que trouxeram um acréscimo enorme de qualidade ao campeonato, a verdade é que se cavou um fosso entre as equipas que lutaram pelo campeonato e a maior parte das outras equipas.

A equipa do Sporting de Braga conseguiu a proeza de acabar a época com uma média de 5,77 golos marcados por jogo, enquanto que a equipa do CAC Pontinha acabou a época com uma média de 8 golos consentidos por jogo. Daí se pode perceber que a competitividade da prova não foi um objectivo conseguido, havendo praticamente em todas as jornadas goleadas.

A política de aquisição de apenas 2 atletas por equipa resultou?

Este foi outro dos pontos que não resultou na sua totalidade. Se bem que a maior parte das equipas apenas viu sair duas jogadoras de mais-valia dos seus plantéis, mantendo uma base que permitiu continuar minimamente competitivas, esta política apenas se aplicou às equipas que competiam no escalão maior. Isto criou um problema ao CAC Pontinha, que ao tornar-se justa campeã do Campeonato de Promoção não esteve abrangida por esta política de salvaguarda, sofrendo assim uma debandada das suas jogadoras, diminuindo drasticamente a competitividade do seu plantel.

A formação de jogadoras em Portugal teve ganhos?

Esta pergunta claramente não poderá ser respondida a curto prazo, no entanto há bons indicadores, embora pudessem e devessem ser mais claros.

O Sporting CP claramente aposta forte na formação, criando vários escalões de formação que a médio/longo prazo vão sustentar a equipa principal. O Sporting de Braga claramente apostou numa política que visava essencialmente o plantel sénior, não se vendo qualquer iniciativa no departamento de formação. Estoril e Belenenses também mantiveram as suas políticas em relação à formação.

A estabilidade dos projectos convidados foi salvaguardada?

Este ponto será porventura o mais calamitoso. Se Estoril mantém a sua política de crescimento sustentado, Sporting CP e Sporting de Braga continuam com os seus projectos ambiciosos, um sustentado pela formação outro com objectivos práticos de aposta sénior (o que me leva a ter algumas reservas acerca da manutenção do projecto a médio/longo prazo se não forem atingidos títulos a curto prazo), o Belenenses apostou numa estratégia que acabou por ser ruinosa, para o seu lado como para o lado de equipas vizinhas.

Primeiramente apostou em ir buscar atletas ao CAC Pontinha, arruinando o projecto sustentado que esta equipa vinha a apresentar (e aqui temos de valorizar a perseverança desta instituição em manter o projecto feminino perante as adversidades), depois ao desistir do projecto feminino após não ter conseguido a manutenção no principal escalão feminino.

Na altura escrevi o seguinte:

“Ao entrarem directamente para a Liga de Elite, se os directores, seja por uma má classificação da equipa, seja por cortes financeiros, seja pela falta de jogadoras, seja por outro motivo qualquer, decidam desistir da participação no futebol feminino. Como será então? Ficará um lugar por preencher na Liga de Elite e esta ficará mal vista no panorama do futebol.”

A ver vamos quais as consequências que esta desistência terá, tanto para o futebol feminino como para a própria instituição.

Poderemos então concluir que foram alterações que vieram desenvolver o futebol feminino em Portugal?

A meu ver, e independentemente da forma algo precipitada como foi feito o processo e apesar de nem tudo ter sido positivo, pode-se afirmar que estas alterações vieram trazer mais visibilidade entre meios de comunicação e público ao futebol feminino.

Mas não se pode pensar que o trabalho estará feito, o regresso de jogadoras de mais-valia e a contratação de jogadoras estrangeiras não traz mais competitividade ao campeonato se não for acompanhado de profissionalismo ou semi-profissionalismo dos clubes e jogadoras do principal escalão nacional.

O facto de haver equipas de renome nacional com equipas femininas na Liga de Elite não faz com que haja mais e melhor formação de novas jogadoras de futebol. Estas não aparecem sem que haja uma aposta forte na formação no feminino. De modo a no futuro podermos ter uma selecção nacional mais forte e competitiva a lutar com as grandes potências internacionais e clubes a competir de igual para igual na Liga dos Campeões, é fundamental a aposta na formação ser bastante mais agressiva, captando jogadoras cada vez mais cedo, com competições exclusivamente femininas desde os escalões de base, quer a nível Nacional quer a nível Distrital.

O passo seguinte terá de ser obrigatoriamente uma maior e melhor formação de jogadoras.

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