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Um Treinador na China – Capítulo 2

Um Treinador na China – Capítulo 2

Após, no primeiro capítulo, ter relatado as peripécias iniciais como treinador na China, neste segundo capítulo foco-me na minha primeira semana de trabalho. Diferenças e semelhanças entre o ensino em Portugal e na China, bem como o conhecimento do futebol neste país asiático.

Primeira dia de trabalho

Em todas as escolas da China, as segundas-feiras começam todas da mesma forma. Às 7h40 em ponto, todos os alunos da escola perfilam-se nos espaços exteriores da escola e assistem ao hastear da bandeira da China, isto ao som do seu hino. Na escola primária onde estou, que na China vai do primeiro ao sexto ano, são ao todo 5700 alunos. Agora imaginem, esta quantidade de alunos todos alinhados ao jeito de desfile militar a assistir ao hastear da bandeira da sua nação? Senti-me ao mesmo tempo impressionado e invejoso.

Eu sei que o patriotismo de uma nação não se mede somente por actos como este. Contudo uma criança ter este hábito de respeito e amor à sua pátria, cria de forma inconsciente um maior senso de união entre todos os chineses. É que é preciso não esquecer que a China é um país do tamanho da Europa, divididos por províncias. Cada província é como se fosse cada país europeu. Têm a sua própria cultura, gastronomia e até dialecto e linguagem própria. As diferenças entre um chinês de uma província do sul e outro mais a norte, é como a diferença entre um português e um norueguês. Portanto acções como o hastear da bandeira ajudam a manter uma ligação comum enquanto nação, num país tão diversificado como a China.

Após esta cerimónia de hastear da bandeira, segue-se um momento em que é feito o balanço (relatório) do que sucedeu na semana anterior e os melhores alunos e professores são distinguidos. Apesar de a China ser um país comunista, há espaço para o mérito individual. A finalizar a cerimónia que acontece todas as segundas-feiras, é feito uma descrição dos eventos que acontecerão na semana que se inicia. Como este era o meu primeiro dia de trabalho, neste momento fui apresentado a toda a escola, como sendo o novo professor de Futebol da escola. Terminada a reunião, às 8h em ponto, todos os alunos deslocaram-se para as salas de aula, a marchar como soldados.

Dia a dia na Escola

Tirando o que descrevi que acontece às segundas-feiras, nos restantes dias as aulas começam às 8h. As turmas são compostas em média por 60 alunos. É verdade! Cada turma tem 60 alunos. Algumas até mais.

Às 10h da manhã, todos os alunos voltam para o espaço exterior, novamente a marchar. Entre as 10h e as 10h40, é realizada a actividade física diária. Os alunos fazem alguns exercícios coreografados, todos ao mesmo tempo e seguindo a mesma coreografia. Novamente a organização é ao estilo de parada militar. Para terem a noção, imaginem uma daquelas aulas de grupo de ginásio mas com mais de 5000 alunos a fazerem, sendo que alguns professores também fazem a actividade. Impressiona pela imensidão de pessoas a realizar a mesma coreografia no tempo certo.

Após esta actividade diária, cada turma segue um horário diferente. Umas voltam à sala de aula, outras têm aulas de educação física. Vai variando de turma para turma e de ano para ano. Sendo que às 16h as aulas acabam, havendo depois tempo para as actividades extra-curriculares que cada aluno se inscreve de forma voluntária.

A primeira aula de Educação Física

Como disse no capítulo 1, o governo chinês tornou obrigatório o Futebol como actividade de Educação Física nas escolas públicas. Consoante o nível escolar as aulas de Educação Física têm 30 minutos de duração, no ensino primário, e 40 minutos de duração, no ensino médio e secundário. Portanto as minhas aulas duram 30 minutos. O que ensinar com 60 alunos, em 30 minutos? Sendo que cada turma só tem uma aula de Futebol por semana?

A realidade é que estas aulas de Futebol inseridas na Educação Física não vão servir para que fiquem a jogar melhor Futebol. Servem essencialmente para promover a modalidade nestas crianças para que se tornem adeptos e apaixonados de futebol no futuro, e que desses apaixonados saiam jovens interessados a serem profissionais de futebol. O conhecimento do público em geral sobre o futebol é bastante baixo. Há colegas chineses professores de educação física que me dizem que não conhecem os termos de futebol e que não conhecem bem o conceito do jogo. Para quem vem de um país em que o futebol é uma constante e algo enraizado na nossa cultura, causa bastante estranheza tal desconhecimento. Mas por outro lado é bom perceber que há sítios que ainda não foram afectados pelo “vício” do futebol.

Ficarei a dar aulas às turmas do terceiro ano, com alunos entre os 9 e 10 anos. São 14 turmas no total, com a média de 60 alunos por turma (que geralmente são mais por turma), tenho cerca de 840 alunos de terceiro ano, a quem passar o “bicho” do futebol. Na primeira aula de Futebol percebi logo que o caminho é muito longo para que o Futebol possa evoluir como modalidade número um no país. Mas fiquei ainda mais surpreendido pelo baixo nível de alfabetização motora das crianças na China.

Considero a China como uma das potências mundiais desportivas. Em cada edição dos Jogos Olímpicos, a China é dos países que mais medalhas de ouro arrecada. Associava esses registo ao facto de desde novos fossem ensinados os fundamentos básicos para uma boa habilidade motora e tivessem uma forte cultura do desporto e da educação física. A verdade é que vi muitas crianças que mal sabiam correr, fazer deslocamentos laterais e outras acções motoras básicas. A noção de espaço também é algo que eles não têm. Como fazem diariamente aquela actividade física em fila indiana, numa aula se pedes aos alunos para correrem colocam-se de imediato em fila indiana e começam a correr. Não há uma noção de correr livremente por um espaço delimitado, sem ter de seguir a sombra de alguém.

No fim da primeira aula eu pensei que tudo tinha sido caótico e os objectivos de desempenho não tivessem sido cumpridos. Mas os responsáveis escolares tinham outra ideia. Disseram que foi uma aula muito interessante e que as crianças adoraram e sorriam bastante. Aqui está outro conceito que eu pensava que não ia encontrar na China. A Educação Física é encarada mais como um tempo para os alunos brincarem, divertirem e sorrirem, do que para ganharem um verdadeiro conceito de habilidade motora ou desportiva. Para eles, se as crianças acabarem as aulas a sorrir a missão foi cumprida. Pelos vistos cumpri os requisitos nesse ponto.

Primeiro Treino da Equipa de Futebol da Escola

As restantes aulas de Educação Física correram melhor. Consegui arranjar mecanismos de organização que tornaram a aula menos caótica e mais organizada, dentro do que é possível fazer com 60 alunos. O nível de desempenho continuou abaixo do que esperava, mas terei eu que ser menos exigente em relação a esse ponto.

Além das aulas, terei também que dar treinos à equipa de futebol de Sub-10 da escola. Após a experiência das aulas de Educação Física, a minha expectativa para a equipa de futebol era baixa. A verdade é que os que se inscrevem na equipa de futebol são os que genuinamente gostam da modalidade e que no meio de tantos alunos são os que demonstram melhor habilidade para com o jogo.

Tendo as expectativas mais baixas para o primeiro treino, acabei por ficar positivamente surpreendido com o nível geral. Comparando com jogadores da mesma idade em Portugal, de uma maneira geral estão atrasados no seu desenvolvimento enquanto jogadores. Os jogadores chineses têm uma relação individual com a bola bastante positiva. Em termos gerais são bons na condução de bola e no domínio de algumas técnicas de finta e drible. Contudo quando se passa do 1×1 para situações mais complexas a sua noção de jogo é bastante baixa e o nível de qualidade de execução do passe também deixa algo a desejar.

Costuma-se dizer que em terra de cegos, quem tem olho é rei. A verdade é que houve um dos jovens jogadores da equipa que claramente se destaca dos demais. É dos jogadores mais baixos e franzinos da equipa mas com a bola nos pés não há melhor que ele. Além de ter uma boa habilidade técnica em relação aos outros, é o único jogador que possui alguma inteligência de jogo que o ajuda a tomar a melhor decisão em contexto de jogo.

É nisto que poderá ser a grande força da China no futebol para o futuro. Num país tão grande e com tantas pessoas, no meio desta densidade populacional surgirão desde cedo elementos que se destacarão dos demais no futebol. A partir daí, a esses elementos terá que ser dada as condições de treino e competitivas para que possam desenvolver o seu potencial desportivo e futebolístico e possivelmente tornarem-se em jogadores profissionais de futebol. Ou seja, o investimento feito neste momento, só terá retorno daqui a 10 ou mais anos.

Viagem a Xian, a capital da província de Shaanxi

A primeira semana de trabalho acabou por ficar interrompida na quarta-feira. Todos nós, treinadores estrangeiros, que entramos com o visto de trabalho temos que pedir o visto de residente. E para esse visto de residente o atestado médico realizado no nosso país tem de ser aprovado pelo governo chinês. Desta forma tivemos que nos deslocar a Xian, a capital da província de Shaanxi, para que tudo fosse devidamente aprovado.

Xian foi a primeira capital da China unificada, portanto é uma cidade bastante antiga e cheia de história. Tem uma muralha com mais de 2000 anos de existência que rodeia a zona central da cidade, onde se localizava o palácio do Imperador chinês. Para algo com mais de 2000 anos está impecavelmente conservada, sendo um espaço para se dar longas caminhadas ou passeios de bicicleta. É, aliás, em cima da muralha de Xian que se realiza a Maratona Internacional de Xian. Este foi um dos pontos turísticos visitados na nossa estadia por Xian.

Contudo, para mim, o ponto alto da estadia em Xian foi a visita ao Exército de Terracota. É algo verdadeiramente impressionante, o pormenor de cada estátua, sabendo que é algo que foi construído há mais de 2000 anos. Um verdadeiro pedaço de história chinesa mas acima de tudo um pedaço de história de toda a humanidade.

Para a próxima semana conto voltar ao vosso contacto, com mais histórias interessantes para partilhar com todos vós.

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