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Um Treinador na China – Capítulo 12

Um Treinador na China - Capítulo 12

Um Treinador na China – Capítulo 12

Após o fim de um grupo de formandos, nesta semana que passou, outro entretanto iniciou a sua formação de treinador. Trago até vós, leitores do Bom Futebol, as aventuras que esta formação de treinadores me tem proporcionado.

Mais de uma semana de trabalho se passou pela China. Durante esse período o primeiro grupo terminou a sua formação e imediatamente deu-se início ao segundo grupo a fazer a sua formação de treinador de futebol. Estes dois períodos de formação de treinadores de futebol na China, além das novas peripécias, permitiu-me conhecer melhor a cultura chinesa.

Novamente a neve a mudar os planos

Pois é, novamente a neve. Já não bastava de devido à neve, basicamente ter ficado sem dar aulas nas duas últimas semanas de aulas, também no fim da formação do primeiro grupo de formandos, a neve veio mudar os planos. No momento em que escrevi o último capítulo, estávamos a entrar na parte final da formação do primeiro grupo de 80 formandos. Contudo com a queda de neve durante três dias consecutivos, o planeamento que estava programado acabou por mudar. Ainda se chegou a realizar aulas práticas nos primeiros dois dias que caiu neve. Mas ao terceiro dia a nevar, a quantidade foi tão grande que até ao final da formação teve que se cancelar as últimas aulas práticas bem como a avaliação prática.

Desta forma a avaliação que deveria ter sido feita no campo, com a demonstração dos exercícios criados pelos formandos, passou a ser numa sala de aula. Para serem avaliados nessa componente, os formandos tiveram que apresentar os exercícios criados numa quadro, explicando as especificidades do exercício. Como a apresentação era feita de forma oral, os coordenadores do curso optaram por excluir a mim e ao Sérgio desse processo de avaliação.

Início de um novo curso

Finalizado o curso para o primeiro grupo de 80 formandos, outros 80 iniciaram a formação no dia seguinte. O planeamento e organização dos dez dias de curso para este segundo grupo foi igual ao primeiro. Aulas teóricas na parte da manhã. Na parte da tarde um período para os formandos demonstrarem os exercícios por si prescritos, tendo em conta a temática que nós demonstrávamos no dia anterior. Se eu e o Sérgio demonstrássemos exercícios de passe curto, no dia seguinte os formandos demonstravam os seus exercícios, enquanto que nós observamos e demos os nossos conselhos.

Este segundo grupo, apesar de ter na mesma muitos formandos com pouca motivação em aprender como treinar futebol, contou com mais gente informada e motivada a aprender. Num grupo de 80 pessoas, haver entre 10 a 15 formandos com interesse e em busca de conhecimento para serem melhores treinadores, pode parecer pouco. Mas para a realidade do que é a China, este pouco pode fazer muita diferença no futuro. A mudança que se quer fazer na China, em termos futebolísticos, terá que ser devagar e aos poucos. Contudo, como diz o ditado popular: devagar se vai ao longe!

Decorrer do curso e processo de avaliação (Parte 1)

Como disse anteriormente, neste novo curso teve mais pessoas motivadas a aprender mais e melhor, do que no primeiro curso. Muitas dessas pessoas vinham de um background futebolístico. Outras somente conheciam minimamente o jogo, mas tinham a iniciativa de conhecer melhor e serem melhores treinadores.

Desta vez a neve não veio para atrapalhar, apesar do muito frio que se fez sentir. Com temperaturas máximas a rondar os 2ºC, as aulas práticas por vezes era difíceis de aguentar. Mesmo assim todas as aulas foram dadas na totalidade, ao contrário do que tinha sucedido durante o primeiro grupo de formandos.

Desta vez, eu e o Sérgio fomos peças fulcrais no processo de avaliação prática. Nos dois últimos dias, os formandos tiveram que demonstram os exercícios por si planeados. Para tal tinham dez minutos à sua disposição para mostrar quantos exercícios quisessem. A temática e objectivos dos exercícios foram da inteira responsabilidade dos formandos.

A avaliação prática correu como eu esperava. A maioria dos formandos optou por planear exercícios de baixa riqueza táctica e simplistas. Ou seja, os exercícios que demonstraram para avaliação cumpriam os requisitos mínimos da temática que eles se proponham a ensinar. Contudo usaram na sua maioria, exercícios descontextualizados e com pouca similaridade à realidade do jogo. Como disse, era algo que esperava que acontecesse. Contudo houve pelo menos dois formandos que foram avaliados por mim, que foram contra esse marasmo dos exercícios descontextualizados e mostraram exercícios com alguma riqueza táctica.

Decorrer do curso e processo de avaliação (Parte 2)

Na minha opinião, o pior não foi a qualidade táctica dos exercícios apresentados. Sempre disse a eles que não há exercícios bons ou maus. Há exercícios que são melhores para uma situação e outros para outra. Muitos dos que apresentaram exercícios descontextualizados justificaram que tinha planeado os exercícios para uma equipa em fase de iniciação, com o objectivo de ensinar e aprimorar o nível técnico de determinado gesto técnico individual. É uma decisão aceitável, já que em jogadores bastante jovens que estão a iniciar a sua actividade no futebol, esse tipo de exercícios é útil. Contudo, o que mais me preocupou, e que durante toda a formação eu insisti, é que eles tinham que ser capazes de em treino, corrigir as acções do jogadores. E o que eu assisti foram erros atrás de erros técnicos e muito pouca intervenção dos treinadores aquando desses mesmos erros de execução.

Mais difícil do que planear exercícios e treinos, é a operacionalização dos mesmos. Ou seja, ser capaz de além aplicar os exercícios em condições, de também observar os erros dos jogadores, corrigi-los e orientar os jogadores a serem capazes de descobrir o que devem de fazer correctamente. Mas infelizmente foram muito poucos os formandos que foram capazes de intervir no momento certo e orientar adequadamente os exercícios que tinham planeado.

Melhor conhecimento da cultura chinesa

Estes dois cursos de treinador de futebol deu também para perceber melhor um pouco da forma de ser do povo chinês. Muitos deles são incapazes de dar uma resposta concreta sobre um assunto. Se muitas vezes pergunto algo sobre um determinado assunto, levo um talvez como resposta. Eu gosto das coisas preto no branco. O pior que me podem responder é o talvez. Penso que esta incapacidade de tomar uma decisão deve-se ao facto de muitas das decisões são tomadas por alguém hierarquicamente superior. Uma situação um pouco típica num país com o regime como a China. Atenção, que não estou a dizer que é um regime pior ou melhor. Simplesmente é um regime diferente e que na China funciona bem.

Outro aspecto que eu percebi dos costumes chineses, é que por vezes não entendem o conceito de pontualidade. Nos primeiros dias dos dois cursos os atrasos eram recorrentes. Claro que estou a falar de atrasos de alguns minutos e não de horas. Mas somente após os formandos terem levado um apertão é que as coisas tomaram o rumo certo.

Breve interregno na aventura chinesa

Pois é, caros leitores do Bom Futebol, as minhas histórias pela China vão sofrer uma breve paragem. Isto porque vou aproveitar o resto das férias de Inverno para voltar a Portugal e estar juntos dos que mais me fazem falta. No início de Março voltarei novamente à China, para o início do segundo semestre e para trazer até vós muitas mais histórias. Até breve!

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