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Um Treinador na China – Capítulo 9

Um Treinador na China - Capítulo 9

Um Treinador na China – Capítulo 9

Nova semana desta minha aventura na China. Uma semana marcada pela constante queda de neve que reduziu o meu horário e trabalho a somente duas aulas práticas. Uma aula de Educação Física e um treino de uma das equipas de futebol.

Aulas de Educação Física

Como referi anteriormente somente tive uma aula prática de Educação Física na semana que passou na China. Aconteceu na terça feira à tarde, ainda antes de ter começado a nevar. Além da neve que caiu e deixou os campos desportivos inseguros para a prática de actividade física, nesta semana entrou um novo factor que impossibilita a dificulta a existência demais aulas de Educação Física: os exames escolares.

Imagem 1 – Boneco de neve à entrada da escola

O semestre escolar aproxima-se do fim (terminará a 19 de Janeiro). Até lá existirão os exames escolares. Como já foi feito feito o “exame” de Educação Física, os professores titulares de cada turma (headteachers) pedem para os professores de Educação Física cederem as suas aulas para que os alunos tenham mais tempo para estudar e se preparem para os exames. Aliando a “época de preparação” dos exames ao facto de neste início de Inverno, em pleno dia, as temperaturas serem abaixo de zero, os professores de Educação Física acabam por ceder ao pedido dos professores titulares de cada turma. Como tive boa parte da semana os campos cheios de neve e gelo, as vezes que me era pedido para ceder a aula para outras disciplinas, acabei por o fazer.

Apenas por uma vez esse pedido de cedência de aula não me foi feito. Como não tinha espaço em condições para fazer aula prática, fiz uma pequena aula teórica sobre o que é o futebol. Aproveitei para passar um vídeo de um jogo de futebol. À medida que determinadas situações iam acontecendo, ia explicando e contextualizando o que é o jogo de futebol. Serviu para muitos destes alunos virem pela primeira vez o que é verdadeiramente um jogo de futebol e conhecerem de forma geral as regras e conceitos básicos de um jogo de futebol.

Imagem 2 – A minha primeira aula teórica de futebol na China

Equipa de Futebol

Terça feira foi também o único dia em que consegui dar o treino de futebol. A neve que caiu durante a madrugada e dia de quarta, impossibilitou que houvesse treino d equipa de futebol de quarta feira.

Como referi no capítulo anterior, eu tinha prometido aos jogadores que na terça feira desta semana, boa parte do treino seria jogo. Referi também que não tinha grande expectativa de que os jogadores demonstrassem uma performance de jogo muito acima do que demonstraram quando aqui cheguei. E não me enganei nesse ponto.

Antes de iniciar o jogo competitivo de GR+6×6+GR, distribui os jogadores por posições de forma a estarem um pouco mais organizados em campo. Essa parca organização durou cerca de um minuto (se tanto). Jogadores a quem tinha dito para jogarem no corredor direito, a jogarem no corredor esquerdo, e vice-versa. Avançados a virem buscar a bola em cima do guarda-redes no pontapé de baliza. Os que mais tempo permaneceram dentro das respectivas áreas de acção eram os defesas.

Nem tudo foi mau. Apesar de não respeitarem o conceito de espaço e área de acção de cada posição, notou-se menos “jogo nuvem” e menos confusão. A maioria dos jogadores demonstrou preocupação em quando a equipa tinha a bola em sua posse, em darem largura e espaço ao portador da bola. Faltou uma maior capacidade da tomada de decisão mas passamos de uma situação de GR+2×1+GR, que andava a insistir nos últimos treinos, para uma situação muito mais complexa de GR+6×6+GR. Foi um aumento de complexidade muito grande de um momento para o outro e os jogadores ficavam nitidamente confusos e intimidados no momento de tomar a decisão entre progressão em condução de bola ou em passe. Mesmo assim muito melhores neste capítulo da tomada de decisão do que nos treinos iniciais.

Eu sabia que os jogadores não estavam, nem estão, preparados para jogar de forma organizada em situações mais complexas de competitividade. Não deixo de me sentir algo frustrado, pois em quase dois meses de treino, com sete treinos dados, a evolução destes jogadores é muito pequena. Talvez o suficiente para os padrões locais da China, mas para aquilo que costumo ver e sei que consigo transmitir, sinto que é pouco. Mas o futebol vai muito mais além que a organização e aquilo que definimos como qualidade de jogo. O futebol é paixão, alegria e felicidade, principalmente de quem joga, independentemente do seu nível futebolístico. A entrega, alegria, paixão com que estes meus jogadores se entregaram neste jogo também é futebol. Não é bonito, para os meus padrões, mas quem sou eu para julgar? Agora é continuar a manter a mesma, alegria, entrega e paixão pelo jogo e melhorar cada vez mais o nível futebolístico. Uns melhorarão muito e outros menos, mas nunca posso deixar que percam aquilo que faz deles serem dos poucos apaixonados por futebol, num país em que o futebol não é desporto rei.

Considerações para o futuro

Como vos disse, esta foi uma semana atípica devido às condições atmosféricas. Não houve grandes aventuras nesta semana que passou. Por isso, aproveito a escassez de novas aventuras e vou partilhar algumas considerações e pensamentos que julgo serem fundamentais para a evolução futebolísitica da China.

No meu entender a competição é o grande motor de evolução no futebol. Temos a competição interna e a competição externa. Internamente, os jogadores da mesma equipa competem entre si durante a semana de treinos por um lugar na equipa titular. A competição entre jogadores da mesma posição, treino a treino, de forma a serem os escolhidos pelo treinador faz com que estes evoluam e queiram ser sempre melhores que o colega. Obviamente que falo aqui de uma competição interna saudável. Externamente, os jogadores individualmente e colectivamente, competem contra outros adversários em situação de jogo. Sejam eles duelos individuais, como por exemplo um defesa central contra o avançado de outra equipa, como em duelos colectivos, entre duas equipas. Tal como na competição interna, na competição externa a competitividade em busca do melhor resultado faz com que queira ser melhor que o meu adversário e para tal tenho que me aplicar em treino para que possa evoluir, como jogador e como equipa.

Na China essa competição é muito parca (se não for mesmo nula), pelo menos na realidade em que estou inserido. Primeiro ponto, os clubes que existem são poucos. Aliás nem se definem como clubes mais sim “football associations”. Depois não existe competição desportiva entre os poucos clubes que existem. Não há um campeonato regular, nem torneios, havendo esporadicamente encontros entre os poucos “clubes” que existem. Os fins de semanas nesses “clubes” são ocupados com os treinos, pois durante a semana não chegam a treinar. O que acontece é os jogadores treinarem durante a semana na equipa de futebol da escola. Mesmo na equipa da escola, treinam duas vezes por semana. Talvez em alguns casos, acima dos sub-17 treinem três vezes por semana. Mas não há verdadeiramente uma competição interna, pois além de muitos faltarem aos treinos devido às aulas (no ensino secundário as aulas acabam às 22h), não há uma “luta” por um lugar na equipa titular porque raramente há jogos competitivos oficiais.

Em termos de competição externa, além dos esporádicos encontros nos “clubes”, na escola as equipas de futebol ficam reduzidas ao torneio de verão, que na melhor das hipóteses (na realidade onde estou inserido) não passa dos 8 jogos, isto se não perder logo na primeira fase. Fazendo então uma comparação ao que se passa em Portugal, imaginemos um jogador português que começa a jogar com 8 anos de idade. Fazendo uma média de 30 jogos por época (entre jogos de treino, campeonato, torneios e encontros), ao chegar aos 18 anos, terá feito cerca de 300 jogos. São 300 momentos em que poderá errar e aprender com os seus erros para melhorar. São 300 oportunidades de competir com adversários com diferentes estilos de jogo, que farão com que involuntariamente promovam uma melhoria na sua performance. O mesmo jovem chinês que começa a jogar aos 8 anos, aos 18 anos terá em média, realizado 80 jogos competitivos. Corresponde a 26% dos jogos que o mesmo jovem português realiza. Ou seja, o jovem jogador chinês realiza pouco mais de que um quarto dos jogos que o jovem jogador chinês. O jogador chinês tem menos 3/4 de oportunidades para aprender que o jogador português.

Portanto a grande falha e que rapidamente tem de ser implementado é a falta de competição regular de formação. Sem competição, o desejo de evolução é menor. É verdade que a China é um país muito grande e as distâncias entre as cidades são enormes. A falta de tempo para os treinos e jogos, bem como a percepção social de que o futebol é uma perda de tempo que rouba a atenção aos estudos escolares, dificulta ainda mais a logística da organização e realização de uma competição estruturada e regular. As condições atmosféricas das zonas do centro e norte da China (baixas temperaturas e neve) sem que hajam infraestruturas indoor também são um factor limitante. Mas estamos a falar da China, a actual potência mundial económica. É um país com a capacidade financeira para dotar as suas cidades com as infraestruturas necessárias para a prática regular da modalidade. E não precisa de haver uma competição nacional de formação. Que se comece com uma competição a nível local e regional e eventualmente no futuro se possa pensar em competições nacionais de formação. O que é preciso é haver uma mudança de mentalidade e de vontade. É preciso começar por existir competição estruturada pela federação chinesa de futebol, sem medos de que as coisas não possam funcionar. Num país como a China o que é preciso é começar. Depois do pontapé de saída tudo o resto surgirá, sabendo de antemão que não será ao segundo ano de competição estruturada que se recolherá os frutos desejados. Isso levará anos.

Neste momento, aqueles que trabalham no futebol na China, estão a preparar o terreno, a limpá-lo e a torná-lo pronto para ser cultivado. É preciso agora plantar as sementes (criar uma competição devidamente organizada e estruturada para os diferentes escalões etários). Depois será necessário dar tempo para que a árvore cresça (deixar que essas competições se estabilizem e se mantenham organizadas). Quando a árvore crescer é que poderão recolher os frutos de todo este processo (jogadores chineses de melhor qualidade internacional). Pelo que ouvi dizer, a federação chinesa de futebol está disposta em plantar essas sementes muito em breve. Foi anunciado que todos os clubes profissionais (primeira e segunda divisão da China) terão que ter obrigatoriamente uma academia de formação desde os sub-12 até aos sub-19, até ao fim de 2019. O intuito de tornar obrigatória estas academias é o facto de se querer criar uma competição de formação organizada e regular. Vejamos como todo esse processo se desenrolará.

Novas aventuras para a semana

Assim finalizo este capítulo pobre em novas aventuras. Para a próxima semana espero ter mais histórias e aventuras para partilhar com todos vocês, leitores do Bom Futebol. Até para a semana!

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