-- ------ Um Treinador na China - Capítulo 3 - Bom Futebol
Bom Futebol

Um Treinador na China – Capítulo 3

Campo China

Um Treinador na China – Capítulo 3

Mais uma semana de trabalho se passou na China e mais um capítulo desta minha aventura. O meu entendimento da cultura e forma de ensino chinês tem vindo a melhorar de semana para semana. Esse melhor entendimento tem feito com que me sinta mais preparado a cada aula/treino que passa.

Ser criança não tem nacionalidade

Nesta segunda semana de aulas na China dei-me conta de uma verdade universal. Uma criança na China, em Portugal ou em qualquer outro país do mundo, irá sempre comportar-se como uma criança. Irá ser sempre traquina, no bom sentido da palavra. Irá explorar o limite de até onde pode ir nas suas brincadeiras e acções, esperando por uma possível reacção de aprovação ou negação dos adultos. Ser uma criança não tem nacionalidade, é pura e simplesmente instinto.

De uma forma geral, as crianças e jovens chineses são mais organizados e até talvez mais “inocentes” do que as crianças ocidentais. São formados pela escola, desde muito cedo, a comportarem-se de forma organizada e algo “militar” nas suas actividades. Na actividade física diária, cada turma comporta-se como uma unidade militar a marchar, sendo que se não estiverem a fazer correctamente além de serem corrigidos pelo(a) professor(a), estão sob o olhar atento e correctivo do(a) reitor(a) da escola. Isto cria neles um sentido de unidade colectiva acima de qualquer brilharete individual.

Os Criativos

Contudo, como em qualquer conjunto de crianças ou jovens, há sempre os mais matreiros, que gostam de esticar até ao máximo o limite das suas brincadeiras. Alguns até ultrapassam esses mesmos limites. São os criadores de caos dentro de qualquer ordem existente. E durante um jogo de futebol, na tua equipa tens que ter esse tipo de jogadores. Aqueles que gostam de ir acima dos limites da organização de jogo e criam o caos, alterando toda a ordem existente. Geralmente são esses jogadores que toda a gente adora ver jogar.

São os chamados criativos. Aqueles que quando o jogo está muito fechado (com uma ordem de equilíbrio entre forças ofensivas e defensivas das duas equipas), encontram uma solução totalmente inesperada (uma jogada individual, um passe a rasgar, um remate totalmente inesperado, etc.), criando caos e a possibilidade de marcar golo, ou na pior da hipóteses, de sofrer golo. São os jogadores que têm a capacidade de resolver um jogo, seja para o bem como para o mal.

Segunda semana de aulas

Consciente desta forma de ser universal das crianças, a segunda semana de aulas correu bem melhor que a primeira. Apesar do desempenho geral ser ainda baixo, notam-se sinais de melhoria na relação com a bola, tendo em conta a primeira aula. Enquanto que na primeira aula, a bola era um objecto totalmente estranho, nesta segunda aula, percebe-se que os alunos começam a aceitar a bola de futebol e as acções que podem fazer com ela.

Este ligeiro melhoramento de desempenho tem sido mais evidente nas meninas. Apesar de as turmas serem mistas, para a minha aula eu divido a turma em quatro grupos. Neste caso, dá sensivelmente dois grupos de meninas e dois grupos de meninos. Há casos em que há grupos mistos. Mas mesmo nesses grupos mistos verifica-se que as alunas são mais concentradas na tarefa que estão a realizar e mais metódicas. Enquanto que os alunos são mais velozes nas suas acções mas mais rapidamente perdem o foco da acção que estão a aprender. Não me surpreenderia que as alunas tenham uma evolução mais rápida que os alunos.

Contudo o mais importante é existir sinais de evolução de desempenho por parte de todos os alunos. Procuro dentro das aulas que haja organização mas sempre com espaço para a criatividade (o tal caos) e que os alunos possam descobrir os limites das suas acções “futebolísticas”. Acima de tudo, procuro que tudo isto seja feito com um sorriso nos lábios.

Yan’an, a cidade berço do comunismo chinês

Apesar de pouco ou nada conhecido por parte do público português em geral, a cidade de Yan’an tem uma grande importância histórica para aquilo que é a China actual. Foi aqui em Yan’an que agricultores e desfavorecidos de toda a China, que se juntaram ao Exército Vermelho (ala militar do Partido Comunista Chinês) terminaram a sua Grande Marcha, em 1935, e estabeleceram Yan’an como a sede do Partido Comunista Chinês até perto do fim da Guerra Civil Chinesa. Durante esse tempo, foi em Yan’an que Mao Zedong, carismático líder comunista, trabalhou nas bases que hoje são o alicerce da China actual.

Sendo um local tão importante da história recente chinesa, Yan’an tem um museu dedicado à revolução comunista e ao trabalho feito por Mao Zedong. Na visita a esse museu fica-se a conhecer o papel da cidade de Yan’an na história do Partido Comunista Chinês. Desde o fim da Grande Marcha, as decisões tomadas durante a guerra com o Japão e bem como durante a guerra civil chinesa, que culminou com a vitória do Partido Comunista Chinês e a ascensão do comunismo ao governo do país. A importância de Yan’an é tão grande para o comunismo que a doutrina comunista chinesa é assente no que eles chama de “espírito de Yan’an”. Esse “espírito” é um conjunto de linhas orientadoras morais de como um verdadeiro líder comunista deverá se comportar.

Imagem 1 – Estátua de Mao Zedong à entrada do Museu Revolucionário Comunista de Yan’an

Após perceber a importância histórica da cidade de Yan’an, sabendo ainda que o actual presidente chinês, Xi Jinping, também viveu na cidade durante algum tempo, não é de estranhar as constantes referências ao Partido Comunista Chinês ao longo de toda a cidade.

Próximo Capítulo

Para o próximo capítulo espero continuar a ter histórias novas desta minha aventura para partilhar convosco. Sejam elas histórias sobre o trabalho ou a sobre a grandiosa história deste enorme país, que é a China. Até a próxima semana!

Deixe o seu comentário

bomfutebol
Cópia não permitida! Conteúdo protegido por direitos de autor.