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Uma Aventura na China – Capítulo 30

Uma Aventura na China – Capítulo 30

Trigésimo capítulo desta minha aventura na China. Após as duas últimas semanas de aulas, sem aulas nem treinos das equipas de futebol, está na altura de fazer o balanço desta aventura chinesa. Quis o destino que o rematar final deste espaço de escrita fosse num capítulo com um número tão redondo.

 

Balanço desportivo

Este é talvez o aspeto mais importante, pois foi para o desenvolvimento do futebol na Escola Primária Experimental de Yan’an que eu fui contratado. Dividirei a minha análise ao que foi o meu impacto no futebol da escola em dois pontos: popularização da modalidade e desenvolvimento qualitativo do jogo.

Em relação ao primeiro ponto, penso que este terá sido o aspeto em que terei tido mais impacto. Apesar de não ser uma modalidade totalmente desconhecida por parte dos alunos da escola, antes da minha chegada à escola, a verdade é que o facto de existir um professor/treinador estrangeiro somente para o futebol, suscitou um maior interesse por parte dos alunos.

No primeiro semestre dei somente aulas de futebol em Educação Física ao terceiro ano. Como a aceitação por parte dos alunos do terceiro ano foi bastante boa e havia curiosidade por parte dos restantes alunos da escola a direção da escola decidiu que para o segundo semestre iriam fazer o devido investimento para fazer chegar essas mesmas aulas a muitos mais alunos.

Assim, e em conjunto com a Associação de Futebol de Yan’an, no segundo semestre alargou-se estas aulas de futebol a todas as turmas do primeiro ao quinto ano. Verdade que estas aulas de futebol pouco fizeram para desenvolver as capacidades futebolísticas destas crianças. Mas foram importantes para que muitos destes jovens tivessem o primeiro contacto com o desporto. Eventos como a competição inter-turmas e o concurso de conhecimento de futebol, foram também momentos importantes que ajudaram a plantar a semente da paixão do futebol nas crianças, que se espera que cresça forte.

Quanto ao desenvolvimento qualitativo da capacidade de jogo da Escola Primária Experimental de Yan’an, devo de dizer que esperava ter um maior impacto. Poucos treinos, com muitos a serem cancelados devido a uma panóplia de desculpas que iam desde as condições atmosféricas (neve ou chuva) até ao facto de simplesmente ser cancelado o treino sem razão aparente para tal.

Apesar do facto de ter ficado com a equipa masculina mais jovem e com a primeira equipa feminina de sempre da escola, com jogadoras sem qualquer experiência do que é o treino, sinto que houve uma evolução em relação ao que estes jogadores e jogadoras eram antes de começarem a serem treinados por mim. Mas acredito que com outras condições a evolução teria sido maior. Não esquecendo o facto, de que sem uma competição para estas equipas foi-me impossível de observar em contexto competitivo a real evolução destes jogadores e jogadoras, sendo que este é grande momento de observação de todo o processo de treino e ensino.

Posto tudo isto, o balanço que faço ao que foi o meu desempenho profissional resume-se a isto: popularização e promoção do futebol pelos alunos da escola foi um sucesso; o desenvolvimento das capacidades futebolísticas dos jogadores ficou aquém do que estava à espera.

China: toda uma nova realidade!

Óbvio que o balanço de toda esta aventura não se pode ficar pelo aspeto profissional. A oportunidade de trabalhar e viver na China permitiu-me ficar a conhecer um pouco melhor esta cultura milenar mas que muitos ainda desconhecem ou têm uma ideia errada.

Não vou entrar por questões políticas, pois esse não é o meu forte nem o meu propósito. Contudo encontrei uma sociedade chinesa diferente daquela que eu pensava que era. Esperava encontrar  uma população chinesa fechada, desconfiada perante um estrangeiro e até de certa forma antipática. Contudo deparei-me com totalmente o oposto. Pessoas muito educadas e simpáticas. Mesmo quando era notório que não nos compreendíamos nunca vi em nenhum chinês alguma expressão de desagrado ou impaciência. Muito pelo contrário sempre um sorriso a descomplicar uma situação embaraçosa.

Fui recebido em Yan’an por pessoas muito afáveis e atenciosas, sempre dispostas a dar o melhor de si por mim. Incontáveis jantares e encontros, em que sempre se prontificaram a pagar tudo, ficando quase “ofendidos” se não fossem eles a pagar.

Quanto à cidade, uma cidade pequena para o que é a dimensão da China. Talvez o facto de ter ficado nesta cidade tenha amenizado o impacto da diferença cultural entre o oriente e o ocidente. Apesar de pequena, ainda assim Yan’an reflete aquilo que é a sociedade chinesa. Algumas pessoas vivem uma vida de bastante desafogo económico. A maioria numa classe média com bom poder de compra e com oportunidade e liberdade para consumirem o que desejam. E uma parte da sociedade que ainda vive com grandes dificuldades económicas e sociais.

Um pouco à semelhança do que sucede em Portugal, também na China se verifica um fluxo migratório da população do meio rural para os grande centros urbanos. Há mais oportunidades e qualidade de vida nas cidades, o que faz com que alguns ainda repartam a vida entre a cidade e a vila ou aldeia. Mas cada vez mais são aqueles que se fixam de vez nas cidades em busca de uma vida melhor. Apesar disso mantêm um conceito de unidade familiar muito grande, pois quando muitas dessas pessoas se mudam para as cidades trazem os seus pais consigo.

O aspeto que me fez maior confusão na sociedade chinesa (sem ser a forma como eles conduzem) é a gritante falta de organização. Aliás acho que eles nem sabem o que é organizar e planear com antecipação. O que hoje é verdade, no dia seguinte já é totalmente o oposto. Acredito que esse foi mesmo o aspeto em que senti o choque cultural com toda a força. Hoje em dia é ainda algo que não consigo aceitar.

Ainda há muito mais da China para eu descobrir. A cultura chinesa é uma fusão de várias culturas muito diferentes, ou não fosse este país maior do que a Europa. Contudo fiquei bastante agradado e fui positivamente surpreendido com o coração e carinho da população chinesa der Yan’an.

O fim de uma Aventura na China?

O fim do ano lectivo marca o fim deste artigo. Para já. Em Outubro regressarei a Yan’an mas desta vez para uma outra escola primária. Será uma realidade nova ou igual? Em Outubro ficarão a saber. Agora é altura de dar um pequeno descanso e regressar a casa, para junto dos que mais quero e matar as saudades. Até à próxima.

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