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Um Treinador na China – Capítulo 5

Campo China

Um Treinador na China – Capítulo 5

Mais uma semana se passou e mais um capítulo da minha aventura na China. Este é o quinto capítulo de uma aventura longe da família, dos amigos e do conforto do meu país. Mas uma aventura que espero que me traga um crescimento enquanto treinador, como pessoa e como cidadão do mundo.

A minha aventura pela China vai-se tornando cada vez mais rotineira de semana para semana. De segunda a sexta feira são os dias de trabalho. Enquanto que no fim de semana estou de folga e aproveito para conhecer um pouco melhor a cidade. Apesar desta rotina que começa a instalar-se, há sempre algo novo que surge e agita essa corrente.

As aulas de Educação Física

Tal como referi no capítulo anterior, a evolução de semana para semana tem sido lenta. Com cada aluno a ter somente 30 minutos de aula de Futebol por semana, é expectável a lenta progressão. Apesar de lenta essa melhoria de desempenho existe verdadeiramente. E esta semana foi mais uma semana de trabalho em que senti isso.

Continuam a ser as meninas que mais margem de progressão têm demonstrado. Apesar de por vezes realizarem as actividades a uma velocidade que parece ser feito em câmara lenta, as alunas são mais focadas e concentradas na tarefa em questão e isso ajuda-as a terem uma evolução mais notória que os alunos. Os rapazes gostam mais de acção e velocidade. Isso ajuda a que as suas acções sejam mais rápidas mas mais facilmente descontrolam-se e passam a fazer acções que perturbam o bom funcionamento das aulas.

Em qualquer dos casos, alunas ou alunos, há uma notória evolução desde a primeira aula realizada. Actualmente, boa parte dos alunos procura realizar a actividade dentro do espaço delimitado para tal. E os casos de alunos que usam as mãos como meio para parar a bola, quando esta lhes foge do controlo, é cada vez menor. Verdade que a velocidade de execução e a qualidade da mesma, de forma geral, ainda estão longe do nível razoável. Contudo o simples facto de estes alunos terem 30 minutos em contacto constante com uma bola, seja a andar com ela nos pés ou a fazer algo fora do contexto de aula, é bom. A verdade é que 90% destes alunos só voltarão a tocar numa bola de futebol na aula da semana seguinte, portanto todo o contacto que tenham com a bola servirá para evoluírem.

Equipas de Futebol da Escola

Esta semana senti também um maior desempenho nas duas equipas da escola que treino. Com a dificuldade de somente ter um treino por semana com eles, senti que em contexto de jogo estão a procurar evitar a confusão do “jogo nuvem”, apesar de ainda não terem a base técnica que lhes garanta um jogo mais fluído. Pelo menos vi intenção da parte deles de começarem a ocupar melhor o espaço.

Esta evolução foi mais notória na equipa que treino à terça feira. Esta é uma equipa que apresenta já um melhor domínio da técnica de controlo de bola e drible, que a equipa que treino à quarta-feira. Já conseguem ter um desempenho aceitável nas acções ofensivas de 1×1, tendo esta última semana passado para situações de 2×1.

O objectivo da evolução para um contexto mais complexo, é o portador da bola perceber que há um colega com quem pode e deve cooperar para ultrapassar o adversário. Fazer perceber ao portador da bola que melhor decisão tomar tendo em conta o contexto de jogo, isto porque nem sempre passar é a melhor decisão.Logo que coloquei a situação de 2×1, os atacantes passavam a bola para o colega sem verificarem a posição defensiva do adversário. Ou seja, por vezes o defesa estava mal colocado (defendo o atacante livre e não o portador da bola) e eles passavam a bola na mesma, apesar de terem espaço livre para progredir em direcção à baliza com a bola controlada.

No fim do exercício já estavam a perceber de que se tenho a posse de bola devo verificar se tenho condições favoráveis para progredir com ela. Se tenho um colega livre em posição favorável e mais próximo da baliza, devo fazer a progressão da bola em passe para o meu colega e procurar nova linha de passe. A seguir a este exercício, em contexto de jogo, reparei que alguns jogadores procuraram fazer exactamente isto.

O problema geral do futebol na China é a pouca inteligência táctica, que leva a que tomem más decisões. Há jogadores tecnicamente evoluídos e com qualidade técnica e física. Contudo tacticamente, as tomadas de decisão em contexto de jogo são muito pobres. É neste aspecto que poderão ter uma evolução muito maior na sua qualidade de jogo.

Mais um dia de passeio por Yan’an

Tal como nos capítulos anteriores, acabo este capítulo com a descrição de mais uma visita turística pela cidade de Yan’an. Desta vez a visita foi a uma antiga igreja católica, construída por missionários espanhóis. Além da igreja, os missionários espanhóis construíram um conjunto de casas em redor da igreja e também algumas casas na montanha em redor da igreja, criando o seu espaço de missão. Vendo essas casas por dentro, é fácil identificar uma arquitectura semelhante à nossa. Com tectos mais altos que a maioria das antigas casas chinesas, bem como o recurso a arcos, enquanto que as linhas arquitectónicas das casas chinesas são mais rectas.

Imagem 1 – Entrada da antiga Igreja Católica de Yan’an

Com a chegada do Partido Comunista Chinês à cidade de Yan’an, os missionários espanhóis abandonaram a cidade, passando o Partido Comunista Chinês a usar a igreja para algumas reuniões de trabalho. Foi nessa mesma igreja que decorreu o sexto encontro do sexto comité do Partido Comunista Chinês. Num encontro que durou mais de um mês, além das muitas decisões importantes para o futuro do Partido Comunista Chinês, a decisão mais relevante foi o facto de Mao Zedong ter sido nomeado oficialmente o líder do Partido Comunista Chinês.

Após essa importante reunião, Mao Zedong decretou que a antiga igreja e os espaços em redor passariam a ser o espaço físico da Escola de Artes de Yan’an, que funcionou durante a guerra contra o Japão. Os melhores artistas chineses da época passaram por esta escola, enquanto professores, transmitindo os seus vastos conhecimentos na área da Literatura, na Pintura/Artes Plásticas e no Teatro.

Os alunos que eram admitidos na escola, além da formação que tinham na escola, tinham que também servir no Exército Vermelho, na luta contra os japoneses. Assim os estudantes tinham 3 meses de formação na escola, sendo que de seguida tinham outros 3 meses a servir na frente da guerra. Além de servirem como soldados, era na guerra que era esperado que ganhassem inspiração para criarem as suas obras de arte, que retratassem de forma fiel a luta do povo chinês contra os japoneses, isto tudo sob o ponto de vista e ideologia do Partido Comunista.

Após o fim da guerra com o Japão, a escola foi encerrada, sendo que alunos e ex-alunos espalharam-se pela China, abrindo novas escolas de artes, que contribuíram de forma decisão para a evolução da cultura da China moderna. Sendo que a base para cultura da China moderna começou em Yan’an.

Por esta semana é tudo. Que durante a próxima semana aconteçam novas aventuras e peripécias para que possa partilhar convosco no próximo capítulo.

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