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Você ensina o seu atleta a perder– 2ª parte

Você ensina o seu atleta a perder?– 2ª parte

É realmente importante trabalhar a derrota com as crianças e jovens na formação.

Vocês se lembram da situação do Alex com a derrota do último texto?

Pois é, aconteceu de novo. Mas dessa vez não com ele, mas sim com o João. E esse é o motivo d’eu estar escrevendo mais uma vez sobre a importância do ensino da derrota na formação de crianças e adolescentes.

João também tem 6 anos e esse é o primeiro ano dele com a gente na UFOP. Ele tem uma característica marcante jogando, que é o de chutar e cair no chão. Ele simplesmente não consegue chutar e ficar em pé na maioria das vezes. Estamos trabalhando isso com ele, tentando mudar esse vício dele, mas por enquanto não conseguimos totalmente.

Tirando essa mania dele, João é um aluno que dá conta de realizar tudo o que pedimos nas aulas e um dos que mais se desenvolveram neste ano. E foi ele quem ganhou do Alex na brincadeira de 1×1 do texto passado. Só que, diferente do Alex, na hora do jogo, ele toca a bola para seus companheiros de times e não tenta jogar sozinho.

Entretanto, na quinta feira passada, durante o jogo, colocamos cada um em um time. E o Alex logo marcou o gol, em falha do João, que deixou a bola passar por baixo do corpo dele. Em nosso projeto, sempre trocamos o goleiro a cada gol sofrido ou depois de certo tempo. O João, após sofrer o gol, foi para a linha e começou a correr feito um louco, trombando com o Alex e cometendo várias faltas na tentativa de roubar a bola. Em um desses lances ele caiu no chão e eu percebi que ele estava bufando e com os olhos cheios de lágrimas, apesar de não estar chorando.

Após perder dois gols na cara, muito pelo fato de cair no chão ao chutar, o João fez uma falta mais dura no Alex e começou a chorar deitado no chão. Demorou um pouco até que ele se levantasse e resolvesse ficar na barreira. Mesmo eu tentando conversar com ele, as lágrimas não paravam de cair dos olhos do João enquanto ele olhava fixamente para a bola, como se eu não estivesse ali perguntando para ele se estava tudo bem. O Alex cobrou a falta para fora e o jogo terminou 1×0 para o time dele. O João saiu pisando duro, deixando a avó dele para trás, e foi embora sem se despedir da gente.

Porque não aceitamos perder?

Porque a derrota incomoda tanto as pessoas? Há alguma forma de mudar isso?

 Na terça feira não consegui ir ao projeto, pois havia chegado de viagem de madrugada, após uma competição com a Medicina. Por isso não pude conversar com o João sobre o fato da quinta feira. Ao conversar com os outros professores do projeto sobre como o João havia se comportado, eles confirmaram o mesmo comportamento. Entretanto, dessa vez, não teve choro ou a bufada, mas quando ele estava perdendo nas atividades ele as fazia de qualquer forma, sem o mesmo interesse. Totalmente diferente da postura dele de quando estava ganhando.

Temos uma brincadeira chamada “Rei da Quadra”, onde dois jogadores se enfrentam até o primeiro gol e quem ganha continua jogando e quem tem o maior número de vitórias no final da aula é “O Rei da Quadra”. Os professores fizeram essa brincadeira na terça e disseram que o comportamento do João só começou a melhorar quando ele ganhou do Alex por duas vezes seguidas. Mas como o Alex no final foi o grande vencedor da brincadeira, o João acabou indo embora chateado novamente.

Resultado: Antes do treino de ontem, aproveitando os 10 minutos iniciais, chamei o João e os outros meninos para conversar a respeito.

Comecei perguntando para ele se havia alguma rivalidade com o Alex, e ele negou. Detalhe: o Alex ainda não havia chegado ao treino essa hora. Quando ele chegou, refiz a pergunta, dessa vez para ambos, e eles negaram.

Perguntei para ele se ele gostava de perder e ele disse que não. Quando perguntei se ele lembrava a conversa com o Alex, ele disse que sim. Nessa hora, o Luiz (outro nome inventado) disse a seguinte frase que norteou a conversa até o final dela: “No final de semana, meu time e o do João jogou e perdeu por 7×2 lá no campo”. O Luiz é um menino de 6 anos e estuda na mesma sala do João. Eles jogam Futsal com a gente durante a semana e aos sábados jogam Society em outro time. Quando perguntei se eles haviam perdido porque o outro time era melhor, o Luiz deu a seguinte resposta: “O time deles era melhor e não tinha nenhum menino de 6 anos. Só tinha menino de 7 e 8 anos e por isso eles ganharam e a gente perdeu”.

Nós sabemos perder? 

 Como a cobrança por resultados em cima dos treinadores acaba tornando nossos jogadores mau perdedores.

 O Brasil, mais até que no resto do mundo, tem uma cobrança exagerada por resultados.

Se o treinador não ganha jogo, não conquista campeonatos, perde para o rival ou não monta uma equipe competitiva, ele é mandado embora.

Exatamente por conviver com essa pressão por resultados, os treinadores acabam por muitas vezes transferindo essa responsabilidade de vitória constante para seus atletas, o que acaba criando um círculo vicioso perigoso.

Na semana passada, li um texto interessante da psicóloga brasileira Kátia Rubio, intitulado “Perder é parte de um jogo lúdico, limpo e justo”, que aborda alguns pontos interessantes sobre a vitória a qualquer custo. A principal causa disso, segundo a psicóloga, é pelo fato de que os derrotados sempre são esquecidos, independente do esforço realizado por eles em tentar vencer.

Simplificando, é o seguinte: Quem ganha é exaltado e lembrado. Quem perde, resta o esquecimento.

Sabe aquela famosa frase: “O segundo lugar é o primeiro dos derrotados”. Pois é, bem esse sentimento. Tanto é que você pode perguntar para quantos treinadores quiser se eles preferem ser segundo ou terceiro lugar, caso eles não sejam campeões e te garanto que a maioria vai responder: “Terceiro. Porque pelo menos eu ganhei de alguém”.

Se os próprios treinadores não sabem conviver com a derrota, como eles vão ensinar seus atletas a conviver com ela?

É fato de que, independente do time que eu tenha, eu não vou ganhar todos os jogos que disputar. Muito menos ser campeão de todos os torneios que participar. E, mesmo que tenha ótimos jogadores jogando comigo, um dia ou outro eles vão estar em um dia ruim e eu vou acabar perdendo um jogo.

Principalmente se olharmos que, independente disso tudo, do outro lado eu terei um oponente que entrará para me enfrentar com a intenção de ganhar de mim.

Se a competição é algo inerente ao Esporte, há a mesma porcentagem de vitória, derrota ou empate em uma partida. E isso é fato real.

Agora, se todo treinador, todo dirigente e todo jogador conhece essa realidade, porque é tão fácil admitir que sim, podemos e vamos perder algumas vezes e isso faz parte do processo?

O vencer e o perder na formação.

 Se nem os melhores times do mundo ganham sempre, porque o meu tem que ganhar?

Há um trecho no texto da Kátia que diz o seguinte:

“Se a competição na atualidade remete à necessidade da vitória como afirmação de superioridade sobre o adversário, vale ressaltar que não se pode pensar em competição nem vitória sem a presença do oponente.

Uma vitória não é idêntica a uma experiência de êxito. Da mesma forma que uma derrota não é, em si, uma experiência de fracasso.

A experiência de êxito surge quando o rendimento esperado foi alcançado ou superado. Já a de fracasso reflete a diferença negativa entre o resultado esperado e o obtido.

Em tempos de disputas acirradas no esporte, na política ou na vida acadêmica, esquece-se que o outro é uma referência fundamental para a construção de um projeto coletivo. E que perder é parte de um jogo lúdico, limpo e justo.

E a derrota pode levar a dois tipos de conduta: ou provoca o abandono da vida competitiva ou produz um fortalecimento de atitude.

O sentimento de inferioridade derivado da derrota, quando não se cristaliza em frustração permanente, produz a reorganização das forças pessoais. E aí está o princípio da superação.”

Como já disse anteriormente, vencer ou perder faz parte do ambiente esportivo e nós temos a obrigação de saber conviver com estes sentimentos, além de termos que trabalhar ambos com nossos atletas.

Se nem os melhores times do mundo ganham sempre, porque o meu tem que ganhar?

Os treinadores já vivem com uma pressão absurda, não deveriam conviver com a obrigação de ganhar sempre. Até porque acabam transmitindo isso para seus atletas e a cada derrota, o sentimento de frustração acaba sendo mais trabalhado na formação do que qualquer outro.

Troféu e medalha deve ser resultado do esforço realizado pelo seu time para vencer os adversários que você vier a enfrentar. A dedicação, esforço e compromisso do seu time deram resultado e você venceu. Caso seu time tenha perdido, você analisa no que o adversário foi melhor e você busca melhorar para vencê-lo na próxima vez que o enfrentar.

Dessa forma o treinador vai contribuir de forma muito mais positiva com a formação dos seus atletas do que com uma cobrança absurda por vitórias a qualquer custo. Ele poderá levar essa postura para a vida dele fora do Esporte, inclusive.

Com relação ao caso Alex – João, após a conversa com a turma, fizemos um Atlético x Cruzeiro no final e colocamos cada um em um time. O Alex é atleticano e o João é cruzeirense. O jogo correu tranquilamente, acabou 0x0 e os dois jogaram bem tranquilos, sem qualquer sinal de rivalidade.

Vamos ver se eles continuam assim nas próximas semanas. Sabemos que o nosso trabalho, tanto com o Alex quanto com o João, está apenas começando e o caminho é longo.

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