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Um Treinador na China – Capítulo 7

Um Treinador na China - Capítulo 7

Um Treinador na China – Capítulo 7

Sétima semana de aventura de um treinador de futebol na China. Um país grande em todos os aspectos mas aonde o futebol tem muito por onde crescer e evoluir, se quiser ser relevante no mundo futebolístico.

O tempo passa a voar e já vou na minha sétima semana nesta aventura pela China. Pouco mudou no que concerne à evolução dos grupos de treino . Contudo novas aventuras surgiram, que tenho todo o gosto em partilhar convosco.

A normal evolução nas aulas de Educação Física

Nas aulas de Educação Física desta semana voltei a insistir no controlo de bola e condução da mesma. É verdade que os alunos ainda não demonstram um desempenho assinalável nestas duas técnicas, que me permita acreditar que o consigam executar de forma satisfatória em contexto de jogo. Contudo o vontade na relação com a bola é cada vez melhor de semana para semana. Quando comecei com as aulas de Futebol em Educação Física, para a generalidade dos alunos a bola era um corpo totalmente estranho. Após estas sete semanas demonstram por vezes um vontade tão natural com a bola, que parece que a bola é uma projecção do seu corpo.

As acções que mais faziam ao início e que hoje em dia é raro assistir é a utilização das mãos para parar a bola, quando esta foge do controlo. O facto de ver que eles têm a consciência de que para parar a bola, devo de usar os pés, pois com as mãos é proibido, é um sinal do compromisso, atenção e evolução destes alunos.

Um passo em frente em vez de dois

No capítulo anterior, desabafei convosco sobre a frustração da semana de treinos das equipas de futebol. Esperava que aquela má semana de treinos fosse um passo atrás para dar dois em frente na semana seguinte. Infelizmente não foram dados dois passos em frente na evolução das duas equipas de futebol. Foi somente um passo em frente, mas um passo que me garante confiança que não haverá novo passo à retaguarda nos treinos seguintes.

Voltei a insistir nas situações de 2×1, obrigando a que os jogadores comecem a ter uma maior capacidade de decisão entre progressão em condução de bola ou em passe. No final do treino desta semana, senti que os jogadores atingiram um rendimento neste tipo de situações ao nível do treino de há duas semanas atrás mas muito mais decididos e confiantes no momento da decisão. Espero que nesta próxima semana fique mais consolidado, nas mentes destes jovens jogadores, a importância de ter a bola e saber o que fazer com ela, em cada situação.

Visita de inspecção

Durante esta última semana, decorreu uma visita de inspecção de alguns líderes educativos da província de Shaanxi, à escola onde trabalho. Em conversa com o meu tradutor, este tipo de visita é algo normal, já que os principais líderes e administrativos escolares gostam de ver, em primeira mão, como está a ser investido o dinheiro disponibilizado pelo governo central e provincial.

Nestas visitas eles verificam o que a escola tem feito em termos curriculares. Como tem havido um investimento na promoção do futebol, tive de fazer uma aula de futebol em Educação Física de apresentação. Ao mesmo tempo, as equipas de futebol da escola faziam também uma demonstração das suas capacidades. As duas equipas mais velhas, fizeram um jogo entre si. Enquanto que as duas equipas mais novas fizeram uma apresentação do que acontece num treino da equipa de futebol. Algo muito breve e que não durou mais de dez minutos.

Pelo que entendi, este tipo de visita é frequente. Apesar de todo o aparato criado, acho bem que assim seja. Há que haver um mínimo de controlo de como está a ser investido o dinheiro na educação. É verdade que muitas destas situações são “teatralizadas”, que é para embelezar e por vezes encher o olho a quem vem inspeccionar. Contudo, também obriga a que se tenha as aulas e conteúdos organizados e em dia.

Demonstração da qualidade do Futebol

Como a visita dos líderes educativos à actividade de futebol foi curta (tinham muitas mais actividades para observar), aproveitou-se a presença dos jogadores das equipas de futebol da escola, para se fazer alguns jogos entre eles. Nos vídeos que se seguem podem ver excertos desses jogos.

 

 

Como se pode verificar pelos vídeos, não existe um aglomerado tão grande de jogadores em redor da bola (jogo nuvem). Há uma preocupação de ocupar o espaço de jogo de forma um pouco mais racional, em especial por parte da equipa de vermelho, que por serem mais velhos têm uma melhor compreensão do jogo.

Apesar de o jogo não ser tão caótico como os jogos de inter-turmas que vos mostrei no capítulo anterior, continua a ser a maior capacidade física e técnica individual a terem maior importância para o desenvolvimento do jogo. Quem for mais forte tecnicamente no drible é o melhor jogador e raramente há a preocupação de partilhar a bola com os colegas. É ainda um jogo muito individualista e centrado somente na relação eu/bola. Nos mais velhos consegue-se ver tentativas de passe feitas de forma consciente. Vê-se que há alguma consciência e intenção de passe. Nos mais novos isso é muito raro. Por vezes surge um passe ou outro feito por um jogador tecnicamente mais dotado. Mas a maioria dos passes por parte dos mais novos resultam de dribles mal executados, acabando a bola por sobrar para um colega, ou resultam de um “chutão”, acabando a bola por ir ter a um colega. É neste capítulo do passe, e especialmente a intenção táctica do passe, que estes jovens jogadores têm muito que evoluir.

Um Natal diferente

Escrevo este capítulo um pouco mais tarde de que os restantes. Mas a minha intenção era partilhar convosco a diferença que foi viver o Natal na China. O Natal não é uma data celebrada na China como é em Portugal. Aliás, em Yan’an não existe qualquer tradição natalícia e o dia 25 de Dezembro foi mais um dia de trabalho, como outro qualquer.

Com a recente maior abertura da China para o restante mundo ocidental, ficaram a conhecer o que é o Natal, mas mais o seu lado comercial. As lojas têm algumas decorações de Natal, bem como alguns hotéis. Os mais velhos pouco ligam ao Natal, sendo que entre a geração mais nova possa existir alguma troca de prendas mas algo basicamente simbólico. Não se sente o espírito natalício que se sente em Portugal, por exemplo. Eu nunca pensei dizer isto, mas senti alguma saudade das músicas de Natal que se ouve constantemente nas lojas e centros comercias em Portugal, nesta altura do ano.

A verdade é que o pouco espírito natalício sentido por aqui ajudou-me a não sentir tantas saudades do Natal com a minha família. Sinto que não vivi verdadeiramente o Natal e que quando voltar a casa, para junto da minha família e amigos, esse será verdadeiramente o meu Natal. Desta vez, o Natal na China foi passado com os restantes treinadores de futebol que iniciaram esta aventura comigo.

Além desse encontro com os outros treinadores, na noite de dia 25 fui convidado por alguns professores e treinadores de futebol chineses, para jantarmos todos juntos. Sabendo que esta era uma data importante para mim, eles fizeram questão que tivéssemos juntos para celebrar o Natal. Um Natal diferente e que certamente que nunca irei esquecer.

No próximo capítulo conto partilhar convosco mais das minhas aventuras na China. Despeço-me com os desejos de um Feliz Natal (mais vale tarde que nunca) e de um fantástico Ano Novo, para todos vós, leitores do Bom Futebol.

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